16.5.08

Lassidão

Lassos os dentes na boca, como lasso o cigarro pendurado sobre o lábio inferior, apenso à leve saliva ácida. Restolho quando fecha o maço, olhar semicerrado pelo exalar da primeira passa, este homem já se afastava há meses. Jura - como se ali aos pés lhe estivesse a sepultura materna, visitada ainda há horas - que não volta a este chão. Fuma pela última vez no país que o cuspiu fora: aqui, já não tem lugar e é esta história que renega. Sem olhar duas vezes sobre o ombro - apanágio de salinas estátuas que se recusará a ser - vai pecar para longe. Se viver é pecar, cairá em falta em lugares mais amenos, onde haja memória, onde abundem alimentos, onde não tenha de comprar casa ou carro para existir socialmente. Exsuda rancor e é neste lugar que o deixa: no aeroporto, o carimbo é a marca derradeira de por cá ter passado. Avia-se. Enjeita o hino, cospe o chão - por uma única vez na vida e com o sentido do asco puro -, ninguém saberá que existiu. O que não falta por aí é mundo...

28.4.08

Sinestésica Sinédoque: ego sum...




18.4.08

(Go,) West (,go)



“ (...) Depois, devagar, a escuridão dissipou-se e descobri-me abalado, quase fisicamente doente, mas mais uma vez confirmado na essencial sanidade da crença. No entanto, apercebi-me de uma coisa com toda a clareza: a luta daqueles que não têm Deus para conseguirem dar um significado ao monstruoso absurdo de todos os esforços humanos.
Para o crente a vida é, pelo menos, um mistério doloroso tornado aceitável pela revelação parcial de um desígnio divino. Para um não crente – e são centenas de milhões aqueles a quem a graça da crença não foi concedida -, esta deve apresentar-se por vezes como uma espécie de loucura, sempre ameaçadora, por vezes insuportável.
(...) “


WEST, Morris, As Sandálias do Pescador, Publicações Europa-América, 1993, p. 158.

2.4.08

Doce lar, doce... :0)

Não é só a harmonia da casa, o arranjo de pequeninas flores verde-alface em jarra fosca, a mesa de suave cor de areia e cheirando a novo, os pequenos cactos espalhados pelo cimo dos móveis baixos, a colcha azul-marselha, a luminosidade dos cortinados brancos, a mantinha de polar lilás que me envolve o colo quando me sento a escrever, os candeeiros suaves em lugares estratégicos, o cheiro em tudo a lavado, a fruta fresca em base de vidro, os panos transparentes bordados em suave prateado, os retratos de família ou as milhentas caixinhas de madeira ou forradas de tecidos delicados. É também a frieza das cadeiras de acrílico transparente, para que a sala pareça livre; as outras, nos topos, de leve madeira sépia com barrinhas, o mesmo cheiro a ceras e tintas de uma certa loja de artigos importados que visitava em França, os chãos de tons claros, os livros que escolhi para viverem comigo, a música que ponho, um ou outro incenso, uma ou outra pedra do rio ou da praia, caixas da correspondência que ainda recebo, eu, que continuo a escrever aos que amo, a toda a gente maravilhosa que Deus me pôs no caminho e me abençoa os dias.
Não, não é só isso. É a própria ideia de harmonia em tudo, de odores a limpo, de refeições com cor e viço, de sons feng-shui, longe da azáfama da cidade. Por isso me descalço, por isso me sinto bem, por isso reservo a mim este reino de paz. E por isso, por tudo isso e mais que aqui não digo, não vá o alheio ciúme empobrecer o brilho dos meus dias, volto a dizer: sou uma mulher feliz. Como poucas.

27.3.08

Pormenores*

1. Boicote? Sim. Ultrapassemos a política. Antes da "arte de viver na polis", já era reconhecido aos humanos o direito ao factor dignidade. Que os Jogos no passado capazes de impedir guerras sejam hoje factor de guerra de consciência. Vale mais um Tibete com cada uma das suas vidas do que todas as glórias olímpicas que o tempo se encarregará de apagar, mais século, menos século.


2. Julgamento? Sim. Transferência de escola? Sim. Os dois alunos na moda, todos os que assistiram impávidos e/ou ululantes devem sofrer sanções, como qualquer terrorista com intuitos de atentado à paz alheia. Também eu já lidei com alunos absolutamente desequilibrados, cientes do seu poder face a um "estatuto do aluno" que os envolve na mais completa impunidade. Quem está no ensino, sabe que não há qualquer sanção digna de nota, por serem coniventes muitos dos Conselhos Executivos (aplicadíssimos na manutenção da paz podre) e absolutamente esmagadora a burocracia.


