24.11.11

Elas

Em profusão, chegam de manhã cedo, esfiapam-se por entre as tantas horas, marulhando segredos, enquanto as repito até que, exangues, me deixam a mente vaga, menos nodosa dos movimentos que, amontoadas, fizeram em revolteios. Depois, sucumbem, satisfeitas, lânguidas, caindo de mim abaixo como cabelos meus já mortos e soltos na brisa, ainda mornos, penas de pássaro que marcam os meus caminhos de seiva e genética. São elas o fim e o mesmo princípio de tudo, porque tudo se arredonda, circular, em ouroboro, o si na busca de si mesmo. Diáfanas, sorriem, descendo de mim, zombeteiras, por me terem sugado energias, de tanto pensar nelas: mesa mesa mesa mesa mesa mesa, subida subida subida, alto alto. Nenhuma, garanto-lhes, é mais importante. Todas me enchem do som do chocolate preto bombeado do palato aos dentes, da língua aos lábios que dizem ao cérebro que é mesmo aquilo, 60 a 80% cacau. Cacau. Cacau. Cacau. Amargor. Exotismo. Longe, muito longe daqui. Bom dia, palavras.

2.9.11

Verba


Demasiada gente (que) escreve com erros. Agora e para sempre. Restam-nos as palavras que se ejectaram - a tempo e por inerência - da cloaca em que foi transformada esta Língua.
Ao contrário da terra dantes transportada em pequenos sacos para polvilhar o morto longe do seu solo de berço, da bandeira ou do hino, as palavras têm imagem visual, um rosto e trazem-se dentro, embutidas na máquina propulsora a que se chama cérebro. Também ele se liquefará, a seu tempo, num tempo em que quaisquer famous last words ainda possam ser pronunciadas, ditas com voz. Afinal, os druídas sabiam o que aí vinha e, por definição, o que faziam: era proibido escrever.
Em nome do que sobra sempre, do que é válido, banirei - e apenas em documentos oficiais, os do Inimigo -, por relapsas, as palavras óPtimo, aCtividade ou pÁra! Serão substituídas por sinónimas e guardadas em santuário, como pássaros de asa ferida. Guardo-as aqui e nos meus textos-de-gaveta, que são uma e a mesma coisa.
Resta-me este consolo: os podres que as quiseram assassinar hão-de adubar a terra, juntamente com o esterco dos milénios. Para o sempre sobram essas palavras feridas, convalescentes, transportadas na boca, no ventre, entre as mãos dos que as sabem. Desamputadas, aguardam: tal como a árvore que ali vejo, recortada contra o azul-petróleo doloroso do céu que se outoniza, sobreviverão, nos bailados das palavras compostos por muitos, todos os que o tempo não apaga, mas antes cinzela. Ainda bem que todos os humanos apodrecem. Só a natureza tem um corpo dúctil, tal como as plantas têm sementes. Quem não viu isto, nem sabe quem é.

30.6.11

Isto de dar aulas a CEF's

(suponho que o "E" seja de energúmenos)

iguala-me a estes pinheiros em cinzas
que me entram pelas narinas,
aqui, onde tudo arde, tudo arde,
tudo seca, tudo é dislate,
desconchavo,
poucochinho,
cinza já, de tudo o que poderíamos ter sido.
E isso tudo me agasta,
nos agacha,
Toda a gente "acha",
Ninguém sabe nada,
E as cinzas são eu.

8.6.11

Isto sim, é uma notícia



http://www.publico.pt/Cultura/estudo-diz-que-giotto-foi-o-criador-do-sudario-de-turim_1498035


Não. Claro que não vim recordar, mas
este blog fez anos: oito, a vinte e dois do cinco.
Evidentemente, gosto mais do tema notícia supra.

22.4.11

E eu disse a muitos: Marchemos para lá, para sul, onde se acoita a podridão!


António Barreto, RTP 1, 21 de Abril

admitia que a responsabilidade no estado do país era repartida entre os dois maiores partidos, mas dava ênfase ao facto de a culpa maior ser do partido do ex-governo
[imagine-se a partícula"des" depois da partícula ex].

O sociólogo disse sobre o ex-governo as seguintes palavras:
«ABRASIVOS, COLÉRICOS, FURIOSOS, VIOLENTOS, CRUÉIS».

A mim, que memorizei os 5 epítetos e os escrevi como sobre pedra por com eles concordar, apeteceu-me trocar as sílabas, dislexicando-me, quando (entre outras Fúrias boas ou más) me revejo no que alguém diz (Sim, Doutor António Barreto, é exacto o que diz, Obrigada por não temer as palavras certas, e-xac-ta-men-te como eu creio que deveria funcionar esta penedia a que ainda chamam país).

Assim, digo também eu sobre o abominável ogre e seus sicários que nos desregularam ad aeternum até ao ponto de perdermos a matriz ortográfica do idioma-pátrio, dislexicando-os assim:

ABRALENTOS
FURISIVOS
COLÉOSOS
CRURICOS
VIOÉIS
!

E, sobretudo, não me venham falar (se nem tenho cor política)
da já podre serenidade
no 25 de Abril!

28.2.11

O hodierno


pão nos Dai hoje.

Seja feita a Vossa vontade:

assim na Terra, Livrai-nos do mal.


Zwomen (por Amen)

15.2.11

Marés


Cinza. Hoje, o mar está cinza. Teimoso, insistente, protuberante, desenovela-se em galáxias, pois que é nele que se espelham todas. Quantas cabem nos oceanos que temos? Todas, se quisermos?... Até onde nos corre a imaginação em delírios, pois se até ela acaba e, no fim da palavra, correm "rios"...? Até onde podemos congeminar, nós, os pequenos humanos? Terminará ela, a nossa capacidade de sonho, liquefeita, no marulhar gasto e espesso de séculos de turbulência? Como me diz a mãe, sempre que vê o mar:

- Ei-lo, o bicho... O bicharoco que me persegue em pesadelos... É tenebroso, o mar.

- Medonho... - respondo eu em palavra que amo - Medonho! Adoravelmente medonho!

(...)

Os diálogos perdem-se, as palavras impedindo que se abarque tal assombro com elas, porque nunca chegam: o mar engole-nos por dentro.

Depois, por dias de sol, passa-se ali, mesmo ao lado, como ao lado é o Cabo Tormentório - que todos trazemos dentro - e desagua-se em Vila do Conde: ali está a nau. O medo que lhe tenho, o respeito que me inspira a negra quilha, o sagrado lenho, o pavor que me transtorna sempre, como se tivesse ainda os oito, nove anos:

« - Avozinha, não quero aproximar-me dos barcos com musgo, mortos ali na praia. Tenho terror dos barcos da praia, porque lhes vejo a alma...»

