21.5.14

Se os moribundos "grupos musicais" (assim se dizia no meu tempo, sou alérgica a bândas; bandas, só as filarmónicas) cá do cada vez mais parvus Portugal podem celebrar 20, 25, 30 anos de carreira (Ah Ah, de rebolar a rir...), então também este demissionário blog pode fazê-lo. Assim sendo, celebra amanhã, dia 22, uns inusitados 11 anos. Olha... Podia ser pior.

Tenho de ir. O ticket do carro esgotou-se no tempo e eu liquefiz mais uns minutos de informação inútil. Assim como assim, é o que soe fazer-se por estes lados do Atlântico. Vamos lá então enobrecer o ministrocrato e corrigir mais uns quilos de testes cheios de erros, em "português abortado", o do "Acordo/aborto Ortográfico 1990". Siga a Marinha!

20.2.14

Be still my beating heart



Sting canta, aqui ao lado, a música indicada em epígrafe e eu não consigo impedir-me de pensar no post abaixo: se alguém inventa, em laboratório, peónias como a sufrutticosa no "meu azul", vou precisar de um bypass...

Entretanto, as árvores que me viram crescer balançam-se, como só elas sabem, numa brisa que acusa Primavera por mim indesejada e recordam-me dos reconfortantes movimentos em vórtice que já só as crianças sabem fazer. Quando em idades mais sadias, o "povo pequenino" faz aparentes parvoeiras que, saboreadas de olhos fechados, o instalam num Olimpo de tontura onde não há noção de ridículas rotulagens de "ridículo"... Perto dessa sensação, só a de fugir aos próprios cabelos que, levados pelo vento, são a nossa sombra no passado. Ao correr na direcção oposta, temos a mais perfeita sensação de liberdade, principalmente se não sabemos até onde nos durará o fôlego. O ar frio a espevitar o rosto provoca o riso, a canção que tenhamos na cabeça sabe a pedacinho de erva verde arrancado junto à água que corre e mordido no caule e nada, absolutamente nada nos olhará de olhos cinzentos para nos dizer que já não temos idade para essas coisas. 

Aos 44 anos faço o meu credo e o julgamento que ensina Manuel António Pina - perguntar à pessoa jovem que fomos -: fui fiel à pessoa que era, que sempre quis ser quando contava 20 anos? O sabor do verde na boca, a brisa das árvores no balanço do corpo, os cabelos ainda soltos no vento, sim, sou ainda a mesma. Portanto, be still my beating heart, que as análises de hoje ao sangue acusarão, por certo, "assuntos" só dos 40 anos. Por dentro, a criança em mim grita, de cabelos soltos na brisa, ao encontro de um bando de gaivotas na areia e nada, absolutamente nada disto tem nada que ver com "paixões" de qualquer tipo. Apenas percebi, mais uma vez, ao ver aquele sangue escorrer para um frasco, de que estou viva. 

Portanto, venham daí as peónias no "meu azul"!

;0)

2.2.14

Aleluia!


Finalmente, descobri! E é isto:

Cor: do catálogo Pantone, descobri o nome dado ao "MEU AZUL"
 VIOLET TULIP (16-3823).

E a flor (além das minhas tulipinhas amarelíssimas!)

É a paeonia suffruticosa!

Isto é aquilo a que chamo um dia feliz!

31.1.14

Cosmopolitismos bacocos da capital do reino

Portugal (leia-se Lx) baba ante o elogio que uma supostamente importantíssima-íssima-íssima revista de turismo... espanhola (pois... íssima-íssima-íssima) fez a uma moribunda rua de Lisboa e a uma outra, vetusta também - e caótica, e terceiro-mundo e a escorrer pobreza, porque é isso e isso apenas que filmam os senhores da tv, especialmente em se tratando do Porto, pois o que de lá se mostra e os que de lá falam têm sempre um ar de propositada ruína - mas muito, muito longe do centro do universo que parece ser a metrópole

Vejamos em números:
Reportagem sobre a metrópole - 4 minutos e 3 segundos;
Reportagem sobre o Porto - 2 minutos e 31 segundos.