3. Romances históricos versus conspirações ficcionadas com cariz de actualidade? Sim. Fazem mais pela cultura geral e pela compreensão do mundo livros do teor de Nossa Senhora de Paris, Quo Vadis ou até os actuais O Código Da Vinci ou O Último Catão do que uma dúzia de teorias da conspiração baseadas num mundo árido, hi-tech, com ambientes vizinhos da Nasa ou do Pentágono. Limitam-se a eternizar a imbecilidade dos argumentos de uma série de filmes hollywoodescos visando cronicizar a mentalidade tão cara aos Big Brothers dos EUA. Demenciais e desenraizados de séculos de (boa) cultura europeia. A base de (praticamente) tudo o que é válido hoje, como bem se sabe.







* que não "detalhes", como hoje quase todos dizem, herdada do francês détails e mais um decalque da horripilante invasão do Português do Brasil. Evite-se.

8.3.08

Marchar sobre Lisboa (já não chega)...

1.
Uma "marcha de protesto"
será sempre legítima para quem nela acredite.
Hoje, professores protestam em nome de quem são.
2.
Existem variantes de uma Língua:
a que amo é a variante de Português Europeu.
Nenhuma outra, o que exclui o Português do Brasil.
3.
A minha pátria é o Português de Camões.
Os portugueses, professores incluídos e sobretudo eles
deveriam dar urros contra a hipocrisia dos políticos:
O Acordo Ortográfico Luso-brasileiro é OBSCENO.
Tão INSULTUOSO como EXECRÁVEL!
Isso sim, vale todas as marchas de protesto. Sem aspas.
Acorda, povo imbecil de bradar aos céus!
Acorda, Poeta, que te humilham!

15.2.08

Faz-nos am[(a)/(o)]r com palavras

« VOZ.
Como a mulher estava sempre atrás de uma divisória, o que a tornava inacessível a qualquer olhar, os homens davam grande importância à sua voz. Tal como o incenso que se exalava dos seus quimonos, revelava a sua personalidade e permitia que o homem sonhasse com a sua distinção, os seus encantos ou a doçura do seu carácter.»
Histórias de Amor de Outros Tempos
(precedidas de Retratos Vivos)
por Pascal Quignard,
Série Oriental, Livros Cotovia, 2002, Repertório, pp. 183-200.

13.2.08

Música & Letra(s)

Uma pianística ternura, mesmo se a nossa infância terminou há quase trinta anos. É o meu caso. Não obsta a que tenha lido o livro pianissimo 2 vezes e percorrido todo o dvd umas 3 em allegro molto vivace, passando por maestoso até terminar - por hoje - num movimento affetuoso...
Bemol Saltitante
Um ratinho ao piano
de
Antonio Amago / Nuria Rodríguez
QUIDNOVI, 2006

6.2.08

O Tigre e o Dragão

Crouching Tiger, Hidden Dragon
Li Mu Bai, taoísta, a Shu Lien:
- Shu Lien, não há eternidade nas coisas que podemos tocar. O meu mestre costumava dizer:
Não há nada a que nos possamos agarrar neste mundo. Só abrindo mão é que podemos possuir o que é real. Há tigres aninhados e dragões escondidos no submundo, tal como os sentimentos. As espadas e as facas têm perigos escondidos, tal como as relações humanas.
Li Mu Bai a Jen:
- A verdadeira força é leve como uma pena. Sem ajuda, não há crescimento; sem reacção, não há explicação; sem controlo, não há desejo. Desiste de ti e volta a encontrar-te. Eis uma lição de vida para ti.

29.1.08

Six Degrees

Conheço a teoria há anos: de alguma forma, estamos todos interligados e apenas umas seis pessoas nos separam de quem quer que seja. Mesmo a mais longínqua personagem está a milímetros de constar das nossas memórias do vivido. Nunca apertei a mão ao anterior Presidente da República, por exemplo, mas o meu pai sim e conheci pessoas ligadas a ele, fosse por cargos, fosse por relações de parentesco. A expressão "o mundo é pequeno" aproximou-se ainda mais do meu quotidiano nos últimos tempos, pois a vida encarregou-se de me reservar experiências do mundo restrito da coincidência. Bastaria acreditar nela... No mundo dos blogs, vim a conhecer pessoas que conhecem outras que nem imaginam que, de facto existo e as ombreio no dia-a-dia... Surpresas do anonimato.



