15.10.09

CHchchchchchchchchchuva!

Tanto tempo depois,
quem diria que esta casa do farol
tinha ainda a porta aberta?...

4.8.09

"Fase descendente"

Assim lhe chamava um genial professor, à "quarentena" de anos. Dizia ele que nunca atingiria o dobro, por isso, o declínio instalava-se... Também eu já dobrei esse cabo: a 19, pelas 12 e 15, nascia, há quarenta anos. Gostei que alguém me tivesse dado os parabéns pelos quar"i"nta. Assim sendo, é oficial: estou nos "intas"!
Beijos!
;0)

2.6.09

"Hipopo(p)timizada"

No passado domingo, ele reabilitou-me. Li e reli, emocionada, uma das mais sensíveis, inteligentes e bem-humoradas entrevistas de sempre. A forma deliciosa como conjuga a atenção para com os vocábulos da língua-mãe, a vontade de fascinar as crianças pelo poder mágico, encantatório do som articulado, fez-me rir, naquela discreta mesinha de café, humedecer de ternura o olhar às vezes cansado de mundo, voltar a acreditar nos que professam a fé na e pela palavra. Tudo para aportar a um nicho onde o regaço dos que alguma vez nos deram colo e nos leram baixinho histórias impossíveis será sempre um regresso a casa. Aquele homem poderá, até, eventualmente não encantar muitos - e eu sei de um livro seu que coloco aquém do seu brilho, por isso escrevo com a lucidez possível - mas aquelas páginas souberam-me a risos cúmplices, à honestidade dos amigos da infância - os "para sempre", como a adorável, inesquecível, gargalhática Alice, que ontem fez... 40 anos (o tempo foge-nos!) -, a um lugar de vozes segredadas que não quero ver apagado. Quero poder voltar a ler palavras que me saibam a gomos de laranja em sumo escorrendo pelo queixo, pinhões cobertos de pó castanho, esmagados com pedras, enquanto os outros meninos e a "irmã Ana" me gritam o nome ao longe - aaaaandaaaa, és a última, Inêêês, vais perder os fantooooches! - mãos dadas entre dois bibes azuis, rostos afogueados da muita pressa de chegar aos baloiços e todas aquelas dúvidas sobre Deus e "os lugares depois de morrermos", os que os adultos não queriam que eu soubesse cedo de mais... Sim, existe esse lugar onde a expressão Graça de Deus me faz ainda fechar os olhos no baloiço das horas, sorver o cheiro a cedros depois da chuva, tocar como espuma as folhas de Outono-nuvens que me sustentavam, os dedos sobre o musgo húmido de todas as manhãs em que a avózinha era ainda viva e nos levava ao colégio... Tudo isso assomou ao meu espírito quando percebi que há, ainda, quem não se entregue ao fogo fátuo da vaidade, que não faz questão de ir às escolas para convencer os meninos de que sabe escrever e é um escritor. Quem quer que seja modesto tem o meu aval e o meu voto de muitas, longas e prazenteiras horas de escrita, para que eu as possa também ler. Partilhar segredos. Uma e outra vez, saindo deste corpo agora perto da "quarentena" (;0)...
Álvaro Magalhães reabilitou a minha ternura pela(s) palavra(s) e, sem nunca lhe ter ouvido a voz, sei que é uma voz de riso. Obrigada! Abençoados os que nunca se deixaram contaminar pelo embotamento dos sentidos e serão sempre meninos, seja qual for o chão que pisem, a língua que falem, os percursos pelo tempo adentro que possam fazer, distanciando-se do lugar infância que eu própria me recuso a deixar de trazer dentro. Por dentro do meu corpo ainda magro e tão pequeno que não chega à estante dos livros, mas sabe já que será sempre entre eles que mora a sua casa.

25.5.09

Anni (6) berçário (?)

Sim, eu lembro-me: foi na sexta, 22.
Este blog completou meia dúzia de anos.
Deverá estar, portanto,
a estrear-se no... 1º ciclo?
(Há-de estrear-se, mas nunca estriar-se...)
Chuac!
;o)

18.5.09

Ironias (Temper, temper...)

A par com Não Há Coincidências, de Rebelo Pinto, M., repousava, na biblioteca escolar, de Pessoa (sim, Fernando!), O Livro do Desassossego. O mesmíssimo que uma funcionária - que, entre outras coisas, varre das salas o lixo que os meninos produzem num afã consumista - anda a ler. Ela, eu sei que lê. Aprecia arte, compra livros, pensa por si, LÊ de forma reflexiva e adora a escrita pessoana. Cada Ministra tem os alunos que merece...

11.5.09

Copiosa, esta chuva torna tudo mais pacífico. Sempre que, nas cidades que rodeiam Azimutes, há previsão de "mau tempo", imagino prosopopeias de anjos que se divertem pelos semblantes azedos dos sulistas. Nas rádios, povoadas de uma mole humana de imbecis com medo das águas, há constantes lamentos se não há sol... Costumam, os acéfalos, considerar que o fim-de-semana estará "estragado" se a chuva vier... Na minha inocência albertocaeiriana costumo pensar que os dias de chuva serão, para sempre, o prenúncio maior de coisas boas. Isso, acrescido do facto de ser professora de adolescentes, faz-me dar graças por poder, neste quase fim de ano lectivo, sentir que as aulas ainda não são esplanadas, areais de praia, preliminares de leito que se quer privado. Suponho, além do mais, que os tais preservativos que querem distribuir gratuitamente pelas escolas - numa urgência de suposta salvação da saúde pública - ficarão adiados sine die nas mochilas, a par com os livros da mesma Filosofia cujo desaparecimento das mentes escolares já se aventou como hipótese e o snack achocolatado ou o pensinho de teor higienizante... Será a intenção rejuvenescer a velha, caduca Europa? Prevê-se aumento exponencial da estupidificação das massas, já de si parcas em intelecto. Por isso, a chuva os refresque a todos de rajada. Que os adultos presidindo à ordem, emanando baba e boçalidade desde a AR se refrescassem de ide(a)i(a)s, não era mau voto, agora que, não sendo já funcionários públicos, os professores deixarão de ter implícito nos contratos individuais de trabalho o dever de vassalagem ao rebotalho idiotizante do costume. Que venha, pois, a chuva e que o lismo das mais lodosas mentes se aclare, a caminho do mar, com os demais esgotos. Mal podemos esperar pela História...

15.4.09

Há em volta

o tom certo de invernia. Tudo continua igual a si em termos de "coisa pública", a imprensa vai-se vendendo a muitos dos menos inteligentes, o senhor B.O. põe em marcha uma espécie de "nova ordem mundial", contradizendo-se a cada passo, o alheamento continua a pressionar os que acreditam em teorias apócrifas, a chuva, quando cai em terra, continua a fazer lama. Como era no princípio, assim tudo permanece. Resta-nos observar e esperar que quando o desabamento se desenrole de si mesmo, nós possamos estar no único lugar onde nada mais nos poderá ensombrar o espírito. Dormiremos o sono dos narcolépticos, avessos a interferências, abertos à novidade boa que é nada acontecer, fechados em definitiva posição que o feto que fomos procura incessavelmente. E lá longe, no Sael ou perto dele, barcos imensos oxidam entre o deserto e os que caminham em busca de água. Como eles, esperamos por um porto de onde mais nada, ninguém, absolutamente nada nem ninguém nos poderá desenlaçar. Há algo de belo na noção de nó górdio, além do som que a expressão em si contém: os casos perdidos têm sempre um fim à vista. Em nome deles, tornei-me num: relapsa. Agora e sempre. Doa como doa, agora e sempre, em golfadas de ar gelado, como este que há em volta.
P.S. E viva a ligação wireless!

1.4.09

Brand new

.
Exultei: tinha, finalmente, uma garagem!
Poderia, agora, executar
com limpeza e elegância
- condição sine qua none -
o plano: suicídio monóxico...
.

9.3.09

Já é (quase) oficial...
;o)

26.2.09

Simple...z!

Carnaval português (a sério!). Filma-se criançada. Entrevista-se menino. Pergunta-se de que se disfarça. « - Jardineiro.», diz ele. Perguntam-lhe se gosta do disfarce. (Pensa dois segundos) Que não, não gostava. Novo arremesso: de que gostaria de disfarçar-se ele, então? (Pensa três segundos. Dá aos ombros). « - De nada.»
A isto chamo eu clarividência. Não da jornalista, claro, porque essa nem pensava como pensa que pensa. O menino, esse, restituiu-me o gosto pela sua geração, essencialmente porque:
1. pensa (reflectida e algo detidamente!);
2. verbaliza o que pensa;
3. pensa que não gosta do carnaval;
4. pensa bem, porque nada há de "gostável" na "energumenice" e na "molhada carneirificante";
5. pensa como um português: é depressivo;
6. apenso a isso, subjaz-lhe a argúcia dos que:
a) dizem a verdade (não merecem castigo!);
b) dizem-se (genuínos) a quem só diz vacuidades;
c) dizem-me muito mais do que qualquer boda ou bodo com ou sem dolo, porque...

Dizer é dizer o que (se) é, não insuflar os egos dos outros.
Sobre o carnaval brasileiro, o raquitismo encefalítico e o embotamento da mais básica noção do ridículo, então, estamos conversados. O meu pé, definitivamente, não tem samba: prefiro o português europeu, a Língua Mater, a cuja tal dita - até essa! - nos foi roubada/comprada. Que vivam os simples, sem carnavais, a doer, porque destas cinzas pouco nos sobrará um dia, né, seu Manué e seu Juáquim? Qui táu é istá à venda por aí? Chorah, portugáu, chorah, nóijá dévoramu voceis. Tjirámu dji letra, auis poucuis e ágorah a vossá língu'é à nossa, vice?
Toma, portuguesinho, embrulha. Simplifica. Aluga-te a metro. Dá o .. e três vinténs por seres da moda. "Vira" moderno, não "brigues" com a onda, "a mídia" já o fez. "Malha", estupidifica-te, cospe-te, globaliza-te, "veracrucifica-te", protopaís de merda!

3.2.09

Cheguei. Tinhas chamado (por mim), amor?...

