31.1.07

Mitos Urbanos II: da sedução (como apêndice)

Mitos Urbanos - seduzir: recusado por demasiado óbvio

Hoje, estive entre eles. Aconteceu-me partilhar o almoço com seis homens na casa dos 30 aos 45. Colegas do meu part-time, clientes da empresa, possíveis futuros clientes (que agora o serão, por certo!). Se sempre escondi a minha beleza discreta e me furtei a seduções, hoje forçaram-me a prova de feminilidade que roçou o tórrido. Mais uns minutos e eu teria dançado sobre a mesa, como o P. sempre me disse que gostaria de me ver, estava eu nos meus 22 verdes aninhos. Hoje, estive em dia (de) "verde": écharpe, brincos & olhos verde-musgo realçados por sombra preta como a noite. Roupas negras e cingidas sob largo casacão negro, saltos altos q.b. para balancear o corpo ao caminhar, cabelos ligeiramente escalados, maquilhagem discreta, lábios cheios de ousadia e mais belos do que nunca (a idade faz-me bem!) estive no meu melhor de sempre. Onde quer que entrasse, senti o poder de todos os olhos masculinos sobre mim. Ao contrário dos outros dias não baixei o olhar, não corei, não me esquivei ao uso de um sotaque neutro, voz e dicção que sei poderosíssimos no seu todo e que intimidam as mulheres e as fazem voltar-se em lojas quando falo ou os colegas fazerem silêncio quando em reuniões tenho de intervir... Sempre soube que me bastaria pouco para captar olhares. Evitei sempre seduzir porque me desgasta o espírito e me contraria a formação gnóstica de feminil-deusa-discreta. Por ser esse lugar onde aporto demasiado perto do que ocupam as pessoas desesperadas por aprovação, sempre neguei uma sensualidade que abriria portas onde acedem todos os falhos de talentos. Sempre fui too tough on myself, durona com os meus preconceitos sobre aquilo que represento. Hoje, aquele bando de homens espevitados desafiou-me a mostrar-me sedutora, apenas com o fito de ser pontuada de um a dez... Entre outras coisas descaradonas ... fumei o meu primeiro cigarro! Aquele adereço entre os dedos e a belíssima aliança que uso na mão esquerda (o que eu me rio com as perguntas que me fazem sobre o compromisso!...) para criar distanciamento na profissão, senti-me uma italianíssima Monica Bellucci! A magia que se sente quando se olha nos olhos um comparsa de tolarias para que ele nos classifique como fêmea altamente beijável! Bastou-me olhá-los intensamente nos olhos com os meus risonhos e semicerrados durante... 3 segundos! E o efeito daquele cigarro - que dispenso, preferindo o meu hálito puro, os meus dentes de neve, a minha pele de adolescente a um apêndice de inseguros -, a minha desfaçatez, a minha INSENSATEZ (adoro a palavra!) perante seis marmanjos babosos e orangotanguescos que se acreditavam donos da situação porque isso me faria bloquear... «Ah, querem luta, é?...»: Inês Alva - 6; Símios - 0!


Em termos evolucionais - e que me perdoem os meus leitores deliciosamente entradotes e charmosos que me seguem as palavras com fidelidade que aprecio - os homens estão, de facto, demasiado siderados pela beleza para serem considerados tão inteligentes como elas. Como nós. Como eu, que respondi às provocações de um séquito e ganhei uma aposta X 6. Já percebi - entre outras supostas verdades - que eles me preferiam fumadora (alibi para gestos cinéfilos e trejeitos labiais que os excitam até ao doloroso, se for usado o vagar certo e um certo ar de frieza ou desprezo), de andar que ondule as ancas em balanços de corpo felino, sentada de perna alçada, para pôr de lado o corpo e assentar na mesa um cotovelo atrevido, o penteado arumadinho, escalado, mas suficientemente nonchalant (adoro este termo!) para que se atirem para trás cabelos em gesto de diva, expondo apenas um lado da face, meia boca, um só olho sob o fumo de um cigarro, todo o pescoço, parte da nuca, parte do meu colo de garça (sou Inês ou não sou?) que, percebi, nunca, nunca deve mostrar a raiz dos seios mas dar pistas sobre a(s) forma(s) (essa de que eles gostam de fundos decotes é treta de carroceiros desesperados): eles gostam é de imaginar! Imaginação, muito, muito mistério e, sobretudo, CÉREBRO! O "timing certo", as palavras certas, os silêncios certos na cumplicidade necessária, as piadas sem excesso de sumo, e ouvir, ouvir, ouvir. Ter amigos entre os seres da masculina espécie tem-me ensinado a ser mais mulher, o que não passa necessariamente por seduções óbvias e esgotantes. A sedução permanente cansa-os. Deixemo-los darem-nos suave caça: deixemo-los acreditar que comandam. Afinal, não é esse o jogo?