O meu espanto foi ter reconhecido - creio -, entre as excelentes músicas escolhidas para a série Six Degrees, a voz desse jovem deus que o meu país parece ter esquecido desde o brilhante album Lie To Me. Recentemente escapado às drogas, amando e sendo muito amado, referindo Deus a cada passo, o jovem génio festeja hoje 27 anos. A mais negra voz num branco, com o rouco agreste de Steve Winwood e a doçura do blues e do mais aceso gospel. Um aquariano, de facto! Impossível é não se amar esta Voz, todo o talento que arrasta. Não me importaria nada de estar a seis ou sete pessoas de Jonny Lang, de vir a abraçá-lo como se abraça um irmão, um ser dotado, uma mensagem de esferas superiores do dom de comover pelo talento. Com esse voto, fica também o de que ninguém, nos lusos blogs desenvolva em mim o asco por Six Degrees como desenvolveu por Six Feet Under: bastou-me ter lido, uma singela vez, uma interpretação - idiota, como todas o são, por parciais - de um episódio da ex-fabulosa série. Tal como quem necessita da explicação de uma anedota, aquele que explica subverte o suposto poder da inteligência aliada ao humor. Provincianismos. O paternalismo, de resto, tem um dom de fascinus: há um reflexo de idiotice plasmado em quem tenta educar o outro. Deus nos livre de pertencer a qualquer um dos lados, vendendo a alma à previsibilidade do endoutrinamento (supostamente) cultural.


Anyway, congrats, Jonny Lang & may God bless you!

I do.

Começou

o período relativo à avaliação docente.
Já ontem era tarde, diz-se por aí.
Avanti...

26.1.08

Aconteceu.

Viver quase em temporário superavit.
Ter visto I Am Legend e ter sobrevivido, colada à cadeira, mordendo o pacote vazio de pipocas, apenas um casal anónimo por companhia na fila última da sala escura, os mutantes de pele cinza do filme tiritando na escuridão densa e esmagadoramente silenciosa das criaturas da noite na luz do dia.
Ter flebites nas mãos e pulsos provocadas por soro e antibióticos, quilos a menos, voragem de equipar a casa para a viver agora que estou cá fora [com flebites ou sem elas, posso regar plantas, fazer origami, visitar gente, beijar aquele homem, usar casacos longos e saias curtas com sapatos de verniz (e a moda é um já velho asco que finjo suportar!) e, sem satisfações a Deus nem ao demónio, conduzir pela noite, montanhas adentro].
Fome de voragem de viver, riscos calculados, danos colaterais, sangue borbulhando sem fastios. Cicatrizei. As flores antes amarelas são agora brancas: amo a minha casa, nódulo nidificante onde me prendo com nó górdio. Só a minha imaginação não tem limites: voo por onde eu quiser! Deixei de ter medo. Tenho asco aos pusilânimes. Sem receios, posso ir onde eu quiser. A prova? Escrevo só para mim, dentro deste corpo debato-me devagar com a existência do meu leitor. Nunca se sabe onde poderá estar quem leia e entenda cabalmente. O meu conforto vai até essa desfaçatez. A de saber.