Dizes-te com saudades do que (te)escrevia eu. Também eu tenho saudades de quem era. A escrita industrializou-se, agora que cada vez mais me fica nas entrelinhas. Há um como crime premeditado quando as personagens que trouxe à vida e releio me acossam pelas noites sem ti e me invocam, pedindo que as escreva, lhes dê essa continuidade de sangue em veias telangectásicas. Acedo, deito-me na costumeira narcolepse do "dormir depressa". Cada vez sou mais corpo e menos alma, mas só por fora, para quem não me vê com a luz que me aura os cabelos cada vez mais revoltos e fartos de tanta vida. Essa, a velha insuflada chama ainda me assusta, ainda me esgota, sempre me parecerá a mais. Que sentido faz o que quer que seja se tudo dói a mais e o prazer é a dor em paroxismo. Continuo a ser um "áparte". Sou esse parêntesis incompleto por nele estarem contidas tantas pseudo explicações... Que data me espera?...
(...)
Entretanto, uma história/fábula:
Anichado entre a quentura da cama e os seus medos, um menino pensava que era a recém-nascença de um gato escuro. De olhos amarelos, bebia as cores em volta como se tivesse a fome imensa dos que sabem mais do que o tempo lhes ensinou. Isto concluído, saltou como o gato que sabia já ter sido e empoleirou-se na estante mais alta, mirando a rua e o seu gelo fosco. Percebeu então que havia mais para ele do que o que queriam admitir tantos adultos com diagnoses avulsas: lançou-se abaixo, num exílio de desespero. talvez agora, que se partira em vários, o deixassem fluir no recreio frente ao largo que a casa abraçava: poderia, enfim, curar-se depois de curar-se osseamente. A neve em pedra esperava-o no lago coberto de folhas da cor da terra que sabia que também era. Assim se desfazem equívocos: começa-se pela base, esgaçando para desconstruir. Talvez então reparem que somos de pele e osso, como os pássaros e os gatos que não têm medo de estar vivos e por isso se lançam aos vazios todos que o ciclo a que chamam vida lhes põe no caminho, ou no céu, ou nas noites que ainda estão por dentro dos dias, contidas em germe no negrume que tudo traz dentro. Talvez o vazio seja o (re)começo, apenas. Bebamo-lo de um trago só, pois o nosso tempo é extremamente limitado, tal como é longo aos olhos da morte que nos espera, ávida e esplendorosamente bela. Baba-se de luxúria, a morte. Entreguemo-nos a ela, nós, o mortos dos dias que se seguem. Como o menino a fábula que se iniciou acima destas letras sabe que só no limite estará vivo: só isso lhe sabe a húmus.
I' caille, ici, merde alors...
Qu'i' fait froid, ohlala...
Faut qu'j'part'avant l'degré zéro, p'tain...
;0)

6.1.09

Sim, claro que sim... Viva! Ainda estou, pois, mas... havendo tanto a dizer sobre tanto, vou escrevendo. Para as gavetas, claro, como sempre soubeste que faço, mas já há formas, personagens que me interpelam se as deixo com destino por traçar muito tempo, muitos dias, muitas horas, muita estrada a galgar. Invocam-me assim, saídas do nada, esquizofrénicas e polvosas. Refaço-as, alinho-as, aprumo, afino, moldo, assassino, cego, amo, sensualizo, destruo, ensanguento, liberto como pluma ou esporo no ar das semanas e depois esmago, abandono, beijo sem pressa, envertizo e angulizo como esquinas de fórmica rasgam pele, deito gotas de penso líquido e embalsamo, esventro, devoro, afago e reconto baixinho ... Reciclar por reciclar, enfim, haverá sempre o verso das folhas já preenchidas.
Adeus, mundo cruel; olá, planeta em escaras, caminho de nova cura a cada inspiração! Debaixo da pele, há carne viva, ainda! Bebo um trago em nome de um dia que fiz perfeito: este! E, rindo de tudo, je le prends au sérieux. Surplombé(e), dirait Quignard...
A propósito, já te mandei um beijo hoje? Toma-o: é teu! Bom ano. Todos os dias!
:)

9.11.08

Desistir? NUNCA!

Porque quem desiste já apodreceu no âmago,
porque abomino a pequenez da hipocrisia,
porque me RECUSO a viver no medo!


Todos à Manif'!!!



http://mobilizacaoeunidadedosprofessores.blogspot.com/

1.11.08

! 'finaM

Vejo-te em Lx.
No dia 8.
No dia 15...
&
em todos os outros.

;0)

1.10.08

Quignard. Toujours.

1.9.08

Irremediavelmente apaixonada: Bomarzo (IV)


Apenas alguns excertos, humilde tentativa de ilustração das maravilhosas, siderantes 632 páginas desta obra-prima, tal como testemunhado aqui, aqui e aqui.

Os "títulos" assinalados com * são da minha autoria e tentam, sem desvendar excessivamente um texto tão avassaladoramente misterioso, orientar para elementos essencias na compreensão da psicologia do imortal(izado) duque de Bomarzo. Pequeno contributo - mesmo contra as leis! - para que mais se deixem enlaçar pela MAGIA de ler bons livros! Este livro comprei-o eu e não lamento nenhum cêntimo dos mais de trinta euros...

Emudecida de estupefacção, enfeitiçada, espero que Bomarzo possa surplomber (como diria Quignard) outros leitores, marcando-os indelevelmente. A quintessência foi encontrada: deteve-a e eterniza-a agora Manuel Mujica Lainez!
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(A estranha atmosfera de Bomarzo*)

«Desde muito criança que, obcecado pela minha inferioridade congénita, tratei de a disfarçar na medida do possível, ensaiando diante do espelho as posturas e os ângulos mais propícios. Olhava-me ao espelho que havia no quarto da minha avó, em Roma, e via-me a flutuar, enfezado, enfermiço, naquela luz esverdeada que titubeava nas salas do lúgubre palácio, da cor das tapeçarias, dos móveis, dos retratos e das panóplias, naquela neblina irreal solta em farrapos transparentes, que não era daquele tempo mas vinha da Idade Média e ficara a ondular pelos aposentos em cujos recantos se estancava sem conseguir sair da sua clausura glacial, e que a velhos e novos envolvia e impregnava, transmitindo-nos uma estranha lividez.»
(p. 24)

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(O gosto pelas artes*)

«É nos sentimentos que evoco que devem procurar-se as raízes do meu entusiasmo, partilhado com tanta gente da época, pelos testemunhos da antiguidade clássica. Nesses sentimentos, como mais tarde irei esclarecer, radica também o paradoxo do Sacro Bosque dos Monstros que inventei em Bomarzo. Os meus contemporâneos do Renascimento foram impelidos para os nobres vestígios das culturas anteriores pelo mimetismo helénico e imperial que caracterizou aquele tempo; pelo desejo de conhecer e de estabelecer os cânones da exacta formosura formal que os gregos e os romanos difundiram; ou simplesmente pela ambição aristocrática de possuir obras únicas e cobiçadas. Eu fui-o por razões mais complexas. Esperei acaso que a proximidade daqueles sobreviventes harmoniosos actuasse sobre mim como uma terapêutica mágica; terei talvez imaginado que, submergindo-me num mar de beleza, rodeando-me de mármores rítmicos até desaparecer atrás das suas entrelaçadas aparências, como no meio de um bailado imóvel e fragmentário em que cada coisa – a lisura de uma fronte, o arco de um braço, a proporção de um peito – suscitava emoções que conjugavam poesia e matemática, conseguiria esquecer-me de mim mesmo.»
(p. 25)

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(A ternura da avó*)


«A minha avó abraçou-me longamente. Com delicada ternura retirou-me (...) As suas mãos ogivais, que às vezes comparava com as minhas – (...) eu herdara os seus dedos ósseos, de grácil desenho, (...) -, pousaram-se-me suavemente nas faces, nas têmporas, no cabelo, ao longo do meu relato em que nada silenciei, e durante o qual as minhas lágrimas lhe humedeceram as balsâmicas mãos de rainha, enquanto os seus olhos se velavam igualmente, maravilhosamente tristes.» (p. 38)

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(Os objectos e os lugares têm alma...*)


«Há algum tempo, no Museu Etrusco Gregoriano, fui abalado por uma forte emoção quando dei de caras com as peças da minha armadura.
(...) ignora-se o que aquelas armas etruscas significaram para mim num momento doloroso da minha vida, como símbolos de solidariedade e de apoio. As coisas, que se afirma não possuírem alma, são possuidoras de segredos profundos que se imprimem nelas e lhes criam uma peculiaríssima espécie de alma. Estão cheias de segredos, de mensagens e, como não podem comunicá-las senão aos seres eleitos, tornam-se, com o passar dos anos, estranhas, irreais, quase pensativas. Quando nos referimos a elas falamos de pátina, de lustro, do toque das centúrias, e não nos ocorre falar de alma. A armadura de Bomarzo tem alma. E reconhecemo-nos no museu papal.» (p. 40)

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(O espírito aventureiro do pai e a sua insaciável sensualidade*)

«Ao crepúsculo, partia a cavalo, com a barba branca mergulhada no rebuço, sem medo dos salteadores e sem outra defesa além da sua espada e do seu punhal, recusando a escolta dos seus pajens e escudeiros, e regressava com o sol alto, muito pálido, muito marcado de olheiras, gritando que lhe dessem de comer.» (p. 41)


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(Ironias da História...*)

«Já que menciono de novo Odet de Foix, visconde de Lautrec, devo referir um facto que na minha opinião é interessante. Lautrec e o meu pai, que eram íntimos, devem ter discutido um dia o meu caso. (...) Ambos se consideravam, no seu másculo poderio, como dois semideuses, como duas vivas estátuas heróicas, paradigmas das suas respectivas linhagens. E o irónico do caso é que o nome glorioso do visconde de Lautrec, governador do Milanesado e de Guiena, tenente-general de Francisco I em Itália e irmão de Madame de Chateaubriand, uma das mais belas favoritas do rei, foi eclipsado, no decurso dos séculos, pelo nome do seu descendente, Henri-Marie-Raymond de Toulouse-Lautrec-Monfa, um anão pintor que frequentava maus ambientes e que foi muito mais disforme do que eu. Ninguém, para além dos estudiosos de históricos pormenores, se recorda daquele que pensava ser o Lautrec culminante, o colossal Lautrec de bronze que estendia o seu bastão de comando sobre a Itália; ao passo que ninguém mais ou menos culto desconhece a obra e os pormenores da vida do seu monstruoso e genial herdeiro, um gnomo absurdo, pintor de cartazes de cabarés e de prostitutas desconjuntadas, pelo qual o valente capitão Lautrec, se tivesse podido sabê-lo, teria sentido asco como por uma sevandija humana e por um insano baralhador de cores intoleráveis. (...) E deste modo acontece o cáustico paradoxo de um anão e um corcunda excederem em méritos, muito de longe, os dois guerreiros triunfais de quem procedem, o visconde de Lautrec e o duque de Bomarzo, que seguramente consideravam que a sua glória de emplumados combatentes era um supremo cume, e que, se imaginassem o que depois aconteceu, teriam declarado com amargo desprezo que o mundo, entregue a abomináveis aberrações, enlouquecera. Suponho que isso, tão perturbador, tão perturbador de modos preestabelecidos, é aquilo a que os britânicos chamam “justiça poética”. Toulouse-Lautrec e eu estamos irmanados no tempo por uma forma póstuma e extravagante da desforra.»
(pp. 42-44)

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(A única, fugaz ternura do pai*)

«O relato aquecera o meu pai com o mesmo fogo que o excitara ao contemplar, no meio das cortesãs e dos nobres toscanos, a marcha gloriosa de David. (...)
Como era seu costume, enquanto falava pusera-se a andar a todo o comprimento da sala, e eu – foi essa a única ocasião – não senti medo da sua proximidade. É provável que o meu pai tenha apreendido no ar essa efémera aproximação espiritual, porque se deteve diante de mim e, como que distraído, como se não desse pelo que estava fazendo, pois que entre ele e eu se interpunha a recordação do David de Miguel Ângelo, roçou-me a cara com um dedo. Depois tornou às suas passadas militares. O seu monólogo alargou-se aos projectos colossais de Buonarroti [Michelagniolo Buonarroti = Miguel Ângelo].
(...)
Essas utopias enfeitiçaram-me então e depois, mas o seu deslumbramento alucinante não actuou imediatamente, e, na noite em que o meu pai falava, iluminado pelas chamas da lareira, essa inspirada maravilha quedou-se relegada para segundo plano, como um fundo de titânicas construções que escravizavam e transfiguravam a natureza, um fundo em cuja confusão se destacava o perfil do meu pai, que se detinha, me roçava a face com um dedo e se afastava, como um São Jorge alanceador de endríagos, para a região onde se erguiam as criaturas infinitas, atlantes que mergulhavam nas nuvens os rostos de pedra, deixando-me algo mais importante que esses desvarios, frenesim dos génios: a sensação fugaz do dedo indicador que, por um segundo, descuidadamente, com uma fácil espontaneidade afectuosa, tinha pousado na cara do filho corcunda do duque.
Foi esse o único momento autenticamente venturoso que ao meu pai fiquei a dever; o único durante o qual vibrámos em uníssono. David chamou-nos por um instante para debaixo da sua sombra.»
(pp. 50-1)

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(Uma sensibilidade mágica em relação ao belo*)