O barco negro (assim lhes chamavam os nipónicos, diz-se) provoca-me sempre uma convulsão de medo e ele enrola-se nas vísceras e dói-me por dentro, como se nele, barco, tivesse eu morrido, em vidas passadas. A Vila olha-me, branda, compreensiva, mas o barco rasga-me gritos endogenizados, guinchos de bicho em pânico, acossado, psychotizam-se laivos de sangue, em dor liofilizada, microfilmada, percutente, riso lupino da morte - minha amiga, mas que me espreita com máscaras contorcidas quando quase a aceito, mas a quero dócil e as carantonhas que ergue me acometem nas esquinas da casa escura e sozinha, voláteis, elas, assincopada, a minha golfada de oxigénio entrando a eito -, como se tudo o que eu sou estivesse inadiavelmente inscrito no cerne daquela nave marinha...

O barco negro rasga-me sempre o dia, porque nunca me lembro que ali repousa, como reaparecido após séculos de viagem. E o mar, que tudo sabe dele e o quis ainda vivo no dealbar de nova era, é conivente, cúmplice de funduras algosas onde não quer este filho negro que o galga - como o teu corpo, sobre o meu? -, ri um riso só dos dois e espraia-se no casco, entre afagando e percutindo, cerce, em marcas de amor dorido e lento.

- O mar sabe-a toda... O mar ri de tudo o que a nós traz rugas na testa, de tantas perguntas que levamos do mundo sem resposta, secos, hirtos como cartografias pergaminhadas, cansados de tanto nadar a contra-corrente. Por vezes - tantas! - para ter paz, tenho de recordar que isto me guia:

- Senhor, seja feita a tua vontade... As marés, elas mesmas mares-fêmea, nunca te acusaram o cansaço?... Não me deixes pensar tanto: o que levo é o que trouxe, uma ausência de medo, um deslumbramento que me morre entre os dedos, uma ânsia de, como Agostinho, fugir-te, para que me procures e me fales em tudo e em tudo estejas, como este mar que me cerca, ilhéu-fêmea, relapsa, vaga-mundo, dor-de-pensar ao que vim, eu, que quero ser não sendo, fugitiva de pés nus sobre o vidro que o pensamento é. Disso tudo o mar sorri. Tem milénios de tempo, o canalha… Como o amo, de tanto não o poder ter, sequer, nas veias!


19.11.10

Da "S" e outras crianças


A "S" é a filha que eu queria ter tido. Tal como o "F" é o filho que nunca terei. Há muitos, entre eles, que vou escolhendo para "meus", na casa que encontro vazia de vozes infantis quando chego. Sem mágoas, contudo, que eu sei porque me quis assim e isso só a mim importa.

E contudo... e contudo. A nota de 86 que ontem entreguei à "S", no teste visto de fresco, fê-la voltar-se para a colega também pequena que lhe sorria na sala - a turma já tinha saído quase toda - e dançar um samba horroroso que a deformava em todas as direcções e lhe espetava o rabo na direcção da mesa onde eu arrumava papéis e orientava sumário, entre outras quezílias da profissão geradoras de amargos de boca, por escolares, anacrónicas e estupidificantes. Desculpei, à pequena "S" a sua dança tribal porque a vi, naquele instante, filha de pai morrente num certo hospital, a terminal doença marcando, já, epitáfios que tão ligeiro ser - loira e vivaz como é a "S" - não merecia tão cedo na vida. A sala tornada sambódromo, pude alegrar-me - eu, que odeio "sambantes" - por ter o meu "86" escrito a verde alegrado quem ultimamente tanto chora. Desígnios pequenos, nadas avulsos, momentos esparsos: disto se faz a alegria hodierna de um professor que viu nascer o século. No meio da turba, sambando ao som do toque das caixas múltiplas, foi aquela miúda a reabilitar-me aos olhos de um dia gasto. No meu sorriso contristado, na meia boca que inclinei, estava toda a alegria possível, quando as notícias do meu país me trazem uma estranha estrela alvinegra, de quatro pontas, bombardeando a eito, como um alvo apontado ao peito que todos trazemos pesado. Em que medida serve a estrela à "S"?... Saberá o que por detrás dos seus sambinhas trezeanistas se maquina algures?... Ensinar-lhe-á a História que para nada servem as suas notas de "86" num mundo onde os novos bárbaros vestem fraque e as armas que trazem dentro dos contratos têm nomes científicos? Muitos "86" ajudarão na subida dos degraus até ao fim do jogo? Quando perceberá a pequena que o 1% da sua alegria nada conta no mundo real que encena outras danças fora do gradeamento da escola?...
Ensinar-lhes que cada etapa é apenas um degrau será suficiente como força para aguentar o peso da vida? E agitar ainda as bandeiras da seriedade, da meritocracia, da lealdade poderá salvá-los dos orangotangos perfumados que, por estes dias, sentarão as partes nas sanitas dos hotéis de luxo? Como manter a salvo os nossos melhores, os nossos ainda perfeitos incólumes, num mundo onde a inversão de tudo o que é válido nos satura os tímpanos? Como dizer-lhes que estão a prazo, enganados, a recibo verde da corja que os militares guardam como tesouros? Como fazê-los perceber que a população inexistente nas ruas de Lisboa por estes dias é o vazio metafórico do lugar onde todos já mergulhámos há tanto tempo que já ninguém sabe quem é?...

Na minha retina, as imagens deslizam, vertiginosas, fel do ódio que tenho à mediocridade. Fico feliz pela felicidade alheia. Entretanto, a pequena "S" saiu, samba algures, sorrindo, em direcção ao dia claro, mochila às costas e faz o que a mim me ensinaram tão bem que fiquei nesse mundo para sempre: sonha que, algures, há um sítio melhor do que a realidade que muitos, canga nos ombros, absorvem como à última golfada de oxigénio no planeta. Asfixia devagar, mas para seu bem, ainda não lhe disseram...

3.10.10

lagutroP

Adianta muito ao José Pedro, nº14 do 7ºD, ter miudamente (na letra, não na ideia) escrito nome, nº e turma numa minúscula - porém bem visível - etiqueta branca no tubo de cola que lhe comprou a mãe nos idos de Setembro: a embalagem partiu pela base por excesso de torções, vertendo gota a gota a baba perfumada sobre outros materiais escolares. Jaz agora aqui, nesta sala 21 e em fim de dia já silencioso, sobre todo o lixo - que nenhum outro ser a que se possa chamar humano além da que aqui cronica a alma - põe nos ecopontos espalhados pelo recinto. Só eu uso aqueles recipientes, distribuindo neles papel, embalagens vazias e mágoa de pertencer a um país de ineducáveis. Nesta palavra, aquele outro senhor deu provas de que, afinal, sabia alguma coisa sobre a turba propensa aos balidos que alhures governou. Até o macaco Gervásio sabia separar lixos. Eu - enternecida a sós por crianças correndo em direcção ao fim-de-semana - enquanto desligo equipamentos electrónicos, envergonho-me da bandeira que, por estes dias, tantos louvam. Prostitutos sem Pátria!, digo eu ao povo que vendeu a Portuguesa Língua a veracrucianos que a escrevem com as patas, quer dizer, com licença, os pés. Afinfa-lhe, pútrida Pátria que nem de famous last words te fazes digna. Concordando ortograficamente e por decreto, uma massa de acéfalos prepara-se para espetar a farpa venenosa do descaso sob as próprias unhas, urgindo em mim laivos de fome por nova nacionalidade. Envergonho-me de ser lusa, porque nesses volteios de sepultura revejo o vate, Luís Vaz, mais insultado do que se sobre a sua efígie despejassem, ali mesmo nos Jerónimos, todos os esgotos de Lisboa e mais alguns. Afinal, Camões, estás vivo, mas as almas não rendem votos: esta nação meretrizada merece - como sempre, aliás, se disse - todo o mal que lhe aconteça. Não tem património, é inimputável (sendo, contudo, as quatro letras do meio sem qualquer acento!) e esmaga como se barata fosse a única coisa que a salvaria, ainda, da tormenta: a memória...