23.11.07

Relapsa... eu

Fumo pela primeira vez. Tenho trinta e oito anos e quatro meses. Eram sete e quinze, momento histórico. Passa meia hora e não se me revolvem nem estômago, nem mãos em contrição... Na casa de família alguém mais novo abandonara um maço cinzento de SG. Por vontades sensuais, trouxe ontem comigo um cigarro, para sentir o que sentia um qualquer Marlboro man de canudo-papel preso ao beiço sensual como barco se ajeite sobre as águas. Aquele esmagamento do cigarro pendendo-me da boca deu-me um ar de Bellucci e brilharam-me os olhos de morbosidade: «Fica-me bem.», pensei. Nas mãos, na boca, no brilho dos olhos, no ar falsete dos fumadores que se julgam atraentes quando semicerram olhos por entre o fumo denso que sobe, reconheço-me fêmea, embora sempre tenha considerado ridículo quem quer que tivesse ou mantenha hábitos sociais de desculpa para estar, sentir, cultuar estilos, em fase oral freudiana não ultrapassada... Raios partam, raios partam, merdinha, pá: se fumasse, mais ainda haveria quem me rastejasse a estes pés gueixianos que se riem das regras da comunidade quando, descalços, pisam o chão que escolho eu. O quando, o onde, o como, «Que bem me fica a mim, a mim, raios partam... este apêndice a cair desta minha boca que é tua, com mil milhões de demónios!», pensava, enquanto travava fumo que já travara em ensaio, humedecendo o papel junto ao filtro com lábios sedentos de novos sabores agridoces. Soube-me bem, abriu veias, latitudes de prazer no corpo sedento de experiências além-trabalho, trabalho, trabalho! Partes que desconhecia do corpo fizeram-se nítidas: lembrei-me de ti! Agora, sabe-me a boca a ti: um sabor a papel perfumado, a madeiras de exotismo, a pecado, um misto de fundo de massa de pizza sabendo ao torrado do forno quente, o frutado dos teus beijos que me afogavam naqueles dias secretos em que, por ti, me fiz ousada até à surpresa destes olhos que se abriam ao abismo das lágrimas de gozo. Fizeste-me tu excessiva, ou recriaste em mim O monstro que agora te devora quando pedes tréguas, rindo do teu débito pulmonar, casquinado, arfante? «Raios te partam, homem, por quem me tomas? Estas noites não são para dormir», murmuro-te por vezes, enquanto te mordo a boca nimbada do cheiro do cigarro que te acendi eu mesma... Sejamos intelectuais (ou consumo-me na minha própria chama inclusa e mantida em fogo lento porque dá jeito ao conformismo que finjo aceitar): assumamos que não será este pequeno caos a minha incipiência favorita: transgredirei mais, ainda.






Sabes que mais? Não precisas de ensinar-me a fumar: da próxima vez, acendo na minha própria boca o cigarro que depois te colo aos lábios que terás de abrir para descerrar essa maxila de quem, sendo tão vivido, se deixa queimar por aquela a quem ensinou tudo o que sabe sobre as artes maléficas de ficar acordada toda a noite. Da próxima vez, um dos teus cigarros pertence-me. Tal como tu. Aposta ganha?... Sim, sou relapsa, admito. A noite já me corre nas veias e o corpo pede nova pele sob o fumo da tua boca tão pecadora como peregrina no mapa sem norte que eu sou. Despenteias-me... ou quê?

:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

= :)> (Mephistophélica!)

21.11.07

Privilégio


KURT ELLING - Undun (Nightmoves, 2007)

(Sobre)Viver para ouvir estas músicas torna válido - apesar de tudo - o tempo entre as paredes do hospital que me encerrou por dias. Entendo agora com mais acuidade o cheiro dos cedros sob a chuva, a paleta do poente sobre as árvores do jardim que via da janela, os sons dos pássaros se o dia tardava a nascer e as dores acossavam. Catéter, soro, movimentos tolhidos, ter sido feliz lá fora e nem imaginar a que ponto até ao umbral da porta «Urgência»... Porventura, o tempo passaria e tudo seria mais saboreado quando a vida retomasse o seu curso. Livre-arbítrio, aqui te tenho: tenho-me de volta!
[Get away: Comin' thru'!!!]
:D

Tudo

continua perfeito. Atestam-no os volteios do meu corpo entre esta Music of Lebanon e Nightmoves, o jazz de Kurt Elling e, definitivamente, a melhor música ouvida nesta vida pela metade. Acendo velas brancas como as flores na casa imaculada a que chamo minha. Este sol que me inunda a sala alegra-me as horas entre a secretária exsudada de trabalho e o forno fumegante da cozinha. Hoje, há bolo caseiro: como passas, pinhões e canela em celebração avant la lettre. Escrevo. Escrevo. Escrevo e desincorporo: saio de mim no transe das horas mortas. É já isto, ser feliz?...
.9

19.11.07

Ah, a noite!...

In love with a voice...again!
GENIAL, este 7º trabalho de
Mmm esta música (1. Nightmoves)...
Esta (The Sleepers, poema de Walt Whitman)...
E... a imperdível faixa 7 (The Waking)?
Esta "voz" tem contrato: com Deus!
Divinal, Mr. Elling! Thx!