Odeio lugares-comuns e mais ainda escrevê-los do que dizê-los, mas há coisas que nunca mudam... Os complexados de Lisboa continuam a roçar a náusea e só não provocam bocejos porque uma injustiça atravessada na garganta de um nortenho não é uma simples bacorada: é um asco que se cimenta e vai crescendo. E recordo muitas reportagens - todas! - nas quais se procura a norte, a suposta boçalidade; a sul, um cosmopolitismo roto e podre que fede mais do que as águas do Tejo que engoliram a cidade após o terramoto. Mas aquela gente não aprende com a história?... Fogos fátuos, gentinha bárbara, de antolhos de burro sempre postos, cega à beleza que não vê mais do que o alcance do próprio nariz, envolta em nada mais do que o seu próprio cheiro a sovaco frustrado...

23.10.13

Ombra Mai Fu*

Ombra mai fu
di vegetabile,
cara ed amabile,
soave più.

[Frondi tenere e belle
del mio platano amato
per voi risplenda il fato.
Tuoni, lampi, e procelle
non v'oltraggino mai la cara pace,
nè giunga a profanarvi austro rapace.]

 

*Obrigada, Richard Zimler, por despertar a curiosidade dos adolescentes portugueses por obras-primas. Sabendo que devo ler o que acredito que também eles devem ler (e são sempre tantos, mais de 100 por ano!), detenho-me nas pp. 68-9 de «Ilha Teresa». «Ombra Mai Fu» deixa-nos sem fôlego, seja qual for o seu intérprete. Percebo a afirmação de Teresa: se tivesse de cantar a Deus para lhe devolver o pai, esta seria A Música... Grazzie Mille.

6.10.13

ZIMLER, Richard, TORDO, João

Zimler

            A par com João Tordo, Richard Zimler é autor que leio com gosto redobrado a cada novo contacto. O Último Cabalista de Lisboa, Meia-noite ou o Princípio do MundoOs Anagramas de Varsóvia e agora Goa ou o Guardião da Aurora são verdadeiras obras-primas, se comparadas com a algaraviada atónita e mal resolvida de portuguesinhos ensimesmados nos "rodriguinhos" da banalidade.
                Zimler apresenta uma escrita à qual eu chamaria filigranítica, uma vez que a filigrana da ternura que escorre do papel - os primeiros capítulos da obra que agora leio, suplantam tudo o que já vi vertido em palavras - é, simultaneamente, o granito das obras que encerram gerações de gente de fibra, sobreviventes em épocas de grande adversidade. Em paralelo, Tordo é a escrita escorreita, singela, directa e profundamente inteligente. Estes dois autores sabem contar histórias. Não deambulam, não se perdem em conjecturas (as loboantunianas roçam o execrável, erráticas como os desabafos de um louco sem destino) e os únicos que se perdem com mestria, na minha óptica, foram Proust e, nos nossos dias, Paul Auster. Avançam e tudo, absolutamente tudo é útil na economia da obra que avança como um todo, indefectível, um fio de prumo. Há ali uma honestidade comprometida para com o leitor que fascina qualquer mente que aprecie a clareza e o despojamento.
            Tendo tido a sorte de assistir a conversas dos dois autores, perpassaram a honestidade intelectual, a lucidez e a elevação, justamente desejáveis por não haver, ali, qualquer laivo de artifício ou populismo. É claramente o oposto do que impera no país, onde a verborreia para vender o produto, o fazer-se interessante inatingível e/ou o mostrar-se acessível no riso pacóvio,  a suposta cumplicidade com os leitores/clientes era escusada e se tornou anátema de provincianismos marcadamente lisboetas (reparei, em lançamentos de livros, na importância de pertencer ao círculo, adular, acreditar que é prestigiante porque alguém disse que é bom, porque o autor é difícil de ler). 
            Recordo aqui a podridão que grassa no meio literário: houve um concurso no qual participei, tendo ganho um senhor que - fiquei a saber pela acta publicada na internet - venceu porque, segundo aparecia na justificação (e atenção, este foi  o primeiro mérito apontado à escrita da criatura!) o autor tinha "um bom conhecimento da geografia europeia"!... O concurso não era, sequer, sobre suposta literatura de viagens! Definitivamente, eu  e  centenas de outros teríamos de ter amigos no meio, para poder vencer e viajar, vencer e viajar, vencer e reentrar no vicioso ciclo. Do I need to say more?...
             Como leitora,  fui particularmente deliciada com feitios mais densos e adorava as patadas de Torga e Saramago numa horda de jornalistas acéfalos que primam pela tentativa da previsibilidade, ou seja, tudo tem de estar decidido de antemão, eles odeiam ser surpreendidos. Creio, aliás, ser este um dos anátemas do reino da obtusidade e da abulia. É assim com os governos, com os supostos intelectuais, com os supostos cronistas do reino: detestam a originalidade a que hoje se chama em linguagem empresarial "to think out of the box". Até no meio editorial, ninguém "lhes" troque as voltas, ou terão de trabalhar mais e melhor, face a esse grande Adamastor que é o brilhantismo precoce num país revelho, caduco e invejoso. A propósito, leitor que ainda me escuta, algures: já reparou como o vate da Nação fecha "Os Lusíadas"?...