27.5.10

(Des)aniversário

... . . ... . .
. Este blog tem 5 dias e .
. . . ... 7 anos. . . .
. . .
... ... ...
Continua a optar azuladamente,
como nas margens aquosas,
agridoces dos odores cítricos.
Do som do vento e da chuva
também se irmana.
A casa do farol
nunca teve
tantas
certezas...

Cheers!
;0)

21.4.10

"C" (um aluno português)

Descrevia-lhes o programa visto sobre um mamute fêmea encontrado na Sibéria. Um corpo com milhões de anos, portanto. Expliquei-lhes do transporte em vácuo, da urna, dos cientistas dentro de fatos brancos e com máscaras, dos mil cuidados e... do nome dado à criatura (magnífico achado!), um nome russo, feminino, curto, mas do qual eu já não tinha memória.

Perguntas do aluno:
«Ó s'tôra, como é que eles sabiam o nome dela? Estava viva?...»

:0(

1.3.10

Sou feliz, mas entristeço-me...


« - Estou a procurar imagens de "iluminuras". Os meus alunos arrepiam-me, quando dizem que não sabem o que são iluminuras...»

« - O que é isso?...» - perguntou a colega de Matemática.

(Chorei por dentro.)

«- Duc de Bérry?... Livro de horas?... Livros de História? Monges copistas?...»


« - Hã?...»



24.2.10

(E)s(t)ou feliz porque...



Ontem, vi um homem da recolha do lixo devidamente "uniformizado" que, em vez de sorrir para os seus botões, sorria para o velcro do verde fluorescente do seu "camicasaco" e... tinha phones! Estaria ele, como eu, viciado nisto?




;o)

15.10.09

CHchchchchchchchchchuva!

Tanto tempo depois,
quem diria que esta casa do farol
tinha ainda a porta aberta?...

4.8.09

"Fase descendente"

Assim lhe chamava um genial professor, à "quarentena" de anos. Dizia ele que nunca atingiria o dobro, por isso, o declínio instalava-se... Também eu já dobrei esse cabo: a 19, pelas 12 e 15, nascia, há quarenta anos. Gostei que alguém me tivesse dado os parabéns pelos quar"i"nta. Assim sendo, é oficial: estou nos "intas"!
Beijos!
;0)

2.6.09

"Hipopo(p)timizada"

No passado domingo, ele reabilitou-me. Li e reli, emocionada, uma das mais sensíveis, inteligentes e bem-humoradas entrevistas de sempre. A forma deliciosa como conjuga a atenção para com os vocábulos da língua-mãe, a vontade de fascinar as crianças pelo poder mágico, encantatório do som articulado, fez-me rir, naquela discreta mesinha de café, humedecer de ternura o olhar às vezes cansado de mundo, voltar a acreditar nos que professam a fé na e pela palavra. Tudo para aportar a um nicho onde o regaço dos que alguma vez nos deram colo e nos leram baixinho histórias impossíveis será sempre um regresso a casa. Aquele homem poderá, até, eventualmente não encantar muitos - e eu sei de um livro seu que coloco aquém do seu brilho, por isso escrevo com a lucidez possível - mas aquelas páginas souberam-me a risos cúmplices, à honestidade dos amigos da infância - os "para sempre", como a adorável, inesquecível, gargalhática Alice, que ontem fez... 40 anos (o tempo foge-nos!) -, a um lugar de vozes segredadas que não quero ver apagado. Quero poder voltar a ler palavras que me saibam a gomos de laranja em sumo escorrendo pelo queixo, pinhões cobertos de pó castanho, esmagados com pedras, enquanto os outros meninos e a "irmã Ana" me gritam o nome ao longe - aaaaandaaaa, és a última, Inêêês, vais perder os fantooooches! - mãos dadas entre dois bibes azuis, rostos afogueados da muita pressa de chegar aos baloiços e todas aquelas dúvidas sobre Deus e "os lugares depois de morrermos", os que os adultos não queriam que eu soubesse cedo de mais... Sim, existe esse lugar onde a expressão Graça de Deus me faz ainda fechar os olhos no baloiço das horas, sorver o cheiro a cedros depois da chuva, tocar como espuma as folhas de Outono-nuvens que me sustentavam, os dedos sobre o musgo húmido de todas as manhãs em que a avózinha era ainda viva e nos levava ao colégio... Tudo isso assomou ao meu espírito quando percebi que há, ainda, quem não se entregue ao fogo fátuo da vaidade, que não faz questão de ir às escolas para convencer os meninos de que sabe escrever e é um escritor. Quem quer que seja modesto tem o meu aval e o meu voto de muitas, longas e prazenteiras horas de escrita, para que eu as possa também ler. Partilhar segredos. Uma e outra vez, saindo deste corpo agora perto da "quarentena" (;0)...
Álvaro Magalhães reabilitou a minha ternura pela(s) palavra(s) e, sem nunca lhe ter ouvido a voz, sei que é uma voz de riso. Obrigada! Abençoados os que nunca se deixaram contaminar pelo embotamento dos sentidos e serão sempre meninos, seja qual for o chão que pisem, a língua que falem, os percursos pelo tempo adentro que possam fazer, distanciando-se do lugar infância que eu própria me recuso a deixar de trazer dentro. Por dentro do meu corpo ainda magro e tão pequeno que não chega à estante dos livros, mas sabe já que será sempre entre eles que mora a sua casa.

25.5.09

Anni (6) berçário (?)

Sim, eu lembro-me: foi na sexta, 22.
Este blog completou meia dúzia de anos.
Deverá estar, portanto,
a estrear-se no... 1º ciclo?
(Há-de estrear-se, mas nunca estriar-se...)
Chuac!
;o)

18.5.09

Ironias (Temper, temper...)

A par com Não Há Coincidências, de Rebelo Pinto, M., repousava, na biblioteca escolar, de Pessoa (sim, Fernando!), O Livro do Desassossego. O mesmíssimo que uma funcionária - que, entre outras coisas, varre das salas o lixo que os meninos produzem num afã consumista - anda a ler. Ela, eu sei que lê. Aprecia arte, compra livros, pensa por si, LÊ de forma reflexiva e adora a escrita pessoana. Cada Ministra tem os alunos que merece...