A minha pontuação excedeu as expectativas e, graças a Deus, fui salva pelo toque de entrada para as aulas! Na minha cabeça cantava um sensualíssimo, delicioso Jonny Lang, pleno, pleno, pleníssimo de talentosos blues com swing de rock n' roll e senti-me Jessica Rabbitt com cérebro de Bellucci! A actuação acabou. Saí reconfortada, o meu pisar fez-se mais seguro, estremecia-me o corpo pelas colunatas que são as pernas femininas e alojou-se algures no meu centro um sabor mais acre do que o orgástico. Senti até ao âmago aquilo que preside a tudo e passa pelo cérebro e seus bons malefícios, esconjuros, malícias: poder! Ter ascendente sobre, ter "O" poder. Sabe a pedra de sal no centro da língua: queima! Ah, fogo bom (dum raio)!

;o)

P.S. Post a pedido. As outras fêmeas - supostamente alfa - queriam saber tudo! Pronto, TPC feito!

Boas noites! Salinas, salerosas, sábias!

30.1.07

Bon nocte, Bulgaria!

O que faz alguém "navegar" no meu blog durante duas horas e quinze (33 page views), voltando agora à noite para completar as 3 horas de leituras, devorando, inclusivamente, os meus posts em francês?... Ignoro, mas sabe bem. Com esta moda das vozes a excitar tantas bloggers baratuchas, caro amigo búlgaro, ainda bem que ainda não tenho audioblog, ou arriscava-se o meu leitor a voar para a Lusitânia ainda esta noite, só por um dos meus suspiros... A calidez fresca numa voz de fêmea não é para quem quer. Fique-se pelo meu sorriso dos 22 anos que mantém igual frescura (não, não faço o culto da juventude, simplesmente não mudei desde a foto!). Considere-se um (ainda) não-siderado! Leia, leia-me. Leia-me muito e de-va-ga-ri-nho & durma com os anjos, sim? Beijos lusitanos!
;0)
[Piscadela de olho suspirada em búlgaro]

Mais do mesmo: Mitos[es] Urbano[a]s

. Afinal, o suposto Mito Urbano relativo a informações avulsas de violações em noites discotecárias é mesmo baseado em relatos fidedignos. Segundo consta, medicação que inviabilize reacções defensivas e memorização dos factos e dos rostos circula nas noites dos E.U.A. e da velha Europa. Pensa-se agora introduzir nessas drogas algo que as altere, deixando rastos do seu uso nas vítimas. Na notícia radiofónica, referia-se a "responsabilização" dos farmacêuticos na venda de fármacos contendo o princípio activo representado por iniciais que não fixei...
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. Como me tinham dito os mais avisados, a entrevista da Goulão, tal como a da Quevedo (aguentei 3, 4 minutos de cada uma) foi [com licença] "uma merda". Assim me dizem, assim confirmo, sem mais a acrescentar além do facto já de si repulsivo: "vozes sem duende*". Uma alma é uma voz.
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. O blog que o meu amor identifica como o melhor dos dezasseis (!) que criei desde 2003 tem tido as visitas suficientes que me mereçam novos posts por estes dias. Já tinha saudades do que é vetusto e venerável. Tentarei colmatar o facto ouvindo mais a Antena 1. Mas não aos domingos. Não aos domingos. Qualquer humano não-néscio, minimamente inteligente percebe que o Rolo Duarte pretende (ainda e sempre) apoucar os blogs. Tem conseguido. Com amigos como estes...

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Definitivamente, a Mitose que dá título a este post deixa-me apreensiva e aqui fecho a minha escrita circular e agridoce: as células dividem-se sempre reproduzindo-se em iguais... não era?...

Boas noites, mundo. Ah, Metropolis... Ah, Fritz Lang...
* expressão de Garcia Lorca, aqui usada sem a autorização do amigo que dela faz bom uso. Salvé, señor!

28.1.07

Grazzie / Gracias / Merci / Thanks / Danke / Obrigada!

Aos leitores - por bem vindos - a esta singela casa do farol. Apesar das minhas ausências, do culto do despojamento, da antipatia programada e da simpatia genuína ao retardador que o sorriso anexo em azul turquesa bem confirma, voltam e voltam e voltam... On & on et encore et encore et...
10 000. Dez mil visitas em quase 4 anos! Comovo-me. Obrigada por isso. Quero vê-los a todos no lançamento do primeiro livro do Azimutes. Recusarei autógrafos, mas darei rosas, beijos, sorrisos.
Também terei palavras, aquilo de que mais sei. Aliás, sem elas, nada...
;0)