21.10.07

Única,

perfeita, saudosa...
Nothing Can Come Between Us
SADE

9.10.07

Imponderáveis adjectivos = nauseante instabilidade


Mulher inteligente:

«Acabo de ler o Ulisses e julgo-o um insucesso... É prolixo e desagradável. É um texto grosseiro, não só em sentido objectivo, mas também do ponto de vista literário.»(Do Diário, de Virgínia Wolf)


[aplausos]


Homem estúpido:

«Serei talvez duro para compreendê-lo, mas não consigo capacitar-me do facto de um senhor poder empregar 30 páginas para descrever como se dá voltas e mais voltas na cama antes de adormecer.»(Relatório de leitura sobre À la Recherche du Temps Perdu, de Proust)



[lástima]

6.9.07

Deusa

Maya Nasri
(Líbano)
(Clips das músicas: Khallini Biljao; Roh)
Perdoemos-lhe o péssimo clip, o site de gosto duvidoso... Maya Nasri não tem (se pensarmos nos tons graves e cálidos do Líbano) uma das melhores vozes do mundo árabe - ainda jovem, falta-lhe o tempo que dá corpo à voz (não aconteceu o mesmo com a portuguesa Sara Tavares?) -, mas sabe usar o dom divino da vocalização como nessun'altra. Há meia dúzia de meses, eu esperava que alguém disponibilizasse na net esta música e eram poucas as imagens da cantora... Nota-se uma maior aposta na promoção. Mais uma vez, o Líbano impera nas artes. Definitivamente, esta carreira interessa-me: a voz de Maya Nasri é puro veludo.

Neste outro, um grande acréscimo de qualidade: melodia mais memorizável sem ocidentalização excessiva, capacidades cénicas (estudou representação a nível superior), uma graça e beleza físicas que não são de descurar num meio agressivo e demasiado exposto como é o musical (já foi modelo). Não é só a voz: esta mulher É veludo! E... porque se parece, de repente, com Monica Bellucci?...

Boas noites, sempre com boa música.

14.8.07

Catorze.

Mais estes, este mês.
Quantos me sobrarão ainda?...
É de dias que aqui se fala, agora
que é noite.
Obrigada por todos os mails.
Como todos os que até hoje brilharam,
gosto desse low profile
daqueles que se dizem amigos.
Saboreio a dávida, divina também ela.
Telúrica, saúdo Torga!
Danço com Bryan Ferry
(no rés-do-chão do blog, toca o Finetune):
Don't Stop the Dance!

19.7.07

Ainda


há.