Beijos. Bom fim-de-semana.
               
             

26.9.13

28.5.13


   
 A vida corre, breve e a contento, apesar da espera acelerada pela hora da maior das verdades. Tudo o mais são futilidades, vazio e dias baços, nos quais as palavras são cobertas de ouro e esmaltes, como os de Gustav Klimt, que foi longe, ali mesmo no museu perto de casa, em busca do vale de Ur e das primordiais de entre todas as civilizações. Ali, cada palavra era tão acarinhada ao ponto de a escreverem na pedra, lapidar avant la lettre.





 

23.5.13

... and celebrations, já lá dizia o Cliff Richard(s)

Segundo parece, ontem - que ainda há pouco era hoje! -, dia 22, capicuento e de ar imberbe (o dia, claro! Que também foi claro, com luz a mais, aliás...), cumpriu este blog os seus dez anos, o que faz dele, se não outra coisa qualquer, pelo menos uma criatura imberbe como este dia 22 que há mais de uma hora morreu e já só cumpre calendário... O dia, claro, que o blog está-se nas tintas (sem meias das ditas, pois eu e ele - o blog! - somos de tintas completas, direitas como prumo, ácidas até aos gorgomilos e da cepa antiga) para as regras instituídas e salamaleques afins. Poderíamos - eu e o blog, claro está, limpinho como água (piada com laivos de Portismo, nestes últimos dias em que a nação se clubitizou) - estar por aqui mais uns minutos, mas afinal... para quê? Está assinalada a senectute desta casa azimutal, faroleira (e farelona!) e com gáspea de couro. Soprámos as velas, depois de mais um sopapo no pêlo de um dos gatos que farejam a doçaria maçapanesca e vely coloufull que são estes bolos de hoje em dia - o raio do gato, pensa que é tudo nosso? - e partimos a doçaria com pinta de fête foraine, a qual mordemos (com as ganas de dar é uma trinca ao imbecilóide do gato!) com o afinco de tudo o que é as usual e agora vamos mas é dormir que esta vida anda um nojo... e eu cá levanto-me às seis. Ora então, está devidamente assinalada a efeméride (no seu mais amplo sentido, é-o, que o é, que o é!) e até um destes dias se estivermos (eu e o blog) - com l'cença -p'rái virados. O seu a seu dono. Greetings!

14.5.13

Choverá em breve.