«E o que na minha infância constituiu a minha única felicidade, o pequeno tesouro acumulado apesar das dificuldades que se opunham o meu anseio (...), foi a memória dos meus passeios pela velha Roma e das minhas idas a Bomarzo, pois uns e outras me ajudaram a explorar e descobrir o melhor de mim mesmo: a capacidade de descobrir a beleza e de a achar onde para os outros estava oculta, como que ausente, numa coluna, num arco, na curva de um rio, numa nuvem, no lânguido vaivém de um ramo verde e cinza desenhando com os seus pincéis de sombra caligrafias orientais.» (p. 52)

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(Bomarzo, o nicho, será comparável com outros lugares? *)

«Depois de Bomarzo, feito de pedras ásperas, de cinza e ferrugem, apertado, tosco, Veneza delineou-se à minha frente, líquida, aérea, transparente, como se não fosse uma realidade mas um pensamento estranho e belo; como se a realidade fosse Bomarzo, agarrado à terra e às suas secretas entranhas, ao passo que aquela incrível paisagem era uma projecção cristalizada sobre as lagunas, algo assim como uma ilusão suspensa e trémula que logo a seguir, como na miragem dos sonhos, podia ruir silenciosamente e desaparecer. Não que eu considerasse Bomarzo menos poético – Deus me livre -, mas em Bomarzo a poesia era algo que brotava de dentro, que se gerava no coração da rocha e se alimentava do trabalho secular das essências escondidas, ao passo que em Veneza o poético resultava, exteriormente, luminosamente, do amor da água e do ar, e, por consequência, possuía uma qualidade fantasmal que zombava dos sentidos e exigia, para ser captada, uma comunicação em que se fundiam a emoção estética e a vibração mágica. Foi esta a minha primeira impressão perante o fascínio. Compreendi depois que em mim, porém, a força misteriosa de Bomarzo, menos manifestada à superfície, mais reconditamente vital, actuava com um poder muito mais fundo que aquela sedução cortesã, feita de jogos refinados e de matizes excitantes; mas, como tantos, como todos, sucumbi ao chegar diante do encanto da cidade incomparável, atraiçoei na memória a minha autêntica verdade – cada um tem o seu próprio Bomarzo – e pensei que não havia, que não podia haver no mundo nada tão belo como Veneza, nem tão rico, nem tão exaltante, nem tão obviamente criado para proporcionar aquela difícil felicidade que nós, desesperadamente sensíveis, procuramos com ânsia, esgotando seres e lugares.»
(pp. 303-4)


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(Aprender a viver na grande cidade*)

«Mandei os meus pajens à procura de alojamento, pois não o tinha reservado, e, perdido na diminuta Babel, sentei-me a observar o Canal Grande [em Veneza], sulcado por umas barcas carregadas de palha e de lenha e por outras que arrastavam pela água, como mantos, umas compridas redes. Não contava eu com a espionagem, elemento essencial da Sereníssima, que cobria com fios invisíveis toda a cidade, de sorte que nada do que nela acontecia, por mínimo que fosse, podia guardar o seu segredo e se, por exemplo, um nobre cometia o erro de murmurar contra os governantes, mesmo que cochichando e imaginando-se ao abrigo da delação, era advertido duas vezes e, à terceira, sem mais delongas, afogavam-no. Os informadores comunicaram imediatamente a minha presença, que eu não tinha intenção de dissimular (...)»
(p. 306)


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(Seduções nocturnas de Veneza*)

«A barca tinha a proa dourada e uma câmara forrada de cetim vermelho e coberta de flores armadas em pirâmides. Na parte posterior, aos pés do gondoleiro que se movia ritmicamente, voluptuosamente, havia dois músicos e um cantor. Distingui na obscuridade vários mascarados (...) Nós (...) também nos disfarçámos, utilizando as caretas que nos ofereceram, as pitorescas bautte brancas e negras, de compridos narizes, que, como uma mascarilha, cobriam metade do rosto e que o teatro chocarreiro dos mimos começava a difundir. Entreguei-me jubilosamente ao feitiço tão italiano do disfarce, que iria propagar-se enormemente com o passar do tempo e que já então era de tal modo atraente que, quando a corte de Ferrara quis lisonjear César Borgia, lhe mandou de presente cem máscaras diferentes... as quais, certamente, bem podiam interpretar-se como uma alusão irónica.»
(p. 328)

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(Fugacidade da vida*)

«Embrulhei-o nas peles do lucco, e ouvi-o soluçar enquanto enumerava, tiritando, os tesouros que com o palácio se perdiam para sempre. Viver era aquilo: perder, ir deixando tudo para trás no caminho percorrido, despojar-se... E ser imortal equivaleria a terminar mais nu, por fora e por dentro, que o grácil João Baptista Martelli quando se postara com ébria soberba no meio das pranchas do nosso batel.»
(p. 331)

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(Lorenzo Lotto, o retrato do duque de Orsini e revelações sobre o pai*)

«Combinei pois uma entrevista com Magister Laurentius [Lorenzo Lotto, o pintor] no palácio Emo, e o mestre foi lá visitar-me. Parecia-me oportuno que antes de deitar mãos à obra o pintor me conhecesse bem, pois sabia que cada um dos seus retratos se alimentava de um caudal psicológico enriquecedor que guiava o autor à medida que o ia criando. O procedimento agradou muito a Lotto, e saímos várias vezes em passeios por Veneza. Ele contava nessa altura uns cinquenta e dois anos, mais vinte e quatro que os que tinha quando pintou o meu pai para o políptico. Era um homem taciturno, de poucas falas, sem características físicas notáveis para além dos seus grandes olhos negros, e possuía uma sedução difícil de definir, nem do lado do Anjo, nem do lado do Diabo, que emanava porventura da sua concentrada timidez doentia, da sua susceptibilidade que se feria com a menor fricção e daquele silêncio que se adivinhava tenso de emoção. Numa altura em que a opulenta onda gozosa da pintura veneziana progredia teatralmente em direcção à espuma suprema do Veronese, e se preparava para explodir junto de esplanadas de mármore onde se sucediam os frívolos festins, Lorenzo Lotto continuava a ser, em aspectos que se relacionam com a sua introversão sombria, indício de fogos subterrâneos, um solitário da arte, voltado com a sua perplexa angústia para as névoas interiores dos seus modelos. Por isso ele me atraiu e nos entendemos, apesar da eufórica superficialidade que fazia ressaltar o que em mim havia de barroco. Encontrámo-nos numa zona sombria – a dos ansiosos, a dos insatisfeitos, a dos incapazes de uma confissão plena – e nela convivemos. (...) Todos esses temas se conjugavam em Lorenzo Lotto, e eu pressenti-os então, de uma forma confusa, porque o pintor evitava a confidência e silenciava-a, ou mudava de conversa mal o seu interlocutor entreabria uma das portas que levavam às regiões crepusculares da sua intimidade. Senti-me confortável junto dele, apesar das suas inquietações, das suas reticências, das suas hesitações, das dificuldades de um diálogo em que avançávamos como se o seu principal mérito consistisse em esconder espinhos. Em vão tentei que me falasse do meu pai.
- Era um senhor esplêndido – disse-me uma manhã, repetindo a fórmula consabida (...) -, e talvez no seio da sua família não se lhe tenha atribuído totalmente o devido valor, não se tenha penetrado até ao fundo da singularidade do seu carácter.
Pedi-lhe que esclarecesse o seu pensamento, mas a única coisa que consegui foi fazê-lo murmurar que dentro da família é onde menos se vislumbra a individualidade dos que dela fazem parte, porque os preconceitos e os pequenos interesses pessoais (quando não o amor cego) obscurecem a visão profunda.»
(pp. 333-4)

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(Quem é, afinal, nas suas contradições, Pier Francesco, quem é este Vicino Orsini, duque de Bomarzo? *)


«Eu era aqueles olhos pardos, aquele cabelo castanho, corredio, quebrado, recolhido atrás das orelhas, aquelas sobrancelhas finíssimas, aquelas maçãs do rosto salientes, aqueles lábios vermelhos, apertados mas famintos, aquele agudo queixo, aquelas inteligentes, delicadas mãos nuas, aquela intensidade, aquela reserva, aquele orgulho, aquele poder oculto e latente, aquela chama fria, aquela equívoca, indefinível violência que se pressente no gelo da solidão aristocrática, e aquela ternura também, desesperada. Na galeria dos desesperados de Lotto, nenhum me ganha. Só um melancólico e ambíguo como ele podia captar-me assim, aprisionar-me assim com os seus pincéis, como sem dúvida aprisionou o meu pai. Há sem dúvida em ambas as imagens, na do meu pai e na minha, muito de Lorenzo Lotto, daquilo que ele era, do que ocultava e combatia e apenas se manifestava na sua pintura, mas nós, os dois Orsini, oferecemos-lhe, a um quarto de século de distância, com as nossas essências obscuras, afins da complexidade da própria essência dele, a desejada ocasião de se expressar e confessar, expressando-nos e confessando-nos a nós. Por isso me dói que não se saiba que aquele personagem, o Retrato de um Desconhecido, o Retrato de um Gentil-homem no Estúdio, é Pier Francesco Orsini, duque de Bomarzo, e que haja um comentarista qualquer a propor para modelo do mesmo um tal (...).
Terminada a obra, contemplei-me na sua pálida e arroxeada pureza, como num espelho. À esquerda, Lotto colocou uma janela que abre para a lonjura luminosa do mar, e que promete, no recolhimento desordenado do estúdio, tão denso de furtivas chaves, uma esperança de calma luz. E reconheci-me plenamente na comovedora figura, na sua máscara de incendiado alabastro. Era assim eu, triste, estranho, indeciso, sonhador, turvo e nostálgico. Um príncipe intelectual, um homem daquela época, pouco menos que arquetípico, situado entre a Idade Média mística e o Hoje saciado de matéria; simultaneamente preocupado com as coisas da terra lasciva e com as de um além problemático; brando e forte, ambicioso e vacilante, senhor da elegância que não se aprende e daquela que os textos ensinam; desfolhador de rosas murchas, amigo do lagarto luxurioso e da salamandra imortal. A corcova, a carga bestial, dolorosa, não está presente na tela mas pesa-lhe – e essa é uma das maravilhas da arte de Lotto - pesa-lhe, invisível, no seu donaire espiritual, na sua atmosfera metafísica.»
(p. 334-6)

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(A magia antiga de Bomarzo apodera-se de Vicino Orsini, suspenso do mundo*)


«As superstições do lugar surpreenderam-me uma vez mais, e senti, através das lousas do chão, o bafo da terra etrusca que respirava como um imenso animal escondido. Olhei para o céu crepuscular em que começaria a acender-se a palidez das constelações, e lembrei-me do que diz Giordano Bruno acerca dos astros, animais tranquilos também, de sangue quente e costumes regulares, empurrados pela razão. Tudo vivia ali em redor: a terra sobre a qual assentavam os rochedos de Bomarzo; os planetas suspensos na sua abóbada, as figuras e os objectos trémulos refugiados no seu coração penumbroso. No meio daquele universo cheio de pasmosas correspondências, mantido pelo sortilégio de laços encantados que lhe reforçavam o equilíbrio inexplicável, envolveu-me uma paz que apenas em excepcionalíssimas ocasiões experimentava. Ergui uma esfera; levantei com dois dedos um pingente de âmbar; desdobrei um manuscrito decorado com alarmantes miniaturas de demónios nus e ermitões e mulheres tentadoras, sem outra roupa além dos seus colares e diademas; empurrei um fantoche que parecia dotado de tanta vitalidade como o homúnculo de Paracelso, e as horas escaparam-se-me, velozes, numa milagrosa amnésia, enquanto à distância cantava a rouquidão dos galos e os primeiros carros partiam em direcção às eiras e às ceifas.»
(p. 452)

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(A construção do Sacro Bosque de Bomarzo e o último reduto do Ninfeu *)