De sobras & lepismas

Sempre encarei os necessitados de simpatia como pessoas tendencialmente fracas e dignas de piedade. Não me refiro aqui à simpatia genuína, a que faz sorrir aos mais pequenos entre os humanos - as crianças - como eles próprios fazem entre iguais; aos vizinhos que dificultem vidas por não cumprirem normas de bom comportamento; à vendedora que, no supermercado, tenta empurrar-nos mais uma boneca de trapos que simbolize nova "causa" digna da simpatia social; ao idoso ou doente oncológico a quem a vida fez os movimentos mais brandos, lentos, lentos de mais para nós, os que, na flor da idade, têm energias aparentemente inesgotáveis e conduzem e conduzem-se com pressa, sempre muita pressa. Fascina-me a estupidez crassa de quem se julgue interessante porque a esse nível põe os supostos amigos. Se os seus forem melhores do que os nossos, sentem-se no topo da espumosa imundície comunal. Falácia: também Salieri privou com Mozart; Napoleão deve ter estado rodeado de escumalha; qualquer anónimo pode ser a nata da cultura de um país sem que, para tal, tenha tido de partilhar cama e/ou mesa (nos seus sentidos possíveis) com quem, supostamente tenha um nome. Há, de facto, muitas formas de prostituição. Neste naco de terra a que muito pretensiosamente se chama país, impera um bando de parasitas: aqueles que, habituados ao saque de tudo o que possa luzir, de tudo são capazes, em frágil tentiva de aprovação. A isso, não chamo simpatia. Quando há segundo objectivo, sempre que há como fito aparecer, ter nome - seja para receber sorrisos, aplausos ou meros imundos proventos - não se chama a isso simpatia. Quando muito, aplique-se-lhe o termo sympathy. Dar os pêsames, apresentar condolências a tal sorte de ignaros é o mínimo, o máximo, o pior que se pode fazer-lhes, porque o Tempo não é cego. Não é cego quem nos cerca e quem se vende só passa esta mensagem: prostitui-se. Sejam quais forem os ganhos, serão sempre um insulto: à suposta inteligência dos profissionais da adulação, aos supostos amigos melhores, a todos os que, supostamente não entrem nesse círculo tóxico. Grandes escritores descreveram essa náusea que prevalece como fundo neste povo. É mínimo, poltrão, risível um povo que se empurra em busca de apoio e se trai a si mesmo sempre que, necessitado de aprovação, se soergue nos bicos de pés menos imundos do que a suposta alma que traz dentro. Será, talvez, da minha formação gnóstica, mas se eu tiver que vender-me um dia (vender a alma, porque antes de mais cometeria, com toda a naturalidade, hara kiri) antes, muito antes, terei comido, perante Deus, o pó do chão. É preferível comer terra do que vender o que se é em nome de um único aplauso. Porque antes, muito, muito, muito antes do bíblico lugar-comum «Vaidade, tudo é vaidade», há uma outra vertente do real que ultrapassa o pó: há os bichos da terra, os que comem o pó dos livros de todas as bibliotecas do mundo e há, em nós, mais de finitude do que de eterno. Em última análise - brilhe ou não em nós a divina centelha que nos traga a luz de dentro dos olhos quando usamos bem e da verdadeira simpatia - há um lugar que visito todas as semanas e onde restam sobras. Aconselho muitos a passagens por lá, para que se lhes ponha em perspectiva o caminho a palmilhar. Ali há silêncio, despojamento obrigatório, não se agrupam os nomes por cunhas. Ali, cada um é o que é, o que sempre foi, dali, daquilo, não se passa adiante. Ali, até as flores mais frescas são alvo da caducidade e pouco mais tempo duram do que a chama de uma pacífica, despojada vela. Ali são as sobras das sobras das sombras: chama-se cemitério.

22.1.07

Afloramento

A tua mão no meu peito, sustentando este baque acéfalo que te traz dentro, diz-me que estou viva. Escrevo sob o domínio dos sons que fluem sob o meu sorriso. Irradias-me os dias desde este dentro de caixa torácica. Tudo faz sentido desde o dia primevo. Para ti corria até hoje a água que sou. Em fogo, acolhes-me, braços abertos da calidez que me diga que avance. Misturo os sons com os prismas de cor da lágrimas felizes, ensalivo-te a boca sedenta de mim, profiro insanidades que te ericem tímpanos vibrantes: vives da minha voz, sei o poder que encerro; levo-te à loucura que me arrebate no fim. No amplexo descomplexado esvaio as horas já sem esperas, peço-te a morte, decisões, mãos em firmezas de últimos dias de vida, sangue e linfa, sal e mel, vidro moído e plumas, corro ao teu lado, a brisa perpassando-nos os corpos-ectoplasmas de homem e mulher cujo amor asfixiaram todos os olhos dos ímpios. Amo-te até ao devoramento devotado em lentidões de precisão-bisturi. Amo-te avassaladoramente. E quero-te por inteiro. Prende-me estas mãos de pulsos correndo céleres ao fio da faca: salva-me de mim, salva-me de mim, salva-me do mundo que me esmaga. Nasci aninhada no cheiro morno e agridoce dos teus braços, eu, o teu nicho, eu, a fêmea-total, a que se priva para ter, a que enlouquece quem a aprisione, a que sempre te fugirá para que a busques, para que te dê trabalho a conquista sistematizante, obsedée: nasço todos os dias, todos os dias renascerás comigo, levo-te dentro, aqui. Ama-me devagar e terás esse nirvana que eu, menina pequena e mulher sábia trago no âmago do meu centro, no mais profundo pico de montanha invertida, ali onde nascem flores azuis metileno deste fogo que me faz ígnea, branca, deslizante em gemidos de mais, quero mais... E já sabemos que és tu o culpado único deste crime: acendeste-me. Agora, alimenta o monstro sequioso que criaste, uma voz rouca que apenas cobre um tule negro com pequenas flores bordadas, fazendo sombras, as teias projectadas dos lugares por onde deves insinuar a tua boca quente e avara. Sofre comigo. De prazer igual.