11.5.09

Copiosa, esta chuva torna tudo mais pacífico. Sempre que, nas cidades que rodeiam Azimutes, há previsão de "mau tempo", imagino prosopopeias de anjos que se divertem pelos semblantes azedos dos sulistas. Nas rádios, povoadas de uma mole humana de imbecis com medo das águas, há constantes lamentos se não há sol... Costumam, os acéfalos, considerar que o fim-de-semana estará "estragado" se a chuva vier... Na minha inocência albertocaeiriana costumo pensar que os dias de chuva serão, para sempre, o prenúncio maior de coisas boas. Isso, acrescido do facto de ser professora de adolescentes, faz-me dar graças por poder, neste quase fim de ano lectivo, sentir que as aulas ainda não são esplanadas, areais de praia, preliminares de leito que se quer privado. Suponho, além do mais, que os tais preservativos que querem distribuir gratuitamente pelas escolas - numa urgência de suposta salvação da saúde pública - ficarão adiados sine die nas mochilas, a par com os livros da mesma Filosofia cujo desaparecimento das mentes escolares já se aventou como hipótese e o snack achocolatado ou o pensinho de teor higienizante... Será a intenção rejuvenescer a velha, caduca Europa? Prevê-se aumento exponencial da estupidificação das massas, já de si parcas em intelecto. Por isso, a chuva os refresque a todos de rajada. Que os adultos presidindo à ordem, emanando baba e boçalidade desde a AR se refrescassem de ide(a)i(a)s, não era mau voto, agora que, não sendo já funcionários públicos, os professores deixarão de ter implícito nos contratos individuais de trabalho o dever de vassalagem ao rebotalho idiotizante do costume. Que venha, pois, a chuva e que o lismo das mais lodosas mentes se aclare, a caminho do mar, com os demais esgotos. Mal podemos esperar pela História...

15.4.09

Há em volta

o tom certo de invernia. Tudo continua igual a si em termos de "coisa pública", a imprensa vai-se vendendo a muitos dos menos inteligentes, o senhor B.O. põe em marcha uma espécie de "nova ordem mundial", contradizendo-se a cada passo, o alheamento continua a pressionar os que acreditam em teorias apócrifas, a chuva, quando cai em terra, continua a fazer lama. Como era no princípio, assim tudo permanece. Resta-nos observar e esperar que quando o desabamento se desenrole de si mesmo, nós possamos estar no único lugar onde nada mais nos poderá ensombrar o espírito. Dormiremos o sono dos narcolépticos, avessos a interferências, abertos à novidade boa que é nada acontecer, fechados em definitiva posição que o feto que fomos procura incessavelmente. E lá longe, no Sael ou perto dele, barcos imensos oxidam entre o deserto e os que caminham em busca de água. Como eles, esperamos por um porto de onde mais nada, ninguém, absolutamente nada nem ninguém nos poderá desenlaçar. Há algo de belo na noção de nó górdio, além do som que a expressão em si contém: os casos perdidos têm sempre um fim à vista. Em nome deles, tornei-me num: relapsa. Agora e sempre. Doa como doa, agora e sempre, em golfadas de ar gelado, como este que há em volta.
P.S. E viva a ligação wireless!

1.4.09

Brand new

.
Exultei: tinha, finalmente, uma garagem!
Poderia, agora, executar
com limpeza e elegância
- condição sine qua none -
o plano: suicídio monóxico...
.

9.3.09

Já é (quase) oficial...
;o)

26.2.09

Simple...z!

Carnaval português (a sério!). Filma-se criançada. Entrevista-se menino. Pergunta-se de que se disfarça. « - Jardineiro.», diz ele. Perguntam-lhe se gosta do disfarce. (Pensa dois segundos) Que não, não gostava. Novo arremesso: de que gostaria de disfarçar-se ele, então? (Pensa três segundos. Dá aos ombros). « - De nada.»
A isto chamo eu clarividência. Não da jornalista, claro, porque essa nem pensava como pensa que pensa. O menino, esse, restituiu-me o gosto pela sua geração, essencialmente porque:
1. pensa (reflectida e algo detidamente!);
2. verbaliza o que pensa;
3. pensa que não gosta do carnaval;
4. pensa bem, porque nada há de "gostável" na "energumenice" e na "molhada carneirificante";
5. pensa como um português: é depressivo;
6. apenso a isso, subjaz-lhe a argúcia dos que:
a) dizem a verdade (não merecem castigo!);
b) dizem-se (genuínos) a quem só diz vacuidades;
c) dizem-me muito mais do que qualquer boda ou bodo com ou sem dolo, porque...

Dizer é dizer o que (se) é, não insuflar os egos dos outros.
Sobre o carnaval brasileiro, o raquitismo encefalítico e o embotamento da mais básica noção do ridículo, então, estamos conversados. O meu pé, definitivamente, não tem samba: prefiro o português europeu, a Língua Mater, a cuja tal dita - até essa! - nos foi roubada/comprada. Que vivam os simples, sem carnavais, a doer, porque destas cinzas pouco nos sobrará um dia, né, seu Manué e seu Juáquim? Qui táu é istá à venda por aí? Chorah, portugáu, chorah, nóijá dévoramu voceis. Tjirámu dji letra, auis poucuis e ágorah a vossá língu'é à nossa, vice?
Toma, portuguesinho, embrulha. Simplifica. Aluga-te a metro. Dá o .. e três vinténs por seres da moda. "Vira" moderno, não "brigues" com a onda, "a mídia" já o fez. "Malha", estupidifica-te, cospe-te, globaliza-te, "veracrucifica-te", protopaís de merda!

3.2.09

Cheguei. Tinhas chamado (por mim), amor?...