«E, pela primeira vez em anos, descansei, como se o olhar de Deus não pudesse perseguir-me até lá em baixo. Ninguém, fora os meus cúmplices, entraria naquele reduto (...). Ignorariam a existência daquele abrigo. Ali, perto dos túmulos policromados dos terríveis etruscos, o duque de Bomarzo estava seguro, como um animal no seu covil. Tudo o que o rodeava lhe era afeiçoado, tudo aquilo o compreendia e amava com o amor subtil que as coisas sentem pelos que as escolheram, e que estabelece entre umas e outros uma esotérica união. Muitas vezes, estando a escrever, me levantei da mesa apinhada de livros e de folhas garatujadas, para me aproximar, como um sonâmbulo, de uma cratera de vidro com uma cabeça de fauno na borda, ou de um alaúde que me fazia lembrar os de Hipólito de Médicis, ou de uma breve figura de ouro, e, sem motivo, como fizera com o torso do Minotauro, os beijar longamente.»
(p. 456)

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(A construção do Sacro Bosque de Bomarzo e o último reduto do Ninfeu *)


«Aquele era apenas mais um passo no caminho para os arcanos da magia, e Sílvio entrou pela senda tenebrosa. (...) Nele revivia o velho sonho dos alquimistas, o da Pedra inencontrável que transmuta os metais inconsistentes em ouro.»
(p. 456)

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(Ao estilo de Edgar Allan Poe, o ambiente como maldito, um estado de alma*)

«E o silêncio apoderou-se de nós, carregado de expectativa, porque parecia que os imperadores romanos, distanciados na galeria e na sombra tortuosa do Minotauro, esperavam também, tensos, agudos, enquanto o vento fustigava os vidros e retorcia, entrançando-as e desentrançando-as, as chamas da lareira.»
(p. 463-4)

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(A busca da Quintessência*)

«Acima de tudo, Sílvio não devia sequer farejar a proximidade do prodígio. Para o distrair, facilitei tanto quanto possível as suas próprias investigações: a procura da Pedra. Se a encontrasse, melhor para ele. Aos anteriores elementos do laboratório acrescentei outros, alguns bastante dispendiosos: o forno de areia, o aludel espanhol formado por vasos de terra envernizada, o pelicano, de cujo ventre partiam dois tubos; e aquela multidão de objectos de herméticos nomes, os quais todos designam, com ligeiros matizes, o ovo filosófico: a prisão, o sepulcro, a casa do frango, a câmara nupcial, a matriz, o ventre da mãe, tudo o que podia exigir-se para se obter aquilo que também mudava de nome e se chamava, segundo os diferentes alquimistas, Pedra Filosofal, Pedra do Egipto, Pó de Projecção, Grande Elixir de Quintessência, Grande Elixir de Tintura de Ouro ou Grande Magistério.»
(p. 474)

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(Os estertores da guerra *)


«Ah, tal como em Hesdin, tal como em Thérouanne, a beleza decorativa dos poetas épicos e dos pintores áulicos, com grandes atitudes estéticas, com frases célebres, com capitães esplêndidos que usavam os aços como círios, dava lugar a uma consternadora confusão, a uma repugnante carnificina de vísceras semeadas entre bestas e estoques partidos, em que era difícil reconhecer o aliado e o adversário, e em que o monstro de metal e de espuma devorava tudo o que achasse no caminho, vomitando fragmentos de prata cinzelada, de esmalte, de ouro, de marfim, que o sangue tingia, escarlate, obcecantemente vivo no meio dos estertores da morte, até que acabou por se confundir também com as púrpuras serenas do ocaso!»
(pp. 609-610)


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Tão eterno como as pedras de Bomarzo e o próprio Renascimento ao qual escreve um hino,
Manuel Mujica Lainez só pode dormir entre os anjos!

31.8.08

"Alunos + corajosos copiam menos"


Sociedade e vida, JN de 18 Agosto 08 (p.23)


«Os estudantes universitários com melhores níveis de coragem, empatia e honestidade são os que menos copiam e os alunos com menos probabilidade de o fazer num exame, indica uma investigadora da universidade norte-americana de Ohio. Estes estudantes também têm a tendência para não acreditar que os seus colegas são habitualmente desonestos nos testes.

"As pessoas que não copiam têm habitualmente uma perspectiva mais positiva dos outros. Elas não notam muita diferença entre a sua atitude e a dos restantes”, notou Sarah Staats, co-autora do estudo e professora de Psicologia.

Os recentes estudos realizados em universidades garantem que copiar é uma prática muito comum. “Os estudantes que não copiam parecem ser uma minoria e têm muitas oportunidades para ver os seus pares copiar e receber recompensas com um pequeno risco de castigo. Vemos o não copiar como uma forma de heroísmo diário no contexto académico”, acrescentou aquela investigadora.»

Na mouche

Há uns tempos, o Dr. Hernâni Gonçalves referia-se - com muita graça e num programa de tv - aos "invejosos digitais". Registo a expressão por a ter considerado - então, como hoje - de uma incrível pertinência. Dessa sub-sub-espécie conheci inúmeras vítimas (eu mesma o fui) e, embora me custe a abordagem desse grande anátema nacional que é a "doença do i", tive de reconhecer que também através da rede esse tipo de vampirismo se arrasta, se aloja e se atiça, em vãs contorções de destruição. Resumindo, o que não nos mata torna-nos, definitivamente, mais fortes. Também descobri que há um inferno próprio para os agentes duplos: é desde o interior que se envenenam e nunca, nunca estarão satisfeitos, por mais que afocinhem e refocilem nos cadáveres. Seria inocente acreditar que todos os humanos buscam a paz de espírito, pois há muitas escalas de valores e seria impensável que nelas entrassem sempre os mesmos factores. Cabe-nos manter a cabeça fora de água e persistir, persistir, persistir. Esta casa do farol é uma pequena bandeira que - até que a guarde enroladinha com ternura num armário - insiste em dizer pouco, marcar pouco, mas manter-se a fiel depositária daquilo que as artes insistem em provar que existe e teimosamente "radiografam" a cada dia que passa, contra todas as cínicas previsibilidades: o conceito de alma humana.

27.8.08

"A" voz

Fairouz - Yalla Tnam Rima ("Dorme, Rima")
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Yalla tnam Rima,yalla yjeha elnaoum
Yalla theb elsala,yalla theb elsoum!
Yalla tjeeha alaouafee,kel yaoum beaoum
yalla tnam yalla tnam,ladbhla tayer elhamem
Rouh ya hamem la tkhafee, amekzoub a Rima tatnam
Rima rima elhandaa ,shara ashaar omnaaa
yalle habba bebousa,elbagada shou betraa
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Enquanto fui estudante Erasmus em França, esta canção de embalar tornou-me menos pesado o estudo do árabe. Recordava-me a minha mãe e a cadência da mais suave voz de Amália. É pena que a música do meu país seja quase só sobre o lamento e não tenha o pendor místico do país que a Bíblia eternizou pela beleza e perfume dos seus cedros (há um junto à igreja onde me baptizaram): o Líbano. Fairouz deve ser escutada de olhos fechados, como se, perante a sarça ardente, não só fosse sagrado o solo que se pisasse, mas também o éter que traz em si, juntamente com a paz, a mais divina das vozes.

25.8.08

Rendida (Bomarzo - III)

a ...

Terminada a leitura, o duque Pier Francesco Orsini (Vicino Orsini) faz-me falta como o ar que respiro. Aflige-me que milhões ignorem os prazeres da alteridade contida numa leitura. Lainez parece-me ao nível da análise psicológica proustiana e sei que não terei repouso enquanto não ler todos os livros que publicou (ah, o saudável vício de ler!)... Tenho forçosamente de digitar os excertos que me tiraram o fôlego e guardá-los neste quase-diário. Obviamente, ficará arquivado na L(e)i[tera]tura. A ansiedade levou-me aos velhos livros de História da Arte: devorei tudo o que havia sobre o Renascimento, recordando as muitas imagens bebidas na infância e "descobri" Lorenzo Lotto, um outro alquimista que trago no coração!

20.8.08

"Lisboês"

Inaceitável, esta nova forma de falar que nos assalta diariamente desde qualquer canal de tv. Há dias, ouvi na sic "ocheichentos" (em português-padrão, "os seiscentos") e na tvi "ajanelastilhaçadas" (em português-padrão, "as janelas estilhaçadas"), enquanto que Serenella Andrade, numa qualquer extracção dos "Jogoshantacasa" se referia aos "númerostraídos" (português-padrão: "os números extraídos")... Há uma certa apresentadora perita nestas faltas de hiato tão essenciais à boa compreensão. Ignoro-lhe o nome, mas como é insegura e fugidia parece escudar-se nessa fuga à correcção. De resto, a pressa é, em Lisboa, uma monumental mania, como se em permanência se fossem apagar quaisquer incêndios. Tal como os condutores desalmados que - após porem em risco vidas - sigo por uns metros, verificando, depois, que se acalmam já perto de casa, e, com a maior serenidade, desaguam num qualquer portão, como os mais pacíficos dos cidadãos. Afinal, se esta gente fosse de Nova Iorque, a que ritmo cuspiria as palavras ou ultrapassaria regras? Em lisboês, tudo parece ser motivo para uma falta de profissionalismo gritante, sobretudo quando se fala para milhões, num acrescer de responsabilidade a que se soma o execrável uso do "português do Brasil" que assemelha o meu país a uma grande prostituta linguística. É preciso ter estômago...

11.8.08

Bomarzo (II)

Como quem recebe as punhaladas somatizadas que a paixão instila, reconheço agora que ler Bomarzo obriga a doses homeopáticas intercaladas com paragens. Tal como a perfeição nos deixa à bout de souffle*, forçando a calculados regressos à realidade, assim digerir certos excertos desta obra de construção barroca (e para leitores de grande, paciente fôlego!) leva a paroxismos de prazer que convém reduzir à lentidão do sussurro que precede o "eloquente silêncio" **... Reconheço-me no que leio. M.M. Lainez torna verdadeiro sobre o papel - tal como o duque de Orsini eternizou em pedra os seus sonhos no Sacro Bosque dos Monstros - tudo aquilo que eu sempre soube e sinto desde a mais tenra infância: o mundo imaterial fala-nos desde a sua aparente quietude ou falta de alma. Talvez por isso - e apesar de tudo o que me aconteceu desde 2003 -, procuro o mesmo que animou Milton e... ainda acredito em sinais.
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«Há algum tempo, no Museu Etrusco Gregoriano, fui abalado por uma forte emoção quando dei de caras com as peças da minha armadura.
(...) ignora-se o que aquelas armas etruscas significaram para mim num momento doloroso da minha vida, como símbolos de solidariedade e de apoio. As coisas, que se afirma não possuírem alma, são possuidoras de segredos profundos que se imprimem nelas e lhes criam uma peculiaríssima espécie de alma. Estão cheias de segredos, de mensagens e, como não podem comunicá-las senão aos seres eleitos, tornam-se, com o passar dos anos, estranhas, irreais, quase pensativas. Quando nos referimos a elas falamos de pátina, de lustro, do toque das centúrias, e não nos ocorre falar de alma. A armadura de Bomarzo tem alma. E reconhecemo-nos no museu papal.» (p. 40)
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«E o que na minha infância constituíu a minha única felicidade, o pequeno tesouro acumulado apesar das dificuldades que se opunham o meu anseio (...), foi a memória dos meus passeios pela velha Roma e das minhas idas a Bomarzo, pois uns e outras me ajudaram a explorar e descobrir o melhor de mim mesmo: a capacidade de descobrir a beleza e de a achar onde para os outros estava oculta, como que ausente, numa coluna, num arco, na curva de um rio, numa nuvem, no lânguido vaivém de um ramo verde e cinza desenhando com os seus pincéis de sombra caligrafias orientais.» (p. 52)
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* "sem fôlego".
** Em tua honra, amigo de todas, todas as horas!

10.8.08

"O" límpicos? / ssétia?