17.1.07

Adstrito

. X vai finalmente publicar; outros se preparam para tal; a mim, já mais faltou...
. I. melhorou da "inflamação pulmonar" (?);
. K no trabalho: perto de inusitadas realizações, resisto a um semi-deus que aprendeu a ocupar o seu lugar & aposto a vida que nenhuma outra o rejeitara antes (confuso, confuso, he wonders... "why the hell...") Pobres homens ricos e belos!... Só o carro que conduz já pagaria a minha casa... Digo para mim, riso matreiro colado à boca: Go to hell, baby!!! There's a mind inside this body!;
. Queimo um incenso (na caixinha azul-cobalto figuram os belos, misteriosos dizeres «Satya Sai Baba - Nag Champa - Agarbatti» Eh pá,tu lá sabes...); oiço os liverpoolianos em Here Comes the Sun e depois os já mais escurinhos Temptations com Papa Was a Rolling Stone ali no FineTune ao ladinho, perto do meu risinho; abano a carola; saboreio pão mal cozido com chocolate preto; bebo Frize de limão (organisminho meu, aguenta-te, sim?); digito a correcção do teste número 3 para a criançada; saio desta esfera de influências e fixo-me no cristal de quartzo-pirâmide que hei-de oferecer a quem dele se mostrar merecedor (creio que será um sortilégio para libertar-me de certo bonito com porte de Adónis entradote, digo-lhe, assim à lisboeta-estúpido(a)-tia-loira-de-T'lhârash ô d' Cascásh, corpo-em-barrica miss piggyzesca, riso falso de rictus que finge voz risonha p'ra espantar tolos: ôça lá amig', 'zapareça-me da frent' q'eu já nãinhand'a vê bãin, pcébe, ó jaitôz'? Então vá...")
. Shhht, FECHAR OS OLHOS!!!
Anita Baker
(deusa, deusa, deusa!)
canta
Body and Soul...
(ali na minha music box, ao lado)
MMMmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm...
Dá-le, mostra-les, Anita!
Tásse! :0)

15.1.07

Elas X 3

Hoje.
Este post é sobre elas.
Este post é sobre hoje.
Por três histórias (sim, com h), este post eterniza desta anónima as simples impressões na retina a papel-químico.
Três mulheres.
1. Uma, envolta, como eu, em acidente breve. Somos vários. Param-se viaturas rasuradas nos brilhos de cinco minutos antes. Trocam-se números: não há tempo para mais, urge-nos o trabalho em diferentes cidades, direcções dos pontos cardeais a perder de vista... Alguém me liga depois. Assombro: que confia! Confia, gostou de mim, dispõe-se a ajudar no necessário, que é preciso confiar nas pessoas, uma vez que poucos - nos nossos tempos inóspitos - teriam parado, atendido a chamada, assumido erros... (pasmo com os sinais que Deus insiste em enviar-me.)
2. Duas: uma, eu saudável, flor da idade, duas pernas que a desloquem, ágeis; outra, ela doente, mais de meia-idade, duas pernas, uma saudável, uma que se arrasta, uma outra ainda, postiça, em bengala de motivos orientais... Refeição comprada, ninguém lha poderá levar a casa. Braços ocupados, uma mão não-reactiva, lentidão, ela reclama: o restaurante deveria pensar nos que, sem facilidade de movimentos, requerem saco próprio ou cordel que segure a embalagem. Embora carregada, ofereço-me, que é já ali, a uns quinhentos metros, não custa nadinha. Sem procurar, faço nova amiga: ela abençoa-me! (Abençoo-a eu, por me ter dito tanto em alguns passos incertos, infirme de mundo.)
3. Três: Ela trabalha, como eu. Frescuríssima, no seu rosto breve, corpo esguio de jovem mãe, asseio até nas frases, riso franco e alvo, a estampa da típica rapariga nortenha com a classe e o savoir faire minhotos, sinceríssima, o profissionalismo ali mesmo, ao meu lado, como é seu costume. Assim, sem mais, ela - que já lutou pelo melhor em muitos tipos de trabalhos na vida, uma lutadora como eu apenas sonharia ser - decide contar-me o que quer "ser para sempre, a partir de um dia destes"... Pasmo de novo. Digo-lhe que é a terceira coisa fantástica no meu dia. Ri comigo. (Mal sabendo que o meu dia começara acidentado, sabe que eu abençoo o desaire que me mostre como fui feliz até aí...)
Estas três mulheres fazem-me sentir digna. Inteira. Ignoro a maior parte das suas vidas. Ignoro se fizeram abortos e ainda bem - pois esse é o papel de Deus e eu sou feliz só com o que vejo ao nível destes olhos e sinto com os seis sentidos em pleno - mas fazem-me sentir digna. Inteira na minha feminilidade. Penso então nessas profissionais do palavredo supostamente respeitáveis, as que se dão pelo nome: penso nas bloggers que ao que dão como alimento ao mundo apõem o nome de um homem, o pai. De todas, quase todas as que se dão pelo nome deixaram sempre - nessa marca de família que é o nome do pai -a feminilidade forçada, o intenso odor do asco, um sorriso amarelado enxofre, indizíveis amarguras ao nível de frases como "a barriga é minha" (infelizmente, também o cérebro!)...
Da enorme massa anónima das bloggers portuguesas sai então a graciosidade que não lhes negue a raça digna dos genes em i grego, sem intuitos de arma-de-arremesso, sem medir amigos, sem medir carreiras, sem medir supostas metrossexualidades de vão-de-escada "o corpo é meu, desfaço nele o que quero". Senti-me indignada por ser mulher quando li os blogs supostamente bons, os sem-papas-na-língua, os que não daria a ler às minhas alunas, às minhas amigas, às minhas filhas, à minha mãe. Ou sequer - mais libertários eles fossem - aos iluminados homens que amei, porque essas são justamente as mulheres que eles se cansaram de conhecer espelhadas na palavra vulgaridade. Nenhum dos homens que amei suportou, suportaria a vulgaridade por isso me amaram de volta e por isso ainda me chamam e para sempre amiga, irmã, Mulher... É essa a minha medida. A medida da minha dignidade é a medida das mulheres que amo por espelharem as mulheres de certa cepa. Porque, mesmo não querendo ser Deus, não sei medir o mundo senão a partir do que me foi dado como legado: rectidão; ternura; humildade. O que é genuíno, então?
É a mulher 1, pela sua ternura;
É a mulher 2, pela sua humildade;
É a mulher 3, pela sua rectidão.
Do resto, sobra o folclore do eu-também-tenho-uma-opinião-sobre das mulheres do meu país que, de inodoras, insistem agora em agitar os braços, mas nas horas de estar por perto para os compromissos com as suas supostas convicções, os deixam caídos. Porque, após o mediático, não querem saber. They just don't care. Nem da ternura, nem da humildade, nem da rectidão. Bichos de prazeres barulhentos e muito pouco espírito de grupo, comprazem-se em ruídos de fundo, quando o fulcro desta questão - como de tantas outras - lhes passa acima, ao lado, muito perto do desnorte, a milhões de anos-luz. Desgraçadamente, a maioria já teve acidentes, problemas de saúde, falta de trabalho, como as mulheres 1, 2 e 3. E contudo, hoje particularmente, mais ninguém se pôs do lado delas em apoios pouco mais do que banais... Algo me diz - intuição de mulher número 4? - que igualmente na questão mais feminina que existe, as abortadeiras de integridades, liberdades de todas as outras em volta ou da mais instintiva e básica noção do sagrado permanecem imbecilizadas, presas de ideias feitas por grupelhos com cores políticas impressas, mais vácuas nas fontes cerebrais do que nos ventres, apoucadas no que têm de traço distintivo. Assisto, com as outras três mulheres, à trepanação da inteligência por falta de axónios que curto-circuitem ao limbo do espírito, talvez por falta de provas científicas da sua existência, tenha ele dez ou mais semanas... A mulher-macho (o pior tipo de fêmea), disfarçado de mulher, agressivo, tão rude como palavroso, grotesco, tomou posse. Arriscamo-nos agora a que responda por nós. Todas as que somos nós, agora generalizadas na autofagia. A negação da divina centelha, por deprimente, saturnina, recorda-me o Saturno de Goya devorando os filhos. Como as novas Amazonas é ímpio, imundo, desfigurado, fétido. O meu mais sensível sentido é este, o do olfacto, por isso me repugna sobremaneira o anti-odor da morte na velha Europa.