Na Clínica. Os "humores" entre o sanguíneo/bilioso/fleumático/nervoso levaram-me de novo à presença dos médicos. Que não, não estava doente. Nada a temer, portanto. Pensam que é problema de Psyké. Disse-lhes que talvez de Eros. Riso de circunstância.
---
Entretanto, antes de novo departamento de triagem, "a" sala. Esperei. Na sala de esperar, esperei. Esperei, esperei. Sem almoço, devorava Fogo Negro, de Sansom. Olhei em volta.
Como um pássaro ferido, uma mulher da idade do mundo tremia em cadeira-de-rodas posta. Sem sossego. Suponho que não fosse Inês o seu nome. Cravejada de rugas, fechava olhos minúsculos em cansaço extremo. Magra como se do Biafra oriunda. A família, não sem a brusquidão dos insensíveis, encostou-a à lona da cadeira: "Assim, cansa-se menos...". Um talvez-bisneto ainda nos quatro anos deixava cair incessantes carrinhos-brinquedo, sobressaltando-a do sono de aparente quase-morte. Já nem era tristeza, aquilo. A lassidão de um corpo entregue de vez às tremuras e, no rosto, o rictus dos que sofrem. Cronicidade na dor. Um pássaro ferido, um pequeno, minúsculo destroço que a Deus não custaria levar ao colo, um dia próximo. Um pequenino pássaro. Talvez já nem os alimentos lhe soubessem, como aconteceu a minha avó, nos derradeiros dias... Imaginei-a com sede. Nada em volta a trazia ao acordo de si, excepto os brinquedos do rapaz batendo no solo a seco, sem que a imbecil família o impedisse de tão repetitiva cacofonia agressiva. Vacilava. O resto de mulher vacilava.
---
Como um pássaro repugnado por ignominiosa espera, uma jovem impaciente, verde como um junco alçava a sobrancelha impertinente em poltrona de sala-de-espera posta. Desassossegada, também ela. Vivia a espera com tal intensidade que se lhe abriam narinas de sensitiva. Deslizava, ao recolher copos de água, ao passar entre salas, ao dirigir-se aos balcões de atendimento. Nem a mais ínfima sombra de homem de aspecto escravo afundado nas poltronas lhe era indiferente ao andar meneado, ao olhar altivo, à ausência de massa corporal, à visão perfilada de um corpo privado de ancas, de nádegas, de peito. Mas brutalmente feminina, a graça da árabe nos meneios ventrescos, os cabelos ondulados da deusa mediterrânica, o olhar entre o tecto e o chão da fêmea arrogante e da menina discreta, encimesmando-se, farta de mundo, elástica na fuga. Um magríssimo portento, um mau feitio acabado, uma leoa magrinha e magnífica. Tinha stamina, raiva, determinação dentro, via-se. Para espanto desta que aqui escreve, a bela criatura sentia! Vi-lhe o olhar percorrer a tristeza profunda, a indignação, a revolta e nova profunda dor: ela vibrava ao ver televisão - apesar da fingida indiferença - com a exploração de trabalho infantil na China, a represália sobre o esclavagista condenado à morte, a explosão em central nuclear, as declarações de ministro-pinóquio, a conversa sobre anorexias várias a nível de pensionistas-classe-trabalhista e bulimias a nível de classes de almirantes pré-reforma, dos que recebem complementos inexplicáveis, depois de tantas paradas com pernoita em hotéis de cinco estrelas com respectivas famílias e amigos, tudo para Estado-pagante... A menina-mulher reagia. A sobrancelha fazia-lhe justiça ao nível de indignação. Que diria Proust do seu porte, do seu rosto?...
Que diria Proust da velhinha? Também ela lhe recordaria "Grand-mère"; a menina-mulher seria uma "Albertine"? E a senhora de meia-idade adormecida à minha frente na sala-de-espera? E eu, entre elas, em que estádio do percurso me encontro? Serei, um dia, aquela mulher diáfana e magra que mal entreabria os olhos e se contorcia de dores a cada mudança de posição do corpo na cadeira-de-rodas?...
---
Assim me interrompiam com doçura os pensamentos, falando-me ao rosto em delicada voz baixa: «Dona I., ainda não a chamámos, porque há um ligeiro problema informático. Dentro em breve, ouvirá o seu nome, sim?». Sorri à enfermeira porque, ao contrário da velhinha, não me contorciam dores; a senhora de meia-idade dormia, sem termo do sono à vista; outros conversavam baixinho; crianças passavam e pais orientavam-nas, sorrindo por terem público e por todos nós amarmos sempre muito todas as crianças. E... os velhos? Quem repara naquilo que será um destes dias? Quem se condói? Quem lhes sorri? Quem lhes fala ou toca com ternura, sem paternalismos ou "pena" na voz? Ternura da verdadeira, aquela mesma que usamos para com os pequenos?
A jovem de ar altivo condoeu-se. Ela percebeu. Olhou, discretamente, com profunda tristeza o destroço humano que virá a ser quando, um dia, nem beleza, nem saúde, nem um andar rápido lhe valerem e já não houver energia nem para colheres de sopa dadas por mão alheia, nem para indignações vindas do fundo da revolta pelas longas esperas. Eu fui testemunha. Ainda há alguma. Esperança, a tal que é verde. Como um junco, como a Irlanda, como um limão, como o amado Minho. Tudo o que é vivaz.
---
Hoje acontece de novo, exactamente às 12:15. Um pequeno marco miliário nas horas da minha estrada.
Estarei mais afastada da adolescente; mais perto da mulher que, aos poucos, mansamente, fecha o ciclo. Será o trigésimo oitavo aro de tempo no tronco da árvore que sou. Hoje, abraço a minha mãe com mais força. Digo-lhe «Obrigada». Ainda há tempo. Ainda há esperança. Dizem-na verde. Talvez seja, ainda.