Não pude deixar de ficar desgostosa com a atitude de um atleta olímpico espanhol (judo? esgrima?) que, após ter vencido o seu adversário, enfrentou o público pondo um polegar na boca em tom provocatório. Desorbitado, parecia exigir aplausos à altura da sua suposta superioridade. Foi quase imediatamente admoestado por um outro jovem (patrício?) de telemóvel na orelha que o veio cumprimentar. Repetiu-lhe o gesto e pareceu dar-lhe um "recado" por entre dentes. Imediatamente, o atleta desfez o sorriso idiota/cínico. Muita gente confunde a delicada e desejável formalidade da alta competição com a arruaça futebolística que nos entra sistematicamente pelas casas dentro... Com a falta de concentração e de sobriedade, todos saem a perder... A classe nunca está a mais, não ocupa lugar, nunca deixará mal os nossos pais, o nosso nome, o nosso país, o vetusto, sagrado "espírito olímpico".
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Preocupante em indizível grau e sem comparação possível com o caso supra, o estado em que um território aparece aos olhos do mundo após os bombardeamentos a que o sujeitaram. Quando uma situação de instabilidade política parece atenuar-se no planeta, logo um novo ou velho conflito surge, para recordar - como tão bem cantou Sting - "How fragile we are"... Longe vão as tréguas sagradas das Olimpíadas de outras eras.

1.8.08

Bomarzo

Da Sextante Editora, com tradução de Pedro Tamen e o mais alto elogio de António Mega Ferreira ["(...) é um romance de leitura compulsiva. Neste romance não há um único momento de tédio ou trivialidade"], esta obra de Manuel Mujica Lainez promete(-me) horas de "leitura compulsiva (unputdownable)", como é dito na badana da capa. O "atroz e angélico duque de Orsini", italiano (ficcional) do séc. XVI, atraiu-me para o aparentemente irreflectido dispêndio de mais de 30 € (!) logo que li, no índice, nomes como Paracelso, Miguel Ângelo, Benvenuto Cellini, Cervantes, Garcilaso, Alexandre de Médicis, Lorenzaccio... Na contracapa reafirma-se: "Um fresco imortal do Renascimento, ao nível de obras como Memórias de Adriano e O Leopardo". Aqui, diz-se quase tudo.
Habituada à comparação física com "uma mulher do Renascimento" (passe a frivolidade!), creio que me sentirei mergulhada num universo paralelo, o que é o mesmo que dizer "em casa"... Leiamos, pois. :0)

30.7.08

Onde vais, Portug(ra)al?

Uma adolescente fala ao telemóvel enquanto caminha. Pelos gestos, percebe-se que seduz alguém. Não terá mais de catorze anos, mas o decote tem quase dois palmos. Entre outras coisas, lamenta-se: que está "só, em plena cidade, em pleno sol, uma mulher sem alguém que [lhe] me chame DE (!) mulher, que repare...". Sem qualquer tipo de pudor, avança na conversa, enquanto se meneia pela rua. Não lhe caberá, talvez, na cabeça, que a mãe que a espera no carro também se iludiu com aquilo a que muitos chamam "o amor". Hoje, conduz e tem alguma independência, mas também ela se ficou pela pouca escolaridade, a troco de sexo precoce e um primeiro emprego no qual já era explorada. O lugar onde toda esta gente anónima bebe a ideia de que a vida é uma publicidade de tv não deve ir além do café, de umas férias pagas a prazo e de umas leituras miseráveis por entre revistas de gosto duvidoso. Percebe-se rapidamente que durante uma nova geração, pelo menos, a grandeza discreta no porte e as ambições de saber mais do que a simples sobrevivência não lhes tirará o sono. Talvez o irmão mais novo seja alvo de caça fácil de mais um computador "Magalhães", através do qual talvez venha a navegar (estará o aparelho adaptado para essa Terra Prometida em direcção à qual tanto acenam os políticos?), depositando no teclanço as suas ambições e o futuro projectado da Nação, enquanto o navegador cujo nome agora se usurpa dará eventuais novas voltas no túmulo, a par de milhares de professores e outros (demiúrgos?) que tanto se esforçam por ensinar a dignidade do trabalho e do afinco, do brio e do mérito, do decoro e da honra que parecem ser eterno alvo de troça da Nação, encabeçados por (ineducáveis) titulares de pastas ministeriais.
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Um adolescente de não menos que dezasseis anos espera numa sala. A sua posição é a de muitos quando se apresentam nas primeiras aulas de qualquer escola: escorregando pela cadeira, a zona destinada ao apoio do centro das costas é onde assentam os ombros. Vê-se-lhe a roupa interior, na qual ninguém está interessado, excepto a namorada que chega. Converseta execrável, beijam-se e/ou lambuzam-se em público, perante gente com idade para que se lhes chamasse avós... De vez em quando, ele ri para o telemóvel. Ela deambula, esperando a consulta médica. O vocabulário é pejado de palavrões, esses que a esmagadora maioria dos bloggers cuja cor política nem me atrevo a identificar usa com profusão, como o fará, suponho (e eventualmente) em pleno tribunal, na frente dos filhos, na dependência bancária ou consultório médico, no spa onde deixa a pele morta dos pés ou a esplanada por onde arrasta a parte do corpo sobre a qual se senta, aquecendo, quiçá, mais umas cadeiras até que se lhe acabem os dias de "saison à idiots" e, de novo, se apresente perante uma metrópole de pele menos urbana e mais dourada, com trapos de tamanho indicado para as sobrinhas de nove anos. Assim se encontravam os apaixonados jovens até que deram por findo o calvário de esperar a sua vez - coisa de pobrezinhos sem mais nada que fazer, pareciam pensar. Como quase todos os seres vivos nacionais, considerarão que transportar um livro é para imbecis, pelo que, em férias, tal como em tempo de aulas, transportar um portátil até coçar a pele do ombro é que é ter estilo. Ainda há-de chegar o dia em que os info-excluídos - talvez até os que transportem livros, e mesmo pertencendo às melhores tertúlias do burgo - serão fuzilados com os olhares dos cidadãos do futuro. Mais uma vez, imagina-se - deste meu lado do vidro, com o testemunho destas minhas mãos teclando, castas - que o célebre navegador, tal como todos os que já se foram, dará voltas no túmulo, mas não se manifestará o seu ectoplasma, pois foi-me dito que as permanências manifestáveis aos vivos não ultrapassam os trezentos anos... E a História, já se sabe, não interessa a fracos, pois que deles ela não rezará, um dia, por isso se aviltam os heróis do passado sem sanção à vista, uma vez que sobre o uso da bandeira estamos (mui) conversados...
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Como a velha de espírito que sempre fui acrianço-me, fascino-me pela razia no bom-senso que é este terreno a que chamam país. A estupidez há-de chocar-me sempre e é imorredoira, pelo que me imagino com o fígado destruído antes dos quarenta. Como fazer esta gente que nos ombreia recordar o nome pelo qual responde? Quantos estão cientes dos seus genes e da responsabilidade que é pisar este solo? Quem conseguirá reerguer bem alto um padrão em novas praias? Onde haverá lugar para a excelência a não ser reavivando o mito dos estrangeirados? Que nação é esta que cospe no que dela brota, que exclui os melhores, que teima em fazer da corrupção e da vileza um estandarte imundo? Aqui, definha-se.
É neste contexto que me ponho a ler maravilhas como estas e pasmo. Com Deus por testemunha e a licença do autor de livros que venero, transcrevo o excerto do livro com capa em cálice do Graal, sem querer contaminar o que é santo e messiânico com a escuma(lha) que hoje povoa a "Luzitânia"*:
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«Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve o silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império ondulam, sem se poder ver.
-
Arroio, esse cantar jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.»
Fernando Pessoa
(sobre D. Diniz)
* Créditos da expressão ao autor que aqui se enuncia.

21.7.08

Saladino



Alguém aqui chegou em busca de Saladino e de Sybilla, talvez porque viu, ontem, Kingdom of Heaven (Reino dos Céus), o filme que adoro e cujo dvd comprei. Passei a adorar Saladino (Ghassan Massoud) e Sybilla (Eva Green) - pelo talento, pela beleza misteriosa e pelas personagens que representam - sentindo profunda pena por ter sido Orlando Bloom o escolhido para o papel de herói neste filme... Fascina-me e tenho como uma das minhas imagens de eleição uma das cenas finais, quando Saladino retoma Jerusalém e, ao entrar no palácio interior então nas suas mãos, por entre cortinados ao vento, em sinal do abandono da capitulação, levanta do chão um crucifixo, símbolo que, a crer no óbvio, deveria ter pisado... Ergue-o e coloca-o sobre um móvel, em profundo sinal de respeito. Fiquei com a certeza de que assistia a um sinal dos tempos, senão mesmo de ecumenismo, naquele pós 11 de Setembro.
Já antes escrevi sobre este filme. Agora, vim ter aqui e fiquei a ver o episódio de abertura de nova série de animação sobre o grande Saladino. Recordo a também excelente série que vi na adolescência, falada em italiano e sobre Marco Polo que me ajudou a melhor entender o mundo que me cerca. Torna-se cada vez mais necessário divulgar a História, que, como ensino aos meus alunos - e parafraseando um slogan que a TSF tinha há uns anos e que considero brilhante "Uma Rádio para ler o mundo" -, nos leva a aprender a "ler o mundo". Por isso, abençoado seja quem ensina uma miudagem tão inculta a entender - mesmo que de forma lúdica e já que hoje o conceito de trabalho escolar choca tantos imprestáveis neste país - que a História é cíclica. Por isso, Kingdom of Heaven de Ridley Scott me é tão caro.

18.7.08

Anátemas

O meu país faz-me lembrar um lazareto. Será, talvez, por ter lido A Ilha, de Victoria Hislop, um romance bastante aceitável (mas apresentando erros de tradução graves, como sempre, com tropeções inacreditáveis nos chamados "discursos indirectos"). O livro é sobre a saga de uma família de origem grega atravessada pela lepra, pelo crime, pelo ciúme, pela ternura. O costume, nestes casos. Divertida com a frase "dois gregos, uma discussão", pergunto-me que "parlamentações" desenvolvem as inúmeras famílias que vi sentadas em esplanadas, esta noite. O país parece marulhar suavemente, como se tudo estivesse sobre contolo. Entre esta e outras perplexidades, apercebo-me de que amanhã, pelo meio dia e quinze entro nos trinta e nove anos, data tão esperada como qualquer outra e, sem apresentar quaisquer indícios de depressão, dou por mim em ânsias pela hora de passagem para outro lugar. Tudo é demasiado imperfeito e, contudo, o que é perfeito apresenta-se como demasiado doloroso. Não sinto falta de nada a não ser silêncio, água e caminhos vazios para percorrer, o que me leva a concluir que sempre estivera certa quanto a um assunto deveras englobante a que muitos chamam "misticismo". Sobre esse e outros assuntos, debruço-me a partir de segunda-feira, numas longas férias. Pergunto-me se voltarei à escola e ao seu anátema de casa de saúde mental, mas com os loucos sem medicação. Tudo começa em pavilhões (e não são The Far Away Pavillions!) com cerca de 600 pessoas, gerações inteiras que são ensinadas a pronunciar tudo em gritos e projectar-se sobre os corpos dos outros com golpes de kickboxing... Como diz um grande amigo: é kafkiano... Um brutal esforço diário para manter a cabeça fora de água, que levo estoicamente como um estandarte e muita dedicação, num país que nunca a merecerá, por ser de tão curtas vistas, mesquinho com tudo o que brilhe, torpe com tudo o que lhe grite aos ouvidos as mais cruas verdades. Um país insano, aziago e cego, onde tudo está sempre igual a si. Nada disto me traz amargura, contudo, porque já não pertenço aqui e dirijo para outros lugares a ternura. Sei que um dia, quando fechar para sempre os lábios, é na minha língua - então já esquecida de muitos, talvez - que abençoarei a lucidez agridoce que me habita desde sempre. Cada palavra um diamante, cada voz uma bênção, cada verdade gravada a fogo. E contudo, e contudo, que execrável rochedo é o meu país!
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Retiro-me com uma das frases lidas, uma das "bonitas", com tanto significado como um ângulo cortante, das que gosto de guardar para depois reler, rolando-as na boca em voz baixa, num grito surdo contra o ímpio português do Brasil que todo o meu país adopta como vómitos de fel que me nauseiam a cada novo dia. O novo lazareto, a meu ver, é o lugar onde aqueles que deveriam defender o que os distingue dos demais (se) vendem naquilo que é mais importante do que o tecido de qualquer bandeira, pois a verdadeira Mátria é a Língua com que a nossa mãe nos fala pelos olhos da ternura. Como Duras, não acredito em bandeiras, mas no imaterial que, não sendo visível, nos faz ser quem somos, sempre que, a cada novo dia, abrimos os olhos e exclamamos, gratos: «Vivo! Estou vivo, meu Deus!». É por tudo ser tão perfeito que o mundo se acinzenta aos meus olhos verdes: a maioria dos (sobre)viventes não merece a vida, porque não entende a morte. Daí vêm todos os anátemas. Daí vem a morte da Língua nossa, tão amesquinhada... Durmo alerta. Aconteça o que venha, acordarei na minha Língua, nunca à venda, nem eu, nem a alma dela. Amo-a e dói-me vê-la aviltada, eis porque. Se a aviltar eu, que a memória me apague dela.
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«Pouco depois, na hora mais silenciosa da noite, entre os últimos momentos da actividade humana e a primeira agitação dos pássaros, Elpida deu um suspiro final e partiu. Pelo menos ela tinha-se libertado do seu corpo devastado.»
(p. 322)
HISLOP, Victoria, A Ilha, Civilização Editora.