12.1.07

Long time no see...

Passa, o tempo. Frente à imensa cinza em movimento que me espicaça de vida, repenso tudo. Ao longe, barcos de pesca, pequenos, incautos como a ousadia dos que sobrevivem, arrastam as sobras civilizacionais que se intercalam com o brilho de peixes ocasionais. Desde que me conheço e chamo ao mundo minha casa, muito mudou sob os meus pés cansados. Decido ir por onde nunca pensara antes. Seja o mar a testemunha das minhas resoluções de partida, de recomeços, de busca da novidade que me acicate à luta. Seja. Agarro no saco que, na areia ainda húmida aguarda decisões minhas. Dentro, o bilhete de ida. As fotos dos que ficam. Os lenços para choros nocturnos em avião para sempre amaldiçoado que me leve longe. A flor seca de um amor herbarizada* na memória e no bolso transparente de uma carteira oferecida num qualquer aniversário. Isto levo. Levo-te a ti no meu peito quente, outrora porto das tuas palmas glabras, mãos que amo e quero sobre as minhas quando o frio as gele. Estás aqui. No espaço que reservei para alguém estiveste sempre tu, potencialmente. Esta história - que me arranca ao morno do lugar aquecido pelo meu corpo e me ergue de um chão que já não é o meu - conteve-te sempre. Amanhã, poderemos estar mortos. Hesitaste: saio. Resta-me imaginar o que poderia ter sido tudo isto que sobrou de nós. Nunca volto atrás: morri. Esquece.
* também este vocábulo com este sentido preciso inventei eu. Também este será alvo de péssimas, execráveis fotocopiadoras?... O que meu for a mim virá, dizem-me os sábios. Com eles, corredores de fundo, envelopo-me no tempo que me (a)guarde.

6.1.07

"Dico"

Como os dedos percorrendo as filas de palavras em dicionário unilingue, assim os meus pés se perfilam atrás da linha do passeio, ponto de partida para o vou-não vou a que me entrega a indecisão. Cedo, por fim, à tentação e envolvo-me na noite húmida de gelo: a amada chuva abençoa-me cada passo na direcção a que chamam futuro. Gloriosa, a água cai e lava-me de incertezas. Clarividentes, os sentidos dizem-me que tudo é mais intenso quando a cidade adormece.