            O tempo aqueceu, mas não de mais. As crianças atinam, neste final de ano lectivo, quando se termina de hoje a um mês exacto e a chuva, a bem do meu espírito, ameaça, graças a Deus, os decotes de tanta vendedora ambulante de corpos sem-tom-nem-som, tanta axila malcheirosa, tanto calçado a bater, ríspido, no solo... Que tédio, a estupidez feminina, em vendas de bazar, a vulgaridade tropical de tanta pele à vista. Que será feito da sobriedade? Da discrição? Do recato...?
            As pessoas estúpidas (esta palavra diz tudo) não sabem que o são, dizem-me aqui ao lado. Por tentativa e erro, aprendo a não ser tão expansiva como esta mulher mais velha que  me fala, conformada, pois sei que excepto em casos raros - nos quais todas as palavras são desnecessárias pois o comprimento de onda é similar, bem como os estados de alma - o nosso interlocutor pensará que é a ele que nos referimos. Sendo esse interlocutor versado nos vários níveis da idiotia, ficará a pensar, forçosamente, que nível terá de atingir para ser tão estúpido como o que acaba de o ofender, por se atrever a dizer a verdade... Conversas estéreis, portanto, de gente que não sabe ler olhos nem atitudes e se limita ao óbvio.
            Prefiro, de longe, aquilo que me chegará com a chuva que aí vem: corpos menos expansivos e ostensivos, com menos odores, gente menos relaxada, mais metida com afazeres do que com as alheias medidas corporais ou de intelecto.
            A chuva, sábia, igualitária sem panfletos nem luzes de bazar a comprovar da sua utilidade a vários níveis, obriga a baixar olhares, em pestanas onde as gotículas impedem uma postura arrogante, gente entrevista apenas por entre guarda-chuvas, a sobriedade das roupas que envolvem, resguardam de olharapos, aperfeiçoam objectivos, porque há lugares onde ir, a esplanada enoja, os outros, todos os outros têm pressa, sempre muita pressa de fugir a uma das mais belas manifestações da natureza...            
            Fico-me com a chuva, desejada, imperiosa na sua subtileza, poética na forma. De uma só vez, todos somos sábios como idosos, pensativos como filósofos, mas fugazes, breves como crianças em transgressão: mais genuínos, em suma. Acredito piamente que a chuva é sempre o nosso melhor lado.

8.1.13

«Uma Agulha num Palheiro»


... 
Então, dei por mim a pensar que os americanos (os dos E.U.A., pelo menos, aqueles de cuja way of life levamos, ao longo de uma vida, monumentais, cavalares injecções na panóplia de filmes que acabam sempre dentro das 4-5 fórmulas do costume) nunca prescindiram do bem a vencer em quaisquer circunstâncias nem de bandeiras hasteadas e apregoando alto que aquela é "a terra" onde TUDO o que seja devorável, por infantil, funcionará sempre.

Uma das maiores desilusões dos últimos tempos: Uma Agulha num Palheiro, de J.D. Salinger. No original, Catcher in the Rye - título supostamente inspirado num poema de Robert Burns, mencionado na conversa entre Holden e Phoebe - consegue receber (em mais uma ridícula tradução à letra dos sempre estranhos brasileiros) o estranho título de «O Apanhador do Campo de Centeio»...