10.7.08

Liberdade a Prazo

Nos comentários, este blogger também refere isto.
Liberdade, pois, mas sempre na medida "certinha",
sempre como a "3les" der jeito.
Liberdade, mas só até onde as verdades que realmente
interessam não saiam pelas costuras do espartilho.
De tudo o que me incomoda neste nano-país,
o que mais abomino é a paz podre do bom-comportamento
com faca encostada ao gasganete.
É a asfixia avant la lettre, malditos sejam os coniventes!

6.7.08

Remembering...

« Zuído, a mulher-perplexidade com pátina »

Gostava de ler jornais com, pelo menos, uma semana de morte. Mais perplexidade lhe causariam as reflexões daquelas centenas de inúteis que, em insana fuga à passagem das horas mais não fazem do que comentar (e que mal, as mais das vezes!) o trabalho de outros. E ria, perplexa, quando se ia apercebendo de que o morto nº 1, 2, 3 ou 4 (respectivamente) dizia tal ou tal coisa das ideias políticas, dos filmes, dos livros, das exposições de A, B, C ou D (também aqui respectivamente). Apercebia-se, então, de que há muitas formas de perder tempo. Acrescentava mais essa característica humana no seu caderno predilecto: o dos óbitos. Recortava os mais imbecis e arquivava-os: também tu morrerás um dia. Afastava-se, mais sorrindo do que devagar, pensando em como a vida é um lugar estranho.
(3 Fev. o6)
II
Ao retirar a sopa aquecida do micro-ondas, teve um pensamento quase repulsivo - ela estava sempre a pensar em alguma coisa - quando se imaginou a fazer o mesmo gesto dali a 20, 30 anos: e se a mão lhe tremesse, então? Dramas como esse a que antigamente se chamava senilidade e que agora apareciam com nomes mais humanos como Alzheimer ou Parkinson... Se a mão nos treme, como movemos coisas frágeis com líquido dentro, lavamos os dentes sem magoarmos as gengivas, cortamos alimentos na cozinha, enfiamos uma agulha e cosemos um botão ou bainhas, vestimos roupas mais complicadas, contamos moedas para pagar, seguramos um guarda-chuva, pomos medicamento e aplicamos um penso rápido num ferimento feito pela faca que cortava os alimentos, como assinamos o nosso próprio nome? Sim, como se assina condignamente o nosso nome, aquilo que nos faz reconhecer como pessoa, o nome que nos chamou a nossa mãe? E se a doença avança, como saberemos que é esse o nosso nome? Onde ficará, então, nas encruzilhadas da nossa cidade, a casa que escolhemos ou nos calhou habitar? Quem seria ela, então?..., pensava enquanto comia a sopa e lia mais umas linhas de Proust.
Sossegada quanto ao facto de não ter de vir a apertar atacadores - porque não usava desse tipo de calçado - ela pensou se não seria melhor começar a ver relógios através de um espelho, caminhar de costas em casa, fazer tarefas de olhos fechados, lavar os dentes e usar o rato do computador com a mão esquerda - coisas que, aliás, fazia desde pequena - e passar a ler muito - como já fizera em pequena -, logo, logo que acabasse a sua investigação sobre o tempo que alguém tinha perdido... Pelo sim pelo não, decidiu também ter um filho. Um dia, ele não se sentiria usado, compreenderia muito bem o instinto de conservação da mãe: quem nos recorda com mais carinho do que um filho o nosso próprio nome?
« - Zuído, mãe. O teu nome é Zuído.»
Essa voz vinda do futuro sossegou-a e, suspirando, fechou os olhos para saborear a sopa e sentir-lhe o odor. Confortada, sorriu e pensou como era terrível estar-se sempre a pensar em alguma coisa. Imaginar era delicioso vício...
Imaginar é a cócega cerebral equivalente à descarga eléctrica do prazer do corpo. Ter ou não prazeres múltiplos é, como em tudo o que toca a qualidade de vida, uma questão cerebral. Deu graças a Deus por ser inteligente: as pessoas inteligentes vivem mais tempo, lera dias antes. Isto pensado, acabou a sopa com um sorriso que sabia a vegetais frescos. Engoliu um gole de água e riu de novo: como durante o prazer-maior, tinha os olhos fechados. Viveria mais. Para sentir mais.
(9 Fev. o6)
III
Ode à água

Estes hábitos diários como o do banho enchiam-lhe de alegria a casa. A roda-viva de quem procura coisas em gavetas rectangulares e gavetinhas quadradas, mais com um presto palpitante do que com a pressa de cumprir horários fazia-a, invariavelmente cantarolar. Depois, era todo o ritual do que se abre como pela primeira vez: a nova ordem que nasce da desordem. Retirar as vincas a tolhas lavadas, desdobrar para novo uso, a colocação suave e aparentemente desmazelada sobre um banco antes nu; um pijama que se escolhe - camisola que se tira pela cabeça, carcela aberta, numa fúria, ou casaco que se vai entreabrindo em noites de amor mais compassado?, a tremura de mãos que se alojam entre o tecido e a carne morna, as volutas de uma pele em requebros de escorregadia, pantanosa, movediça arena, a inebriante perdição de dedos entre cabelos ainda húmidos na raiz. Optar, optar que é uma pressa! Escolher as roupas mais pequenas, ou o que é mais quente e confortável e abraça os mais sensíveis lugares do corpo, ou o que seja preciso retirar dali a escassos minutos como prisão que se arremessa para longe, quando o turco envolvendo os cabelos ainda guarda a calidez que lhes trouxe a água e alguém mais apressado do que ela - não sabendo assim sensível a temperaturas a pele que recobre a nuca - quer colher um fruto que se tolhe até de aragens que a casa não tem. Os pés já nus ansiando a água quente, recurvados fora dos chinelos de tecido bordado, um quadro de Fragonard ao qual se pede quietude, para que as maçãs do rosto se façam mais rubras sob o olhar em malícias de vapor (ah, esse culpado!). O último arrepio, peças fora, quando o tecido macio descobre a pele que se eriça, as ânsias de água quente, a precipitação para lugares onde as gotas caiam, convidando à luxúria do calor inimitável. O alívio de um ahhh sustenido, um nicho ainda de ventre materno, um recurvar-se sobre si, clave de sol ou fá. O riso que brota de dentro da alma, o âmago rendendo-se à mornaceira do líquido. Um abraço inigualável.
Pensando que nada vivifica como a água, acontecia-lhe renascer, esquecer ou até resolver os maiores problemas sem lhe ter sido necessária a beatífica noite de sono: ondina, sentia-se klimtiana e refeita de pazes com o mundo quando deixava que sobre si corresse a quentura alada da água. Esse crime cometia: como Mélusine quando estava a sós, mergulhava na féerie que é estar-se fora do mundo. Para sempre, para sempre ter sido ab-so-lu-ta-men-te feliz quando a hora do banho lhe trazia memórias de lugares (de) onde não se regressa. Os sortilégio de viver em pleno ar; para sempre no éter um corpo ser vertical, quando tudo nele nasceu para redondos, cálidos, aquáticos movimentos ondulatórios. Mélusine, serpente alada; ela, peixe de fogo, uma miragem funâmbula por entre os vapores que se enovelam do líquido sagrado. Um banho, um duche podem ser cerimónias de iniciático recorte, cultos de paganismo: sonoridade, odores, papilas gustativas, sensações tácteis... olhos fechados. A alma sobe com a água evaporada e percorre todos os lugares por onde mais ninguém passe, como as vozes que nos Himalaias oram, desejos levados para longe, preces por entre os farrapos que o vento agita.
(10 Fev. 06)
IV