Da sensatez


Amo muito as palavras. Mais do que a mim, que sou feita delas. Quando se fechem estes olhos infantis no arredondamento e na surpresa de verde escuro, quando repouse este rosto de fresco romano em doces, lapidares alisamentos de pele já inexpressiva, quando for frio este corpo, quero saber que fui sensata. Suficientemente sensata para ter enfrentado a realidade que me espicaça a cada pestanejar, a cada alimento saboreado, a cada nova respiração... Lutei contra isto com todas as minhas forças, esse sentimento terno e sem decoro a que chamo "o do A grande". Sem aviso, tomou-me vida, horas e espaços de todas as células do corpo. Odeio tudo isto a que, no seu inverso ou, talvez antes, contido no conceito-essência do sentimento-maior, sempre chamei VULNERABILIDADE. Estou pronta para que, devagar, me aproximes da morte que é, para mim, a perda da INDEPENDÊNCIA que trago no âmago desde que sei quem sou. Morro por ti, palavra-homem maléfico que Deus me envia e me toma a centelha vital, matando e devolvendo à vida. Liberta-me, então, do Bem Maior, minha LIBERDADE de peito esmagado. Já não sei quem sou. Amo-te...

4.1.07

Dedico

todas as fantásticas músicas ali do meu
finetune à direita
e sob o azul turquesa do meu
melhor sorriso
a
...
ao(à) meu(minha) mais fiel leitor(a):
Boa noite,
Castelo Branco City!
:D

Estado (in)civil: feliz.

- Alguém ter dito em mais do que uma reunião de conselho de turma que a nossa é a aula preferida da criançada;
- Sairmos da quadra natalícia mais magrinhas do que entrámos;
- O mais belo espécime masculino no qual nos poisaram os olhos (Ai meu Deus, a tentação, o odor, os movimentos, as mãos quentes, os olhares de fogo daquele homem!) ter-nos escolhido de entre uma multidão de galináceos e, melhor ainda, sem que para tal - e respeitando uma velhinha convicção - tenhamos movido um cabelo, uma unha, uns olhos brandos e piedosos (quem somos nós afinal, hein (pá)? O lado Allumeuse que todas as mulheres têm esbraceja dentro do meu corpo formatado para o bom comportamento... Aiii);
- Termos de prender os cabelos e vestirmo-nos formalmente para que algumas pessoas não se ponham a olhar-nos descaradamente na rua (o meu pai diz que a família tem por hábito olhar a direito para os olhos dos outros, tentando ler-lhes a alma e que os outros vêem a nossa luz: guilty as charged!);
- "Certas e determinadas pessoas" (horrível expressão dos pleonásticos lisbonenses) oferecerem-nos gadjets e roupinhas interiores que teriam feito sorrir muito pouco a nossa mãe, mas nos dão a perfeita noção da perturbação causada na memória que nos interessa reavivar, enxamear, afoguear (segura-te, rapaz!);
- Termos poder de encaixe para levar a bom termo uma conversa com um alcoolizado num café sem perder a classe, o sorriso doce, estender-lhe a mão, ele tratar-nos por senhora-menina, elogiar-nos os pais: é incrível o que se aprende com as pequenas histórias que nos roçam os dias ( e Deus insiste em enviar-me sinais!);
- Os amigos que a vida de nós foi afastando (muito tempo, muito espaço) prezarem-nos como no primeiro momento!
- A nossa criatividade trazer-nos às pontas dos dedos histórias sistemáticas que nos apressamos a anotar e guardamos em gavetas com prazos de abertura bem calculados, exactamente como a nossa língua se acastanha de um delicioso chocolate preto que, amargoso e doce, se encaixa nos cinco sentidos a ponto de trazer ao corpo a reclinação dos rendidos e aos olhos o fechamento húmido do prazer.
Olá, 2007!
:0)