Trata-se de mais uma daquelas histórias plenas das deambulações de um ser humano perdido entre as suas mal refreadas emoções e a realidade pesada e repetitiva. Mais uma luta contra o tédio. Assim será a chamada "obra-prima" de Kerouac, assim são todas as obras de Paul Auster, assim é o insuportavelmente redundante Pelo Mundo Fora, de Julia Glass: previsíveis, inacreditáveis acervos de todos os lugares-comuns da ment(alidad)e americana. Aconteça o que acontecer, haverá sempre uma justificação para tudo, uma desculpa para tudo, como se não passassem de crianças sem preparação para as desilusões e tivessem de ser compensados por todos os males que a História lhes reserve. Doentiamente psicanalíticos, preocupados com explicações para todos os seus comportamentos, Woodyallenescos em tudo, excessivos no que não importa, histriónicos até ao doloroso. Por aí passa, de certeza, a relação deste povo com a comida, com a crença psicótica no poder das armas, com a necessidade de expor toda a "roupa suja" familiar, voire íntima, em bares, seja a conversas de amigos ou de novos conhecimentos. Não se aguenta (de) tanto egocentrismo. Pude verificar de perto: como aluna Erasmus, enojava-me a obsessiva necessidade (o show-off) de centralizar TODAS as atenções dos meus colegas dos Estados Unidos... Tóxicos. Bebés à procura da chupeta, berrando em todas as direcções, tão bem intencionados que qualquer filme europeu os deixaria, soçobrantes, colados a crises existenciais para as quais nem saberiam, sequer, formular as perguntas. Há pouca realidade em toda aquela gente, como se todos nos gritassem, sistematicamente: «Alguém pode esbofetear-me para que me controle, por favor?»...

Ou o meu cinismo europeu não me permite ver a suposta grandeza destes autores e de todo um star system baseado em falsas questões e premissas, ou a literatura desta gente é uma monumental (com (vossa) licença) merda!... Gira tudo à volta dos mesmos melosos temas, tal como praticamente toda a música sussurrada ou sambada do Brasil soa a melosa batalha hormonal, a pernas que não permanecem juntas por muitas horas, tudo esbarra no enojante tema do "ámôrr", tudo é tão forçado e redundante que nos perguntamos se alguns dos habitantes do território resistem sem pastilhas para o enjoo, tal é o bombardeio sobre os sentidos. Verdadeiros insultos à crueza do intelecto e maneiras de sentir de milhões de europeus que, mergulhados na lucidez, só podem afastar de tudo isto o seu gosto pessoal com náusea.

Claro que eu também posso ser tão inculta que só entendo a crueza e gosto duvidoso da pintura de Picasso depois de ter me terem sido ensinados os motivos para o seu ódio ao que mais amava, as mulheres, ou depois de me terem sido explicadas as fases "Rosa" e "Azul"... Será defeito meu, mas sempre que ouvir uma suposta "estrela" de Hollywood dizer que o livro que mais o/a marcou foi o supracitado de Salinger, acrescentando que foi ele que os levou a ler Somerset Maugham ou The Great Gatsby, torcerei nada mais, nada menos que o meu sensível nariz europeu e, tal como o protagonista da obra, trarei à tona o sarcasmo e  o ódio a quase tudo o que me rodeie de imbecil, dizendo como o polícia ou o empregado de hotel no filme "O Turista": americanos...


14.11.12

Eles "andem" aí, mas nem se nota...

Quando se precisa que o homem nos anime, nos faça reclinar e mostrar toda a bela dentuça, reciclar o corpo com a gargalhada franca e cristalina de uma graça encontrada numa das frases da masculina espécie, nada... Afinal, eu é que preciso de sair deste zeitgeist em que a conjuntura me afundou, eu é que preciso de rir, de lhe agradecer por me ter feito "desopilar o fígado", por me ter iluminado o rosto, por ter trazido à luz do dia a gargalhada que por um ou outro motivo, afogo na garganta! 

É deste homem e é dos outros com os quais vou cruzando - nos vários lugares e papéis sociais que a vida nos vai, a todos, pondo no caminho - que quero a obrigatoriedade de me provocar o riso. Afinal, não é esse um dos pilares da conquista da inexpugnável fortaleza feminina, o humor? 

Arrepelam-se-me os cabelos quando sou genuína, digo o que penso e quero, tenho fúrias contra os maçónicos do costume, reparo em situações altamente ridicularizáveis do mundo que me cerca, rasgo o dia com veia satírica  e um qualquer homem presente - às vezes, até "o meu", rai's o partam! - diz, entre gargalhadas:
- Ah ah ah, és tão engraçada!