Dizes-te com saudades do que (te)escrevia eu. Também eu tenho saudades de quem era. A escrita industrializou-se, agora que cada vez mais me fica nas entrelinhas. Há um como crime premeditado quando as personagens que trouxe à vida e releio me acossam pelas noites sem ti e me invocam, pedindo que as escreva, lhes dê essa continuidade de sangue em veias telangectásicas. Acedo, deito-me na costumeira narcolepse do "dormir depressa". Cada vez sou mais corpo e menos alma, mas só por fora, para quem não me vê com a luz que me aura os cabelos cada vez mais revoltos e fartos de tanta vida. Essa, a velha insuflada chama ainda me assusta, ainda me esgota, sempre me parecerá a mais. Que sentido faz o que quer que seja se tudo dói a mais e o prazer é a dor em paroxismo. Continuo a ser um "áparte". Sou esse parêntesis incompleto por nele estarem contidas tantas pseudo explicações... Que data me espera?...
(...)
Entretanto, uma história/fábula:
Anichado entre a quentura da cama e os seus medos, um menino pensava que era a recém-nascença de um gato escuro. De olhos amarelos, bebia as cores em volta como se tivesse a fome imensa dos que sabem mais do que o tempo lhes ensinou. Isto concluído, saltou como o gato que sabia já ter sido e empoleirou-se na estante mais alta, mirando a rua e o seu gelo fosco. Percebeu então que havia mais para ele do que o que queriam admitir tantos adultos com diagnoses avulsas: lançou-se abaixo, num exílio de desespero. talvez agora, que se partira em vários, o deixassem fluir no recreio frente ao largo que a casa abraçava: poderia, enfim, curar-se depois de curar-se osseamente. A neve em pedra esperava-o no lago coberto de folhas da cor da terra que sabia que também era. Assim se desfazem equívocos: começa-se pela base, esgaçando para desconstruir. Talvez então reparem que somos de pele e osso, como os pássaros e os gatos que não têm medo de estar vivos e por isso se lançam aos vazios todos que o ciclo a que chamam vida lhes põe no caminho, ou no céu, ou nas noites que ainda estão por dentro dos dias, contidas em germe no negrume que tudo traz dentro. Talvez o vazio seja o (re)começo, apenas. Bebamo-lo de um trago só, pois o nosso tempo é extremamente limitado, tal como é longo aos olhos da morte que nos espera, ávida e esplendorosamente bela. Baba-se de luxúria, a morte. Entreguemo-nos a ela, nós, o mortos dos dias que se seguem. Como o menino a fábula que se iniciou acima destas letras sabe que só no limite estará vivo: só isso lhe sabe a húmus.
I' caille, ici, merde alors...
Qu'i' fait froid, ohlala...
Faut qu'j'part'avant l'degré zéro, p'tain...
;0)

6.1.09

Sim, claro que sim... Viva! Ainda estou, pois, mas... havendo tanto a dizer sobre tanto, vou escrevendo. Para as gavetas, claro, como sempre soubeste que faço, mas já há formas, personagens que me interpelam se as deixo com destino por traçar muito tempo, muitos dias, muitas horas, muita estrada a galgar. Invocam-me assim, saídas do nada, esquizofrénicas e polvosas. Refaço-as, alinho-as, aprumo, afino, moldo, assassino, cego, amo, sensualizo, destruo, ensanguento, liberto como pluma ou esporo no ar das semanas e depois esmago, abandono, beijo sem pressa, envertizo e angulizo como esquinas de fórmica rasgam pele, deito gotas de penso líquido e embalsamo, esventro, devoro, afago e reconto baixinho ... Reciclar por reciclar, enfim, haverá sempre o verso das folhas já preenchidas.
Adeus, mundo cruel; olá, planeta em escaras, caminho de nova cura a cada inspiração! Debaixo da pele, há carne viva, ainda! Bebo um trago em nome de um dia que fiz perfeito: este! E, rindo de tudo, je le prends au sérieux. Surplombé(e), dirait Quignard...
A propósito, já te mandei um beijo hoje? Toma-o: é teu! Bom ano. Todos os dias!
:)

9.11.08

Desistir? NUNCA!

Porque quem desiste já apodreceu no âmago,
porque abomino a pequenez da hipocrisia,
porque me RECUSO a viver no medo!


Todos à Manif'!!!



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1.11.08

! 'finaM

Vejo-te em Lx.
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No dia 15...
&
em todos os outros.

;0)

1.9.08

Irremediavelmente apaixonada: Bomarzo (IV)


Apenas alguns excertos, humilde tentativa de ilustração das maravilhosas, siderantes 632 páginas desta obra-prima, tal como testemunhado aqui, aqui e aqui.

Os "títulos" assinalados com * são da minha autoria e tentam, sem desvendar excessivamente um texto tão avassaladoramente misterioso, orientar para elementos essencias na compreensão da psicologia do imortal(izado) duque de Bomarzo. Pequeno contributo - mesmo contra as leis! - para que mais se deixem enlaçar pela MAGIA de ler bons livros! Este livro comprei-o eu e não lamento nenhum cêntimo dos mais de trinta euros...

Emudecida de estupefacção, enfeitiçada, espero que Bomarzo possa surplomber (como diria Quignard) outros leitores, marcando-os indelevelmente. A quintessência foi encontrada: deteve-a e eterniza-a agora Manuel Mujica Lainez!
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(A estranha atmosfera de Bomarzo*)

«Desde muito criança que, obcecado pela minha inferioridade congénita, tratei de a disfarçar na medida do possível, ensaiando diante do espelho as posturas e os ângulos mais propícios. Olhava-me ao espelho que havia no quarto da minha avó, em Roma, e via-me a flutuar, enfezado, enfermiço, naquela luz esverdeada que titubeava nas salas do lúgubre palácio, da cor das tapeçarias, dos móveis, dos retratos e das panóplias, naquela neblina irreal solta em farrapos transparentes, que não era daquele tempo mas vinha da Idade Média e ficara a ondular pelos aposentos em cujos recantos se estancava sem conseguir sair da sua clausura glacial, e que a velhos e novos envolvia e impregnava, transmitindo-nos uma estranha lividez.»
(p. 24)

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(O gosto pelas artes*)

«É nos sentimentos que evoco que devem procurar-se as raízes do meu entusiasmo, partilhado com tanta gente da época, pelos testemunhos da antiguidade clássica. Nesses sentimentos, como mais tarde irei esclarecer, radica também o paradoxo do Sacro Bosque dos Monstros que inventei em Bomarzo. Os meus contemporâneos do Renascimento foram impelidos para os nobres vestígios das culturas anteriores pelo mimetismo helénico e imperial que caracterizou aquele tempo; pelo desejo de conhecer e de estabelecer os cânones da exacta formosura formal que os gregos e os romanos difundiram; ou simplesmente pela ambição aristocrática de possuir obras únicas e cobiçadas. Eu fui-o por razões mais complexas. Esperei acaso que a proximidade daqueles sobreviventes harmoniosos actuasse sobre mim como uma terapêutica mágica; terei talvez imaginado que, submergindo-me num mar de beleza, rodeando-me de mármores rítmicos até desaparecer atrás das suas entrelaçadas aparências, como no meio de um bailado imóvel e fragmentário em que cada coisa – a lisura de uma fronte, o arco de um braço, a proporção de um peito – suscitava emoções que conjugavam poesia e matemática, conseguiria esquecer-me de mim mesmo.»
(p. 25)

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(A ternura da avó*)


«A minha avó abraçou-me longamente. Com delicada ternura retirou-me (...) As suas mãos ogivais, que às vezes comparava com as minhas – (...) eu herdara os seus dedos ósseos, de grácil desenho, (...) -, pousaram-se-me suavemente nas faces, nas têmporas, no cabelo, ao longo do meu relato em que nada silenciei, e durante o qual as minhas lágrimas lhe humedeceram as balsâmicas mãos de rainha, enquanto os seus olhos se velavam igualmente, maravilhosamente tristes.» (p. 38)

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(Os objectos e os lugares têm alma...*)