26.6.07

Negra

Se não me engano, uma sexta de aziaga memória. Essa parte da História mostrou-me - no 8º de escolaridade - que nem os mais titânicos sistemas económicos estão protegidos contra um "crash". Se não estão eles, o que está? As neves do Kilimanjaro? A beleza de Helena de Tróia? O clima? A simpatia entre humanos? A ideia de eternidade, de "marcar" o mundo, de afanosamente juntar amigos como se juntam peças em linha de montagem com vista a um objecto de culto - nós -, ainda me diverte. Se alguém marcou lugares, pessoas, se resistiu enquanto memória além dos cinquenta, cem anos após a sua morte não terá sido pela simpatia, por certo. Disso, há muito quem. Após os ditos, os pensados, os ego sum, o que nos sobra? Isso mesmo, sem o s: obra. Sobram actos. Não gestos - memorabilia típica de gerações videoclip - a mão que agarra o ar fora do carro, a nuance de sol no loiro postiço, o dentinho que brilhou com sparkling de bom dentífrico, os bloggers que, naquele jantar nos levaram em ombros por sermos os melhores da nossa rua e arredores, o nosso riso naquela foto onde outros lambe-botas se esmagam para fazer parte. Há muito dos humanos que não entendo. A vaidade - a presunção, será mais ela - faz-me cócegas nas meninges. Se "o pior cego é aquele que não quer ver", eu não vejo quem seja ufano. Sou do pior, portanto. Ou há mérito, ou morreu e já fede quem quer que se alteie nas suas tamanquinhas fugindo para coturno. Andar no mundo para agraciar os egos dos outros? Nãh!... Os mais imbecis entre a bosta dizem "Eu sou uma pessoa que...", "Eu sou muito competente...", "Farto-me de trabalhar...", "O mundo não me dá valor...". Costumam ficar a falar a sós. Eu já saí entretanto para respirar oxigénio. Como um bicho banal. Recuso a aceitação asinina de que a poeira de estrelas daquele tipo à minha frente na fila, da vamp à minha rectaguarda, do adolescente às minhas dez horas ou da avozinha às minhas quatro seja de uma galáxia melhor do que aquelas de onde provêm todos os outros. Tudo isso será paisagem. Já faltou mais. Tem mais valor este oxigénio: é invisível. Sem querer ridiculamente parafrasear Saint-Éxupéry, não é só o essencial que é invisível. Também o óptimo o é. O que é verdadeiramente genuíno não se vê ou prefere ser absoluta e esmagadoramente discreto. Subtil, ágil na fuga. Soliloquial.
Por isso rio com os agradecimentos a "bloggers que nos colocam entre as suas preferências". Gostaram? Pronto, agradece-se po escrito mas por mail. Haja sobriedade. Agadecer no blog? Agradecer no blog?... Um blog serve para agradecer que outros leiam o nosso blog? Isso, essa simpatia, está muito longe da urbanidade. Do carácter. Do real interesse. Do que seja o genuíno: a natural. I am a natural. Tudo o mais me faz cócegas meníngicas. Não entendo a necessidade de aprovação, a falta de rigor, de liberdade no âmago. Uma inenarrável solidão adeja entre as massas. Interessante, social e antropologicamente. E ainda rio mais quando me demonstram que há uma parte importantíssima da vida social que eu ignorei. Supostamente, por isso me ignoram. Óptimo. Para isso criei eu um blog. Para ser ignorada. Aqui à minha volta, a sala ferve de vida social. Nope, not interested! Go away!
Bloggers que por aqui passam dizem-me "simpática". Talvez se enganem, com tudo o que um talvez encerre de dúvidas, mas pessoas simpáticas sempre me pareceram alguém que pede socorro...
Tant pis, ça m'est égal. Et hop! Vive le silence!
:0)

22.6.07





E pronto.

Acabou.

O ano lectivo, quero dizer.




:D



.Beijos a quem de direitO.

12.6.07

Teste... 1, 2, 3...

Na realidade, são sempre mais de cem:
o número exacto de alunos que tenho eu.
Fase de avaliações.
Um blog será sempre um blog:
ANÁTEMA MEU, IH IH!
See ya!

29.5.07

Insubmissa, ela?...

Jezebel, a Insubmissa
(The One & Only) Bette Davies

24.5.07

Congrats

. 22 Maio 2003: começava este blog .

22.5.07

O culpado? Nanni Moretti, no Sábado!

DIDI - Cheb Khaled


There's no such thing as uggly arab music!
Não há música árabe que não seja bonita!
Dançar, dançar, dançar!
Banda Sonora de Caro Diario, de e com Nanni Moretti
[um homem numa lambreta
em andamento,
braços abertos, dançando Didi!
Sono innamorata da te, Nanni! ]
:D