Lia O Mestre. Sentada, sem frio nem calor, pensava no que vira no seu café habitual: pais trintões que não sabem cuidar dos filhos, que os deixam entregues a toda a gente; que os deixam destruir o que os rodeia, que não sabem o que é educar. Bem vestidos, bom aspecto, mas um comportamento que, ao nível prático, se encontra ainda no lazareto. E isto com a morte? Algo a ver? Tudo! Ou se conhece a harmonia, ou já se morreu e alguém se esqueceu de nos mostrar a certidão de óbito. A harmonia é crónica, em algumas vidas. Nada se fez, na infância, para que nos tocasse, mas há uma aura que nos envolve os dias e ainda mais as noites. Se o seu oposto nos toca, logo lançamos fora os remos - de pouca largura para empurrar a torrente - e damos vazão à maré contrária à força de braços, mergulhando até aos ombros a pele, e, na frente do pequeno barco - mera casca de avelã - mantemos o olhar na linha do horizonte onde queremos chegar. Tal como na antevisão de um acidente, não focar o provável objecto com o qual se vai colidir, mas sim o espaço livre para evitar o choque. Assim se deve avançar: sem olhar as águas que, movimentando-se, nos turvam a vista em vórtice de perdição. Assim se deveriam educar crianças: harmonia em tudo.
Isto pensado, voltou a ler. Pouco tempo conseguiu após a reflexão. À página 32, dois focos infecciosos: duas evidentes expressões do português veracruciano que, invadindo tudo, ela abominava. Não era o seu português. Purista, custou-lhe ver que O Mago empregava, numa frase da 32, entre as 13ª e 15ª linhas, duas expressões perfeitamente evitáveis: «(...) os lares da terceira e quarta idades não queriam nem pensar (...) não mudariam nunca (...)». Então, mesmo sabendo que muito do português falado nos brasis era o dos seus antepassados - surgindo na actualidade expressões antigas das centúrias XVI e sucessivas - não conseguiu ou não quis evitar a repugnância... Até O Mago? Até ele se deixara subverter por esse falar tóxico?... Incrédula, olhou o vazio, boca entreaberta como para um lamento, livro poisado no colo, como se adormecida. Olhou-o num esgar de náusea, percebendo que estava desfeito mais um mito. Percebeu então, pelo sabor a fel que era cada pontapé na Língua Pátria - embora lhe acontecessem, também, falhas que não se perdoava, nunca esperara isso de um Mestre -: nunca viria a ler além da página 32... Alguém seria incumbido de contar-lhe, com pormenores, a estória de que se dá conta no livro. Ela, ela nunca mais o leria. Ficava assim mais um coberto do ferrete da vergonha. Deo gratias por nunca o ter comprado, antes o tendo trazido emprestado de um Templo (biblioteca). Valeu-lhe à consciência ter lido o "Memorial..." quando O Mago ainda era escorraçado pelo país dos imbecis crónicos. Ainda não era moda aclamar também esse como "mais um herói que calhou nascer neste solo e que havemos de glorificar só por esse acaso, nunca por ter verdadeiro talento e não ser lambe-botas profissional". Soube que admirava a intransigência a que também se chama coerência ou fidelidade a si e ao seu cérebro, milhões de anos-luz antes de agradar às massas hidrocéfalas. Admiraria O Mago até ao fim dos seus dias, como se admira qualquer autodidacta que tem repulsa da mediocridade do seu povo, mas pararia por ali, vegetando até que novo livro surgisse e a fizesse tropeçar de novo numa qualquer expressão de "português dos Brasis". Mas não ser coerente, isso não faria.
Nunca leria - além da página 32 - "As Intermitências da Morte". Nunca.
(19 Fev. 06)
V
Corpo oblíquo, lia um cartaz. Homem com uma taça de champanhe que o dava a beber a uma mulher que tinha um cão de regaço com diadema sobre a cabeça. Com a inclinação de cabeça forrest-gump'iano - que também já apreciara em alguns cães expressivos - manteve fixo o olhar e derramou à direita o pescoço. Decidira ver as personagens na horizontal. Os olhos percorreram, então, as pernas dos dois humanos. Toda a arquitectura dos corpos lhe enchia os dias. A ser parecida com os seus, seria excelente ilustradora (recordava até como reproduzira imagens a lápis de carvão, sendo muito fiel ao original), mas faltavam-lhe o traço, a mestria de quem redesenha o mundo a sépia. Por isso, optara por recolorir o quotidiano com palavras. Descrevia o movimento dos cheiros, tacteava os sons que lhe percutiam a pele, dizia ácidas ou cordatas as cores, via tão nitidamente o vento que a sua passagem lhe humedecia os olhos, abertos não à secura mas sim à comoção. Não suportava nem o sofrível nem as frivolidades.
Escrevia como se compõe, cada polpa de dedo pequenino que o seu amor mordera na longitude em tributo, um martelo doce sobre cada tecla, o alfabético piano que quisera afagar para sempre. Em dias bons, sentia tudo: era ver uma mulher de trinta anos e mais de meia década - andar ágil de bailado, rosto ameninado, testa ampla, o olhar redondo e olheirento de Proust, o mais adorável "ovo-de-Páscoa"! - deslizar os dedos por bancos de jardim de granito, mupis de paragens de autocarro, caixotes do lixo de metal, rugosidades de cascas de árvore, prender em argola junto ao solo a mão em volta de uma urze, um tojo, para percorrer os raminhos restolhantes rshch shch rshchchchtttttttt. Abrir num riso o rosto, testa recuada do prazer da cócega. Acontecia-lhe quase encostar o ouvido ao copo que enchia de água. Quem a visse, em certos dias, diria que estava na Graça de Deus. A culpa fora de Assunção, uma mulher minúscula já sepultada no talhão de uma irmandade sem nome à vista: vestia de cinzento, usava óculos com aros antigos, ensinou-lhe o seu credo: amar a todas as coisas ainda mais do que a si. As Palavras-Maiores eram, invariavelmente, estas:
Pai Nosso, que Estais no Céu,
Santificado seja o Vosso nome.
Venha a nós o Vosso reino.
Seja feita a Vossa vontade,
assim na Terra como no Céu.
O pão nosso de cada dia
Nos dai hoje.
Perdoai-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido.
Não nos deixeis cair em tentação.
Mas Livrai-nos do mal.
Disto gostava: seja feita a Vossa vontade.
Seja feita a Vossa vontade.
Seja feita a Vossa vontade.
(Se o meu amado leitor não entendeu esta música subtil das palavras, sussurre, fale em gutural voz blues, diga alto ou em cicio, diga ao ouvido de quem ame, diga ao seu filho, aceite. Aceite. Aceite o que não puder mudar. Olhos fechados até que as sombras azuis cubram tudo ao abrir das pálpebras, como olhar o mundo pela primeira vez, inalar, sentir o arrepio do terror de estar vivo.)
« - Seja feita a Vossa vontade» - murmurou ela, enquanto, pescoço tombado, observava a lonjura da paisagem por detrás do casal da publicidade no mupi da paragem de autocarro. Uma idosa que se aproximara viu-lhe nos dedos quase dentro do bolso o terço, mediu-lhe o olhar perdido, extático, sorriu, temerosa, deixando-a a sós, uma pergunta morrendo-lhe nos lábios: que importava a hora do autocarro? Alguém invocava Deus. Exactamente como ela quereria mais vezes, a velhinha - Assunção renascida? - afastou-se, deixando-a à chuva miudinha que principiava a cair. Deixou-a como ela pedia no momento: Senhor, dá-me o silêncio. Não me obrigues a ouvir-me, litania contra o mundo. Faz-me assim esta sombra, liberta-me da que sou. E contudo, seja feita a Tua vontade...
Sorriu à chuva e partiu, passo breve, a mão esquerda afagando o muro de granito à medida que se afastava. Como na infância, pulmões cheios de ar até à dor, satisfazer aos dedos a gula do toque em tudo o que está.
(22 fev. 06)
VI
No olho direito, à medida que teclava, a sua imaginação criava microfilmes. Na retina, o que nunca vira: rapazes pontapeando um corpo inanimado, as conversas, os planos, a constatação do ferrete horrendo de um crime, o arrastar dos restos de um ser humano para o poço onde ficaria, jazendo... Como fugir à sua imaginação, como esquecer o pesadelo que lhe ecoava no centro nevrálgico dos pensamentos? Os cheiros! Conseguia sentir os cheiros: as latas com restos de comida, o suor das roupas amontoadas no chão, o cheiro selvagem nos cobertores velhos, os excrementos, o cheiro do sangue seco, o cheiro das lágrimas? Como no cemitério, perante a sepultura da avó, todos os cheiros presentes, os da urina, o das chagas, o da água morna do banho, o dos medicamentos, o da comida que lhe dava na boca, passo a passo, o cheiro da gratidão?
Após muito ter pensado, constatara que era isto a condição humana. De alguma forma, todos passariam por lá: a não viverem a velhice, todos teriam de viver a de outros. Se não a da pessoa com quem fizeram votos de fidelidade, a dos pais, a de outros familiares idosos. Por isto se mede um humano. Pela capacidade de dádiva quando a doença ou a idade assomam ao corpo e tudo o que é vivido se concentra em cheiros, em líquidos xaroposos, em noites mal dormidas e povoadas do que o dia trouxe. Ambulâncias, rostos desconhecidos entrando em casa, de gente que transporta macas, gente que aplica curativos, que dá injecções, que recebe o dinheiro, que diz «as melhoras» mesmo sabendo da hipocrisia da frase. Outros há que nos tocam um pulso que é apertado: «Coragem, hein?». Teremos.
É isto a condição humana: fluidos, cheiros, pele, excrementos, medo, força, acreditar. Cabelos húmidos da almofada transpirada, unhas que é preciso cortar, antes que a morte venha e sequem como a todos, lágrimas que é preciso limpar, ternuras macias que é preciso ter na voz, na paciência para ouvir o que há de mais verdadeiro, histórias de antepassados, cabelos que se afagam, membros que se mudam de posição, para que outras chagas não surjam, camisas de noite que se rasgam ao alto, um corte ao longo das costas, rugas, pregas que se desfazem na cama de lençóis bem esticados, para que a pele não se macere, tentamos fotografar aquele rosto, para não o esquecermos (não, nunca queremos esquecer), dedos que se observam porque sabemos que é a última semana...
Pensa-se no que pensa aquela mente: não acredita em Deus, nota-se-lhe um certo medo, quando o invoca às conversas, mas há em tudo uma paz... Que perguntas se fará? Num corpo esgotado haverá ainda lugar à esperança? A que ponto?...
Por onde vagueia a alma de quem foi assassinado? Demora de facto nove meses a deixar o mundo, tantos como esteve a formar-se o corpo-embalagem que nos traz dentro?
A humana condição é não sabermos de quando nos soe a hora. Em curva, berma de estrada, em cama de escaras ou num beco, em plena rua, no metro, com nome e grande séquito em funeral ou sem nome recordado e sem flores na sepultura? Ninguém sabe quando e como.
Ninguém sabe.
Ninguém sabe...
Isso... é bom?
E se em nome desse deus só, "desconhecido", a humana condição não fosse impura, teria valido a pena...
Isto pensado, saiu a ver as aves. O sol já se punha. A noite trazia o frio. Silêncio dos milénios, isto que trazemos dentro e nos impele para as respostas. Por hoje, não pensar mais. Não pensar mais. Pensar dói. As aves são toda uma outra coisa. Voar para longe com elas.
Rir da felicidade suprema de, muito singelamente, não ter dores físicas...
(26 Fev. 06)
VII
Relera I, II, III, IV, V, VI...
Revia-se ainda em tudo isso que lhe perpassava sob os olhos.
A boca sabendo às gotas de chuva que, manhã cedo, haviam decidido cair sobre os telhados de Azimutes. Sem pressas, na doçura que a cama traz ainda ao corpo recém-morno, deslizou até à persiana mais ampla. Graças aos Céus, o sol escondera-se: precisava de manhãs um tudo-nada baças, foscas, recordando a cinza que tudo é. A clareza dos dias ditos "lavados" enorpecia-lhe músculos, toldava visão, fazia enrugar a testa pela clareza das pupilas. Gostava mais assim: dia mais em cinzas do que em sóis.
A camisa de noite, branca, agradecia não ser reflexo do seu corpo à transparência. Se ali não lhe estava o amor, para quê estes cabelos soltos, a pele tão branda, os olhos tão deliciosamente inchados da preguiça, o hálito a fresco que pede beijos? Não seria, de todo, um desperdício, porque na casa há sempre um ou outro espelho que observa passagens fugidias: os dedos de um pé descalço, um ponta de caracóis castanho-arruivados, um vulto de Três Graças numa só, um braço em meneios de dança se a música a isso o move, um choro bonito de saudades.
Os prazeres solitários sendo puro desperdício, aprendera com as ideias da gnose a sublimar como Mahatma, mas ai da soberba! A sua soberba de saber-se não-exposta a cupidezes de gente estúpida e rápida nas acepções, a salvo de pensamentos broncos: não andava pelo mundo pelo prazer da cobiça. Criança particularmente bela, sempre estivera sob mira, odiara homens morbosos e desde cedo aprendera a furtar-se a prazeres baseados em escorrências do asco da posse pura. Poder. Harmonia. Tudo em si era harmonia. Amores poucos mas perfeitos; amor pouco, mas do bom. Preservar-se. Preservar-se de mundo.
«A minha casa é o meu reino! Nela, não entrarão desejos de corpos ausentes nem pensamentos de vida a prazo de minutos. Quem vier, virá pela mão, em passo decidido mas sem pressas, que amor não é coisa que se faça contra o tempo».
A cada um o seu percurso. A sorte da delícia tântrica a quem souber preservar-se de excessos. Com Mahatma aprendera a não ter olhos cobiçosos e nunca lhe acontecera desejar um corpo de alguém que não reconhecesse pela voz, pelo toque, pelo veludo dos olhos nas horas certas. O mundo é para quem o queira.
Aqui, faz-se do tempo um aliado. Por isso, os pássaros, por isso, as plantas, por isso a casa vazia, um reino de um só, um terreno de paz, íntegro, neutral, asséptico, fluido e morno como areia limpa da manhã na praia mais vazia. Energia iguala dons. Dons requerem o vazio de vozes. A melhor amiga de quem cria é esta longa noite de silêncios que trará o amor pelo nome. O que queira, como queira, com quem queira, quando o queira. Se o quiser, de facto. Tudo o mais lhe passava sobre a pele, meras ocorrências. Olhos baixos, ausências, lugares sem fumo nem agressões, harmonia pura em cada passo, cada movimento parte da imensa coreografia.
Num relance, viu a movimentação das nuvens: choveria! Um dia perfeito, portanto!
Isto feito, deteve-se a observar os pardais que debicavam a terra das suas plantas. Recordava palavras de outros, de uma colega, da mãe, do vendedor de flores «Um rosto realmente fora do comum....» Impossível, se a cada nova pessoa conhecida era tratada como se da família! Cada novo rosto via no seu sinais de outras vidas em comum, cada nova fala lhe dizia de a ter visto antes algures, cada nova pessoa uma nova apreensão por pensá-la esposa, irmã, companheira, amante de alguém conhecido. E a confusão que isso causara à sua infância... A ambiguidade de ser Rafaello, Brando e agora, descobria também, Senna nos traços doces, muitos, muitos homens! Ter no rosto mais traços de ambiguidade do que de fêmea... Em bebé, usara brincos desde cedo, porque a diziam... "um belíssimo menino"! Ilusórios, os matizes de um rosto com o travo da divina ironia. Deus tem sentido de humor.
Ria da "selecção natural" que a levava a (auto)excluir-se incessantemente. Seleccionara-se para experiências com a "antipatia", a chamada "solidão", a ausência da chamada "vida social" por uns tempos. O resultado era excelente, com efeitos óbvios nas suas gavetas: produzia mais textos do que Proust! Como ele, considerava delicioso o que para muitos seres plenos de incompletude era pura perda de tempo. Um sensitivo ri muito de si para consigo daquilo que as maiorias pensam ser uma espécie de vazio do que quer que seja. A delícia é essa, precisamente! Nisto pensava e pensava que não pensa(va) nada mal.
Inspiração? Sair para qualquer lugar público e... abrir os olhos! Sem cigarretas na mão, canetas-de-estilo, afectações intelectualóides típicas de inseguros sem ideias próprias, figuras de vaudeville ou amigos influentes no sentido mais asqueroso que o termo pudesse ter. O supremo sentido de humor seria ver um relógio correr contra si, contrariando o tempo. Isso ia fazendo, ciente dos riscos. O que é a vida sem margens? É aí, nas margens dos papéis principais, no silêncio da casa e no bulício de certos lugares públicos que impera a chave. Que a visão seja dada a quem, como Salomão, isto apenas pediu na vida, a par com o silêncio: Sabedoria!
Este blog é um diário-ficcional, não no todo, mas em parte, sendo que o que aqui esteja contido ou se contenha de cada uma das partes é da minha inteira responsabilidade. Penso viver longamente. Terei tempo de pagar, portanto.
"Eu, eu, eu", dizes baixo, amor... E não é por estes olhos que o mundo entra? De que outro bunker deveria observar, se não este que eu aparento ser, o corpo mera embalagem da alma que por mim se exprime? Seja como for, risível, a actual moda da falta de inspiração, não te parece, amor? Não, não sou uma teaser: sou hedonista no intelecto.
Vem cá... Traz-me um dos teus beijos vagarosos, sim?...
Imprimatur.
(4 Abril 06)
VIII
Música em fundo; um pulso já aberto. A do post anterior; o esquerdo.
O
passado proclama o seu lugar no chumbo dos dias. Como conceber uma vida tão absolutamente inoxidável que não se tenha proporcionado esse sortilégio a que chamam "sentimento do A grande"? A perplexidade aninha-se nos dias como uma palma de mão glabra recebe a madeira recurvada do guarda-chuva a que chamam pega. Toma-lhe a forma, amacia-se dentro, como Ada fez na mão do falso maori: antes ou depois do sexo, numa das mais sensuais cenas que já viu o cinema, encaixa na mão dele em repouso a sua, pequena, aquela experimentação em ânsias de expressão de todos os surdos-mudos. Assim a minha mão percorre a maciez da extensão do guarda-chuva como ele se alaga pelo espaço cálido da palma. Esta palma da mão que te percorreu o peito ensinando à minha boca o caminho. A mesma que se insinuou no teu queixo até que os dedos te adentrassem os lábios. Tu já sabias tudo, mas eu ensinava-te o que te faltara em todas essas mulheres. Apaguei-as, com a minha inocência?
« - Ensina-me...», dizia-te de olhos fechados, num sussurro. Suplicar aplaca.
« - Tu já sabes tudo. Toda a gente sabe. Nada sei que não saiba o teu corpo. Aprendo.»
A testa encostada aos teus lábios insistia nesse calor, deslizava, como a de quem chora contra as mãos. Choravam os olhos. A alegria era chose toute neuve, à medida que as delícias trocadas por telefone - a despeito do meu rosto corado - se tornavam agora vivas como ferro em brasa. A cócega que sempre me começa pelos pulsos que imperiosamente foram mordidos na longitude, o perigosíssimo declive da curva do braço, o arrepio que sobe o interior até ao nicho das axilas, o nariz em escalada pelos ombros, o triângulo invertido sob a nuca onde mora a perdição, o meu corpo que pedia o calor do teu sopro na pele vibrátil de asas do nariz, dos seios excedendo-se, saindo de si mesmos, orelhas que, derretidas das invejas de todo o resto, viviam a glória da tua boca nos mais insanos murmúrios. Perder-se. Não para sempre, mas perder-se o corpo dos hiatos de tempo. O espírito que, liberto, paira acima de nós, no teu chão coberto dos cabelos com os quais te velo o rosto e te prendo em canto de sereia. Sob esse manto, os olhos perfuram-se procurando o sono do esquecimento.
Não me perguntava então - pergunto-me agora - como sabe o corpo os caminhos tortuosos da delícia. A dor física da delícia. A tortura que diz "pára", a tortura que diz "sim". De novo, o pulso, precisar que me tomasses ambos os pulsos para desenrolar-me as mãos dos teus cabelos em ondas: beijares-me as palmas como um faminto se alimenta, um sequioso aplaca sedes, um moribundo pede vida. A pressa que se volve a calma dos comatosos. A boca selada pela tua, a minha respiração a custo, subo à tona do mergulho, pulmões que estalam, corpo sacudido pelo pasmo da revelação da trégua. Os teus dentes que me marcam, em percursos de noites inteiras nuca, ombros, boca e pulso.
É por isso, amor, que agora está aberto. Foi justamente nas tuas marcas - que eternizo só tuas - que sigo o trilho da noite da minha vida. Aquela pela qual muitos matam, a que a tantos dá anseios, a prova derradeira da irónica existência de Deus. Este pulso de onde o mesmo fluido que viu Petrónio agora corre para o solo é, neste momento e para sempre, oque marcaste a meu pedido.
Tinha de ser, you see?
Como suporta uma mulher da beleza que a acusam viver sem o que tu és? O teu sofrimento ensina-me quem sou. A tua voz de sono diz-me que fui substituída. Esperas que seja eu a dizer de novo "quero-te"? Esperas que viva sem o deserto da tua voz? Que esqueça a tua carta de alforria? Não a quero! E não é a ti que quero: é à mulher que me ensinaste a descobrir e me desabita agora que não me aqueces o nome com o cálido da voz que te fez meu dono.
A razão abandona-me numa tontura de delírio. A vida sai de mim. Repito o teu nome como nessas noites. As quatro sílabas do teu nome restituíram-me nessas horas só nossas a que sou e procurava. Murmura. Sussurra. Cicia agora o meu nome. Sou, enfim, tua até ao fim dos tempos.
Que a pátina do tempo escorra da que eu fui a perplexidade das noites. Todas as que desceram à terra antes das nossas noites.
(30 Abril 06)
(Continua...)