«Há algum tempo, no Museu Etrusco Gregoriano, fui abalado por uma forte emoção quando dei de caras com as peças da minha armadura.
(...) ignora-se o que aquelas armas etruscas significaram para mim num momento doloroso da minha vida, como símbolos de solidariedade e de apoio. As coisas, que se afirma não possuírem alma, são possuidoras de segredos profundos que se imprimem nelas e lhes criam uma peculiaríssima espécie de alma. Estão cheias de segredos, de mensagens e, como não podem comunicá-las senão aos seres eleitos, tornam-se, com o passar dos anos, estranhas, irreais, quase pensativas. Quando nos referimos a elas falamos de pátina, de lustro, do toque das centúrias, e não nos ocorre falar de alma. A armadura de Bomarzo tem alma. E reconhecemo-nos no museu papal.» (p. 40)

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(O espírito aventureiro do pai e a sua insaciável sensualidade*)

«Ao crepúsculo, partia a cavalo, com a barba branca mergulhada no rebuço, sem medo dos salteadores e sem outra defesa além da sua espada e do seu punhal, recusando a escolta dos seus pajens e escudeiros, e regressava com o sol alto, muito pálido, muito marcado de olheiras, gritando que lhe dessem de comer.» (p. 41)


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(Ironias da História...*)

«Já que menciono de novo Odet de Foix, visconde de Lautrec, devo referir um facto que na minha opinião é interessante. Lautrec e o meu pai, que eram íntimos, devem ter discutido um dia o meu caso. (...) Ambos se consideravam, no seu másculo poderio, como dois semideuses, como duas vivas estátuas heróicas, paradigmas das suas respectivas linhagens. E o irónico do caso é que o nome glorioso do visconde de Lautrec, governador do Milanesado e de Guiena, tenente-general de Francisco I em Itália e irmão de Madame de Chateaubriand, uma das mais belas favoritas do rei, foi eclipsado, no decurso dos séculos, pelo nome do seu descendente, Henri-Marie-Raymond de Toulouse-Lautrec-Monfa, um anão pintor que frequentava maus ambientes e que foi muito mais disforme do que eu. Ninguém, para além dos estudiosos de históricos pormenores, se recorda daquele que pensava ser o Lautrec culminante, o colossal Lautrec de bronze que estendia o seu bastão de comando sobre a Itália; ao passo que ninguém mais ou menos culto desconhece a obra e os pormenores da vida do seu monstruoso e genial herdeiro, um gnomo absurdo, pintor de cartazes de cabarés e de prostitutas desconjuntadas, pelo qual o valente capitão Lautrec, se tivesse podido sabê-lo, teria sentido asco como por uma sevandija humana e por um insano baralhador de cores intoleráveis. (...) E deste modo acontece o cáustico paradoxo de um anão e um corcunda excederem em méritos, muito de longe, os dois guerreiros triunfais de quem procedem, o visconde de Lautrec e o duque de Bomarzo, que seguramente consideravam que a sua glória de emplumados combatentes era um supremo cume, e que, se imaginassem o que depois aconteceu, teriam declarado com amargo desprezo que o mundo, entregue a abomináveis aberrações, enlouquecera. Suponho que isso, tão perturbador, tão perturbador de modos preestabelecidos, é aquilo a que os britânicos chamam “justiça poética”. Toulouse-Lautrec e eu estamos irmanados no tempo por uma forma póstuma e extravagante da desforra.»
(pp. 42-44)

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(A única, fugaz ternura do pai*)

«O relato aquecera o meu pai com o mesmo fogo que o excitara ao contemplar, no meio das cortesãs e dos nobres toscanos, a marcha gloriosa de David. (...)
Como era seu costume, enquanto falava pusera-se a andar a todo o comprimento da sala, e eu – foi essa a única ocasião – não senti medo da sua proximidade. É provável que o meu pai tenha apreendido no ar essa efémera aproximação espiritual, porque se deteve diante de mim e, como que distraído, como se não desse pelo que estava fazendo, pois que entre ele e eu se interpunha a recordação do David de Miguel Ângelo, roçou-me a cara com um dedo. Depois tornou às suas passadas militares. O seu monólogo alargou-se aos projectos colossais de Buonarroti [Michelagniolo Buonarroti = Miguel Ângelo].
(...)
Essas utopias enfeitiçaram-me então e depois, mas o seu deslumbramento alucinante não actuou imediatamente, e, na noite em que o meu pai falava, iluminado pelas chamas da lareira, essa inspirada maravilha quedou-se relegada para segundo plano, como um fundo de titânicas construções que escravizavam e transfiguravam a natureza, um fundo em cuja confusão se destacava o perfil do meu pai, que se detinha, me roçava a face com um dedo e se afastava, como um São Jorge alanceador de endríagos, para a região onde se erguiam as criaturas infinitas, atlantes que mergulhavam nas nuvens os rostos de pedra, deixando-me algo mais importante que esses desvarios, frenesim dos génios: a sensação fugaz do dedo indicador que, por um segundo, descuidadamente, com uma fácil espontaneidade afectuosa, tinha pousado na cara do filho corcunda do duque.
Foi esse o único momento autenticamente venturoso que ao meu pai fiquei a dever; o único durante o qual vibrámos em uníssono. David chamou-nos por um instante para debaixo da sua sombra.»
(pp. 50-1)

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(Uma sensibilidade mágica em relação ao belo*)

«E o que na minha infância constituiu a minha única felicidade, o pequeno tesouro acumulado apesar das dificuldades que se opunham o meu anseio (...), foi a memória dos meus passeios pela velha Roma e das minhas idas a Bomarzo, pois uns e outras me ajudaram a explorar e descobrir o melhor de mim mesmo: a capacidade de descobrir a beleza e de a achar onde para os outros estava oculta, como que ausente, numa coluna, num arco, na curva de um rio, numa nuvem, no lânguido vaivém de um ramo verde e cinza desenhando com os seus pincéis de sombra caligrafias orientais.» (p. 52)

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(Bomarzo, o nicho, será comparável com outros lugares? *)

«Depois de Bomarzo, feito de pedras ásperas, de cinza e ferrugem, apertado, tosco, Veneza delineou-se à minha frente, líquida, aérea, transparente, como se não fosse uma realidade mas um pensamento estranho e belo; como se a realidade fosse Bomarzo, agarrado à terra e às suas secretas entranhas, ao passo que aquela incrível paisagem era uma projecção cristalizada sobre as lagunas, algo assim como uma ilusão suspensa e trémula que logo a seguir, como na miragem dos sonhos, podia ruir silenciosamente e desaparecer. Não que eu considerasse Bomarzo menos poético – Deus me livre -, mas em Bomarzo a poesia era algo que brotava de dentro, que se gerava no coração da rocha e se alimentava do trabalho secular das essências escondidas, ao passo que em Veneza o poético resultava, exteriormente, luminosamente, do amor da água e do ar, e, por consequência, possuía uma qualidade fantasmal que zombava dos sentidos e exigia, para ser captada, uma comunicação em que se fundiam a emoção estética e a vibração mágica. Foi esta a minha primeira impressão perante o fascínio. Compreendi depois que em mim, porém, a força misteriosa de Bomarzo, menos manifestada à superfície, mais reconditamente vital, actuava com um poder muito mais fundo que aquela sedução cortesã, feita de jogos refinados e de matizes excitantes; mas, como tantos, como todos, sucumbi ao chegar diante do encanto da cidade incomparável, atraiçoei na memória a minha autêntica verdade – cada um tem o seu próprio Bomarzo – e pensei que não havia, que não podia haver no mundo nada tão belo como Veneza, nem tão rico, nem tão exaltante, nem tão obviamente criado para proporcionar aquela difícil felicidade que nós, desesperadamente sensíveis, procuramos com ânsia, esgotando seres e lugares.»
(pp. 303-4)