3.1.07

Templários

Um templo é redondo (embora não necessariamente por definição). Hoje estive-lhe dentro. Centrei-me sob o zimbório, um outro farol que traz Deus ao centro de quem sob a cúpula se entregue à contemplação. Ali, sob o candelabro - tinha laços dourados de metal e fascinou-me o brilho fosco, casquinado e fresco de riso-de-anjo-pequeno - agradeci como antes. Pés unidos, mãos em cruz, olhei para dentro de mim na vertical, como um cavaleiro jacente olha o firmamento. Voei na singeleza da hora. O frio trouxe-me o odor incensado do granito e todos os arcanjos com sinais de estranheza nos corpos me fitaram, estrabismo e dedos excessivos, plumas nos anelados dos cabelos. Ditosa, pedi nas minhas rezas e agradeci: Obrigada, Pai, pelo amor, mesmo o daqueles que não pedi, homens que cortejam, mulheres que tratam por igual; Obrigada, Pai, pelas Festas em família, pela paz, pelos risos da Inês («Tia, és a minha melhor amiga e eu adoro-te para sempre...») e dos outros mais pequenos que me provam que existes; Obrigada pela recepção que me fazem amigos, alunos, colegas, onde quer que eu vá o meu nome é música nas suas bocas; Obrigada pelo pão de hoje e de ontem; Obrigada por este novo dia; Obrigada por nos teres dado os que já não estão; Obrigada pelas sementes do meu corpo mesmo que eu não as use por ser outra a minha sina, pelos meus olhos, pelas minhas duas mãos, pelos ouvidos, pelo dom do trabalho. E priva-me do amor. E priva-me do amor. E priva-me deste amor que não te pedi. Limpa-me de mim. Liberta-me de mim, da violência de mim sobre mim. Esquece-me de mim. Obrigada ainda pelos amigos que a mim regressam*, por me teres feito sobreviver após o corte nos dois pulsos para que toda a ternura me inundasse neste dia que te ofereço. Sob o templo, eu, templária sem quaisquer méritos, agradeço o meu nome pronunciado pelas bocas de tantos amigos e honro, de novo, os nomes dos meus pais.
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*Hoje, a C. falou comigo depois de tanto tempo, mesmo quando a vida e a distância nos afastavam da ternura de quase-irmãs. Hoje, ouvi-lhe a voz igual, cálida e serena desde há quatro anos... No meu peito, tinha-a visto ainda ontem. Obrigada por não me teres mudado, Pai: ainda tenho cinco, seis anos e coloco sobre o ombro de amigos ternos o meu braço longo e que acalenta memórias irrecicláveis que me dizem que estou viva. E vale a pena. Seja feita a tua vontade, digo de mãos abertas, a direita sobre a esquerda em concha, como Sidharta Gautama. Morna e amaciada, reconforto-me entre as pedras da Tua casa.

Pentear

os cabelos a uma criança enquanto a tv passava la pendaison du dictateur Houssein... Forçar a imaginação e dizer-lhe: «Volta as costas à televisão: o brilho dela, que é prateado, vai ficar preso na tua trança enquanto a enlaço!» Ela, sorridente, obedeceu. Valha-nos a feroz feiticeira a que chamam criatividade que, a par com um riso de seis anos e dentes de escola primária a menos que uma fada levou para sempre, nos iliba da culpa de sermos adultos. É a nossa vez; um dia, será a do povo pequenino: voltar o rosto dos mais novos àquilo de que terão a mais e a que os humanos adultos chamam "decidir". Quem morre primeiro, o que se entrega ou o(s) que mata(m)? A pena de morte ambigua-me as respostas há demasiado tempo. Sei porque sou contra; sei porque sou a favor, mas nunca decidirei, em definitivo, em que me fica este pêndulo a que chamam coração/razão: oscilo.

30.12.06

Da delação teleMovelesca* & da rapidez digital

« The wise man
is astonished by everything.»
André Gide, citado aqui.
[Com a aprovação de Buda.]

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* O Google não dá conta do termo.
Mais um que inventei (?), malgré les viperae:
in cauda venenum!
;0)

Gratia Plena

Balanço 2006

Felicidades rotundas, plenas, muitas por dia.
Dias grávidos de minudentes, lupinos, acesos momentos.
Surpresas mínimas, enormes audácias
que a todos têm maravilhado
(e mais a mim!),
Encenações verdadeiras de ficções que hão-de dar que falar,
Émerveillements/Deslumbramentos
que não contemplem o meu ego mas o mundo que me é dado
ver, sentir, cheirar, saborear, escutar
com minúcias esfomeadas.
O prazer q.b. aos sentidos nos tempos certos
com quem é (o) certo,
e descobrir - ironia de gargalhar - que serei, nesta vida,
guia de espíritos, pastora de almas, escritora salvífica...
Disse-o ele, o velho xamã, sem que lho perguntasse:
«nunca erro,
senhora-menina-do-riso-bonito-vindo-de-dentro-dos-olhos.
Há-de privar-se para ter,
calar para aprender,
observar sem reagir.
Fluidez. Serenidade. Contemplação. Silêncios.»
E à minha volta? Tout autour de moi?
O que era falácia continuou.
O que eram fraudes, interesses e má fila instalou-se.
O que sempre viveu da gosma aduladora
terá o seu lugar no mundo hipócrita,
como no mundo têm lugar
o excremento, a víbora, a urticária,
os parasitas, a fealdade endógena.
Tudo tem o seu tempo, o seu lugar.
É legítima - até do que rasteja - a existência:
aos mais débeis o direito à
necessidade de aprovação.
É dos seus karmas a insatisfação-alimento do ego.
Tudo se lança em queda.
A harmonia, contudo, está sempre por perto:
redime-se o que procura, o que constrói,
o que se isola da vaidade-excesso,
o que se anula para que nele outros vejam o brilho,
o que dá graças, o que renasce após os vértices
de corte no fio da navalha,
o que se alimenta do nada que é tudo.
Recomposição, antes da decomposição:
fugir dos aplausos e de tudo o que tolhe
em nanosegundos a arte do que quer que seja de bom
à tona de água, à flor da terra, sob os ares em volutas.
O mundo é como é.
Tudo será o que tiver de ser.
O tempo há-de matar, curar, privar, cauterizar,
envolver em algodão ou em sal as feridas-lacerações da alma.
Ao riso sobrevirão as dores da perda, do medo, do tempo.
A chave:
que farei eu com o que envolve a personagem-eu
na narrativa divina?
A minha senda continua.
De mim, falarão as minhas gavetas.
Dos segredos verdadeiros, murmúrios aos ouvidos
de quem saiba, cale, ame na eloquência
dos meus silêncios.
Atravessei o deserto.
Mantive em vista a missão.
Trago agora os frutos:
a serem bons, provarei as pequenas glórias
dos aplausos a compasso, agora, amanhã,
deste dia a muitos anos, nunca em vida.
Não é importante.
Isto sei: sou amada.
A prova?
Vivo, ainda,
em Acção de Graças
pela sabedoria dos momentos agarrados:
«É isto, a felicidade.
Agradeço-a. Saboreio-a.
Partilho-a,
olhos fechados a fundo, boca-em-barco do riso.»
Por isso, por isso só, sou Gratia Plena.
A si, amigo sem rosto que (ainda) me lê,
como eu, Sal da terra, corredor de fundo,
empreendedor dos pequenos triunfos diários,
ciente das pedras do chão
mas de olhar cravado no firmamento,
sonhador na justa medida,
lúcido na contagem do tempo voraz,
feliz e envolto em risos após cada recomeço,
uma boa entrada neste Ano da Graça do Senhor
que nos é dado viver:

29.12.06

BUNNIES!

Danço, danço, danço...

Roupas negras e justas nos sítios certos,
ancas muito longe, na medida, da cintura de vespa,
curvas a perder em vertigem quem repare,
seios alerta, na direcção de quem eu gosto,
coxas em torneados de centímetros certos,
ombros e braços e colo cor da neve que cai à noite,
cabelos com o corte a que chamam sexy os homens em volta
(os que me conhecem mas não sabem ainda
que eu odeio a palavra como odeio todo o óbvio, mas sorrio sempre),
olhos com sombra negra, ar decadente que a pele nega,
boca vermelha como a luxúria, dentes de neve infantil,
brilhos de olhares em verde musgo-Eva Green
que te marcaram
desde que te vi, perco-me no sinuoso
danço para ti como nunca me viste fazer antes.
Danço, danço, danço,
dou-me inteira
aos teus olhos semicerrados da malícia
que só eu te sei provocar
nesse cérebro que adoro,
fervilhante das palavras que me alimentam pelas noites.
Quero-te como nunca, como da primeira vez,
quero-te como anátema, como fome só minha.
Dou-me por inteiro às noites só nossas,
brindo à vida que em mim sinto sempre
que me seguras pelos pulsos e
tornas em suave batalha
a mansidão do teu chão onde ondulo como danço.
E queres e tens; e eu quero e tenho
nestas mãos acriançadas,
navegam os teus cabelos em vagas que retenho,
o teu nome sabe-me a sal,
a fogo, ao vinho que nunca bebo mas desejo contigo,
a noite há-de ser só nossa para sempre.
Só para ti, apesar da multidão,
a loucura do balanço a que entrego toda a que sou.
Ensaio os gestos, os passos, as vozes
a que terás direito quando as doze nos
disserem que já é dia 1...
Esperarei, então, que me despenteies
com a elegância a que me habituaste
- antes da sofreguidão das bocas e dos corpos
em suave luta até que a manhã se faça plena,
ama-me devagar por longo tempo: terás o céu -
homem, senhor, semi-deus,
escravo meu...
[ih ih ih... Ena ena, aposta ganha! :P]

27.12.06

Folheável

Gosto de lhe passar as folhas com... clicks!
Escolho o Bien-être: «Cette année, je m'occupe de moi» (pp. 98-101)
& «L'Optimisme, ça se cultive!» (pp. 90-96).
Adorei o Dossier Spécial Réveillon (pp. 18-38): «150 idées express pour faire la fête!», as modelos cheiinhas, braços,sorrisos e seios generosos de gente com riso dentro, num savoir-faire de brilho que por cá mal se imita. Há qualquer coisa de saudável nas revistas francesas e italianas que por cá soa a excesso de bases de maquilhagem e publicidades de luxos insustentáveis à maioria das carteiras (ver, p.f., a "veste smoking fermée par un ruban", soit disant, casaco-smoking fechado com laço a... 35 Euros! Onde, aqui em Portugal? Uma peça daquelas por 35? Onde? A beleza daquele casaco! A loja? Despretensiosa, como tudo o que é bom: "Tout simplement pour Géant"... Et voilà, tout simple et... beau comme le jour!).
Portugal vive, ainda e sempre de aparências. Falta, às revistas como a quem circula nas ruas cinzentas como o povo, aquele bem-estar realmente sadio dos risos frescos, das imagens naturais, do culto da estética. Por cá, um postiço de manter aparências, um exagero de arrebiques, o empoado de Pompadours sem o duche de frescura de espírito que, noblesse oblige, é muito mais importante do que a monumental merde a que chamam "A" moda... Faltam a tal felicidade endógena, a tal beleza que vem de dentro, a capacidade de se estar feliz com a alegria dos outros em volta, o brilho dos olhares sãos e sábios. E não me venham falar da antipatia dos franceses! Oh lala, quelle bêtise... Eux, comme elles: charmants! Être français? Mais c'est (tout) un mode de vie!
Allez, Bonne Année deux mille sept!