Refrescante*

Cocteau Twins - Bluebeard

*Deve servir-se alto;

agitar o corpo durante o uso;

saborear parcimoniosamente,

que não em doses homeopáticas:

Ei... estamos VIVOS!

:o)

Bajulando, agitando a juba, vigiando,*

tornozelos de porquinho, arrasta os seus pneus, alguns números acima da cintura que nunca teve marcada. Desliza por entre os prédios dos subúrbios como se acima da humanidade, passeia o canídeo e proclama que tem "um blog", encostando os múltiplos refegos aos amigos que faz, mão papuda sob o triplo queixo, dando-se uns ares, fingindo-se de intelecto pleno. Segue percurso, pavoneando o que de sua vida já não é privado e desprivatizando o que de muitos é suposto segredo. Pensa-se de olho clínico, tem língua de bisturi. Não podendo dar bengaladas, acena com tautaus a quem não faça vénia. A prole, profusamente usada para tecer engodo, é rede de lagrimazinha fácil, xuxus da matriarca que toda se alcovita se fareja fresca possibilidade de escalada ao grau de "socialmente existente". Poderia ser a Mónica de Sophia, mas falta-lhe a classe no cinismo. A panjorquice faz de si lugar-comum, leva-lhe para o chinelo o pé histriónico que escolhe samba em vez de valsa. Se na sua rua houvesse cabines telefónicas, seria super-qualquer-coisa, mas querem fazer-me crer que há ali muito artifício. Será Ma Baker, será a Bonnie em triplo peso, será, talvez, uma coelha Jessica. Abunda. Tresanda. Repulsivamente ostensiva, as muletas, tiques de linguagem de estação de metro com chiclete em boca aberta fazem-lhe ninho entre a mão bojuda de onde nascem teatrinhos de cordel. Acusa tendência para fazer saltar a sopa por sobre a varinha mágica, apresentar nódoas em superfícies sujeitas à social observação, pecar por excesso, odiar os felizes. Se lhe fosse dada uma line em punch de filme americano, ser-lhe-ia, por certo atirada esta: «You try too much... That's why you stink...». Por isso só, reconhece-se-lhe o direito a desodorizante com talco incorporado, de boa marca, para usar nas vernissages. O seu drama é-lhe superior: nasceu para ser a nota de rodapé com que os banais assinam a passagem pelo mundo antes de se lhes esfriar o céu da boca, mais dia, menos dia; mais adulação, menos adulação; mais fúria, menos vesícula. Tendo subido à categoria de reprodutora, suspira a satisfação da paz podre com o mundo. Conceda-se-lhe um afago: é legítimo. Tão humanamente legítimo como é verdade cortante que também a morte lhe encherá de terra a boca com que destrói. E Saramago há-de acenar-lhe de longe, quase condoído, desde a sua Passarola de génio. Nos seus sonhos - os do simulacro de mulher à qual deixo a homenagem devidamente acompanhada da continência que se faz aos líderes - afaga o Nobel da sociedade recreativa do seu bairro. Um dia, poderá dizer-se que existiu, pois efémeros são os frutos da vaidade: seca, seca, pénible herbe folle!
____________________________________________
* panegírico invertido à digna representante da lusa fêmea que tem, por força, de afirmar-se. Amem-na! Ela precisa.

5.7.08

Ameeer'caa, ameeer'caa...

a bandeirinha ao vento, como no fim de cada filme unitedstatiano, mãozinhas no peito, olhar sentimental... A hipocrisia da indiferença, sinal de apodrecimento desde o interior. Dá que pensar.

3.7.08

Mundo uns milímetros melhor

Emociona saber notícias destas: Íngrid Betancourt figurava, de facto, entre os reféns agora longe da férrea mão das FARC. Respira-se um pouco melhor, apesar da asfixia a que nos submetem as habituais notícias. Todos os dias um bom pedaço de mundo nos desmorona, a ritmo mais rápido do que o do derretimento das antes chamadas "neves eternas"... Por isso me fez chorar a fé daquela mulher que, tão frágil no físico, parecia uma montanha ao dar « Gracias a Diós y a la Virgen», a esperança cravada no olhar macio dos que acreditam sempre.