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(Aprender a viver na grande cidade*)

«Mandei os meus pajens à procura de alojamento, pois não o tinha reservado, e, perdido na diminuta Babel, sentei-me a observar o Canal Grande [em Veneza], sulcado por umas barcas carregadas de palha e de lenha e por outras que arrastavam pela água, como mantos, umas compridas redes. Não contava eu com a espionagem, elemento essencial da Sereníssima, que cobria com fios invisíveis toda a cidade, de sorte que nada do que nela acontecia, por mínimo que fosse, podia guardar o seu segredo e se, por exemplo, um nobre cometia o erro de murmurar contra os governantes, mesmo que cochichando e imaginando-se ao abrigo da delação, era advertido duas vezes e, à terceira, sem mais delongas, afogavam-no. Os informadores comunicaram imediatamente a minha presença, que eu não tinha intenção de dissimular (...)»
(p. 306)


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(Seduções nocturnas de Veneza*)

«A barca tinha a proa dourada e uma câmara forrada de cetim vermelho e coberta de flores armadas em pirâmides. Na parte posterior, aos pés do gondoleiro que se movia ritmicamente, voluptuosamente, havia dois músicos e um cantor. Distingui na obscuridade vários mascarados (...) Nós (...) também nos disfarçámos, utilizando as caretas que nos ofereceram, as pitorescas bautte brancas e negras, de compridos narizes, que, como uma mascarilha, cobriam metade do rosto e que o teatro chocarreiro dos mimos começava a difundir. Entreguei-me jubilosamente ao feitiço tão italiano do disfarce, que iria propagar-se enormemente com o passar do tempo e que já então era de tal modo atraente que, quando a corte de Ferrara quis lisonjear César Borgia, lhe mandou de presente cem máscaras diferentes... as quais, certamente, bem podiam interpretar-se como uma alusão irónica.»
(p. 328)

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(Fugacidade da vida*)

«Embrulhei-o nas peles do lucco, e ouvi-o soluçar enquanto enumerava, tiritando, os tesouros que com o palácio se perdiam para sempre. Viver era aquilo: perder, ir deixando tudo para trás no caminho percorrido, despojar-se... E ser imortal equivaleria a terminar mais nu, por fora e por dentro, que o grácil João Baptista Martelli quando se postara com ébria soberba no meio das pranchas do nosso batel.»
(p. 331)

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(Lorenzo Lotto, o retrato do duque de Orsini e revelações sobre o pai*)

«Combinei pois uma entrevista com Magister Laurentius [Lorenzo Lotto, o pintor] no palácio Emo, e o mestre foi lá visitar-me. Parecia-me oportuno que antes de deitar mãos à obra o pintor me conhecesse bem, pois sabia que cada um dos seus retratos se alimentava de um caudal psicológico enriquecedor que guiava o autor à medida que o ia criando. O procedimento agradou muito a Lotto, e saímos várias vezes em passeios por Veneza. Ele contava nessa altura uns cinquenta e dois anos, mais vinte e quatro que os que tinha quando pintou o meu pai para o políptico. Era um homem taciturno, de poucas falas, sem características físicas notáveis para além dos seus grandes olhos negros, e possuía uma sedução difícil de definir, nem do lado do Anjo, nem do lado do Diabo, que emanava porventura da sua concentrada timidez doentia, da sua susceptibilidade que se feria com a menor fricção e daquele silêncio que se adivinhava tenso de emoção. Numa altura em que a opulenta onda gozosa da pintura veneziana progredia teatralmente em direcção à espuma suprema do Veronese, e se preparava para explodir junto de esplanadas de mármore onde se sucediam os frívolos festins, Lorenzo Lotto continuava a ser, em aspectos que se relacionam com a sua introversão sombria, indício de fogos subterrâneos, um solitário da arte, voltado com a sua perplexa angústia para as névoas interiores dos seus modelos. Por isso ele me atraiu e nos entendemos, apesar da eufórica superficialidade que fazia ressaltar o que em mim havia de barroco. Encontrámo-nos numa zona sombria – a dos ansiosos, a dos insatisfeitos, a dos incapazes de uma confissão plena – e nela convivemos. (...) Todos esses temas se conjugavam em Lorenzo Lotto, e eu pressenti-os então, de uma forma confusa, porque o pintor evitava a confidência e silenciava-a, ou mudava de conversa mal o seu interlocutor entreabria uma das portas que levavam às regiões crepusculares da sua intimidade. Senti-me confortável junto dele, apesar das suas inquietações, das suas reticências, das suas hesitações, das dificuldades de um diálogo em que avançávamos como se o seu principal mérito consistisse em esconder espinhos. Em vão tentei que me falasse do meu pai.
- Era um senhor esplêndido – disse-me uma manhã, repetindo a fórmula consabida (...) -, e talvez no seio da sua família não se lhe tenha atribuído totalmente o devido valor, não se tenha penetrado até ao fundo da singularidade do seu carácter.
Pedi-lhe que esclarecesse o seu pensamento, mas a única coisa que consegui foi fazê-lo murmurar que dentro da família é onde menos se vislumbra a individualidade dos que dela fazem parte, porque os preconceitos e os pequenos interesses pessoais (quando não o amor cego) obscurecem a visão profunda.»
(pp. 333-4)

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(Quem é, afinal, nas suas contradições, Pier Francesco, quem é este Vicino Orsini, duque de Bomarzo? *)


«Eu era aqueles olhos pardos, aquele cabelo castanho, corredio, quebrado, recolhido atrás das orelhas, aquelas sobrancelhas finíssimas, aquelas maçãs do rosto salientes, aqueles lábios vermelhos, apertados mas famintos, aquele agudo queixo, aquelas inteligentes, delicadas mãos nuas, aquela intensidade, aquela reserva, aquele orgulho, aquele poder oculto e latente, aquela chama fria, aquela equívoca, indefinível violência que se pressente no gelo da solidão aristocrática, e aquela ternura também, desesperada. Na galeria dos desesperados de Lotto, nenhum me ganha. Só um melancólico e ambíguo como ele podia captar-me assim, aprisionar-me assim com os seus pincéis, como sem dúvida aprisionou o meu pai. Há sem dúvida em ambas as imagens, na do meu pai e na minha, muito de Lorenzo Lotto, daquilo que ele era, do que ocultava e combatia e apenas se manifestava na sua pintura, mas nós, os dois Orsini, oferecemos-lhe, a um quarto de século de distância, com as nossas essências obscuras, afins da complexidade da própria essência dele, a desejada ocasião de se expressar e confessar, expressando-nos e confessando-nos a nós. Por isso me dói que não se saiba que aquele personagem, o Retrato de um Desconhecido, o Retrato de um Gentil-homem no Estúdio, é Pier Francesco Orsini, duque de Bomarzo, e que haja um comentarista qualquer a propor para modelo do mesmo um tal (...).
Terminada a obra, contemplei-me na sua pálida e arroxeada pureza, como num espelho. À esquerda, Lotto colocou uma janela que abre para a lonjura luminosa do mar, e que promete, no recolhimento desordenado do estúdio, tão denso de furtivas chaves, uma esperança de calma luz. E reconheci-me plenamente na comovedora figura, na sua máscara de incendiado alabastro. Era assim eu, triste, estranho, indeciso, sonhador, turvo e nostálgico. Um príncipe intelectual, um homem daquela época, pouco menos que arquetípico, situado entre a Idade Média mística e o Hoje saciado de matéria; simultaneamente preocupado com as coisas da terra lasciva e com as de um além problemático; brando e forte, ambicioso e vacilante, senhor da elegância que não se aprende e daquela que os textos ensinam; desfolhador de rosas murchas, amigo do lagarto luxurioso e da salamandra imortal. A corcova, a carga bestial, dolorosa, não está presente na tela mas pesa-lhe – e essa é uma das maravilhas da arte de Lotto - pesa-lhe, invisível, no seu donaire espiritual, na sua atmosfera metafísica.»
(p. 334-6)

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(A magia antiga de Bomarzo apodera-se de Vicino Orsini, suspenso do mundo*)


«As superstições do lugar surpreenderam-me uma vez mais, e senti, através das lousas do chão, o bafo da terra etrusca que respirava como um imenso animal escondido. Olhei para o céu crepuscular em que começaria a acender-se a palidez das constelações, e lembrei-me do que diz Giordano Bruno acerca dos astros, animais tranquilos também, de sangue quente e costumes regulares, empurrados pela razão. Tudo vivia ali em redor: a terra sobre a qual assentavam os rochedos de Bomarzo; os planetas suspensos na sua abóbada, as figuras e os objectos trémulos refugiados no seu coração penumbroso. No meio daquele universo cheio de pasmosas correspondências, mantido pelo sortilégio de laços encantados que lhe reforçavam o equilíbrio inexplicável, envolveu-me uma paz que apenas em excepcionalíssimas ocasiões experimentava. Ergui uma esfera; levantei com dois dedos um pingente de âmbar; desdobrei um manuscrito decorado com alarmantes miniaturas de demónios nus e ermitões e mulheres tentadoras, sem outra roupa além dos seus colares e diademas; empurrei um fantoche que parecia dotado de tanta vitalidade como o homúnculo de Paracelso, e as horas escaparam-se-me, velozes, numa milagrosa amnésia, enquanto à distância cantava a rouquidão dos galos e os primeiros carros partiam em direcção às eiras e às ceifas.»
(p. 452)

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(A construção do Sacro Bosque de Bomarzo e o último reduto do Ninfeu *)


«E, pela primeira vez em anos, descansei, como se o olhar de Deus não pudesse perseguir-me até lá em baixo. Ninguém, fora os meus cúmplices, entraria naquele reduto (...). Ignorariam a existência daquele abrigo. Ali, perto dos túmulos policromados dos terríveis etruscos, o duque de Bomarzo estava seguro, como um animal no seu covil. Tudo o que o rodeava lhe era afeiçoado, tudo aquilo o compreendia e amava com o amor subtil que as coisas sentem pelos que as escolheram, e que estabelece entre umas e outros uma esotérica união. Muitas vezes, estando a escrever, me levantei da mesa apinhada de livros e de folhas garatujadas, para me aproximar, como um sonâmbulo, de uma cratera de vidro com uma cabeça de fauno na borda, ou de um alaúde que me fazia lembrar os de Hipólito de Médicis, ou de uma breve figura de ouro, e, sem motivo, como fizera com o torso do Minotauro, os beijar longamente.»
(p. 456)

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(A construção do Sacro Bosque de Bomarzo e o último reduto do Ninfeu *)


«Aquele era apenas mais um passo no caminho para os arcanos da magia, e Sílvio entrou pela senda tenebrosa. (...) Nele revivia o velho sonho dos alquimistas, o da Pedra inencontrável que transmuta os metais inconsistentes em ouro.»
(p. 456)

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(Ao estilo de Edgar Allan Poe, o ambiente como maldito, um estado de alma*)

«E o silêncio apoderou-se de nós, carregado de expectativa, porque parecia que os imperadores romanos, distanciados na galeria e na sombra tortuosa do Minotauro, esperavam também, tensos, agudos, enquanto o vento fustigava os vidros e retorcia, entrançando-as e desentrançando-as, as chamas da lareira.»
(p. 463-4)

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(A busca da Quintessência*)

«Acima de tudo, Sílvio não devia sequer farejar a proximidade do prodígio. Para o distrair, facilitei tanto quanto possível as suas próprias investigações: a procura da Pedra. Se a encontrasse, melhor para ele. Aos anteriores elementos do laboratório acrescentei outros, alguns bastante dispendiosos: o forno de areia, o aludel espanhol formado por vasos de terra envernizada, o pelicano, de cujo ventre partiam dois tubos; e aquela multidão de objectos de herméticos nomes, os quais todos designam, com ligeiros matizes, o ovo filosófico: a prisão, o sepulcro, a casa do frango, a câmara nupcial, a matriz, o ventre da mãe, tudo o que podia exigir-se para se obter aquilo que também mudava de nome e se chamava, segundo os diferentes alquimistas, Pedra Filosofal, Pedra do Egipto, Pó de Projecção, Grande Elixir de Quintessência, Grande Elixir de Tintura de Ouro ou Grande Magistério.»
(p. 474)

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(Os estertores da guerra *)


«Ah, tal como em Hesdin, tal como em Thérouanne, a beleza decorativa dos poetas épicos e dos pintores áulicos, com grandes atitudes estéticas, com frases célebres, com capitães esplêndidos que usavam os aços como círios, dava lugar a uma consternadora confusão, a uma repugnante carnificina de vísceras semeadas entre bestas e estoques partidos, em que era difícil reconhecer o aliado e o adversário, e em que o monstro de metal e de espuma devorava tudo o que achasse no caminho, vomitando fragmentos de prata cinzelada, de esmalte, de ouro, de marfim, que o sangue tingia, escarlate, obcecantemente vivo no meio dos estertores da morte, até que acabou por se confundir também com as púrpuras serenas do ocaso!»
(pp. 609-610)


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Tão eterno como as pedras de Bomarzo e o próprio Renascimento ao qual escreve um hino,
Manuel Mujica Lainez só pode dormir entre os anjos!