E vêm depois os psi-qualquer-coisa (...tacídeos?) dizer 
- Ah, e tal, o "humor masculino"... bzz.. bzz... bzz... bzz... bzzz... ...zzzzzzzzzzzzzzzz


25.10.12

Nos gloriosos anos 80-90,
a música era outra e, se feita de batida algo pirosa, inebriava.
(Co)Move-me sempre
Pat Benatar, Love is a Battlefield.
Fico a ouvi-la e sabe-me sempre bem:
We are young, no one can tell us we're wrong!

31.8.12



Desde meados do mês precedente, há dois tempos: 
o a.i. e um outro, d.i.
i de iPad.
Nunca uma maçã já trincada soube tão bem!
:D

6.7.12


Associo estes sabujos filhos duma grande mãe pária que querem escrever num Português abortado a que falsamente chamam "Acordo" a "portáteis" cobertos de imundície. 

Nestas reuniões finais reparo como, sob os reflexos solares, os computadores - que tantos colegas carregam como se ali levassem um diamantino estatuto social - estão cobertos de... esterco: dedadas de muitos meses, pingos de saliva perdigotados quando muitos deles gostam de se ouvir em português dúbio, submerso em calão e "tiques", crostas várias, uma poeira imensa... Sempre associei a falta de higiene a esparsos equilíbrio, abertura mental e, principalmente (...not least, claro!) a pouca clareza espiritual. Porque associei sempre as piores pessoas à sujidade? Porque assim me tem sido dado comprovar: quem é porco, é porco em tudo! 

Zumbe-me aqui, entre os (cumpre-me acreditar!) vários neurónios, uma certeza desde sempre: os abertos à novidade do costume são todos estes: com a adaptabilidade dos primatas que procuram apenas sobreviver, fica-lhes o discernimento tão raso que facilmente se entortam, enlameados, na senda dos muitos do mesmo lado, identificam-se demasiado cedo com o todo, o comum, a correria desenfreada para todos os lugares sem nunca se entregarem à chegada onde quer que seja... Avessos ao simples acto de pensar e sopesar o seu papel social, esquecem que os alunos aprendem com eles: a abrir uma porta sem que qualquer pé seja para aí chamado, a devolver uma cadeira ao lugar quando a usámos, se possível sem fingir que somos um dorido semi-deus carregando o mundo, a limpar as superfícies onde os milhões de bactérias acumuladas são uma prova civilizacional de falta de tudo. 

Antigamente, falava-se de "brio", dantes, quando tudo era importante e ninguém tinha de fingir pressa para fingir competência ou domínio... Agora, há demasiado de tudo: ruído, sujidade, objectos a mais, movimentos rítmicos de pernas que personificam como "inquietas", moedas que matraqueiam balcões, canetas que espetam mesas, despudor no verbo e no traje, dedos em riste a pessoas que apenas cruzaram a mesma estrada e não gostam de símios ao volante, vacuidade, insegurança, medições de força várias (neste domínio, as fêmeas dão cartas), medos... justamente quando se trabalhou tanto para que nada disso nos importunasse... Não é irónico?

A todos esses males, associados a governos de "elites" atamancadas e ignóbeis em quase tudo associo eu esta vaga desdesodorizada e populista, lulasilvista e dilmaroussefiana, socretina, passoscoelhana, cavaquista, soarista, santanalopiana et allii do "acordo ortográfico", que é uma mentira em duas palavras, de uma só vez. Porcaria, insanidade, pressa de conseguir chegar algures, mas sempre com meta cifroniana, uma espécie de etnia espacial que roça o bolbo raquidiano do homo neandertalensis... Mas... para onde caminha esta "civilização"?...

Tanta tecnologia e tanto retrocesso; tanto estatuto e tanto lixo; tanto futuro e tanta bestialidade... 

O português abortivo que por aí circula roça a insalubridade do esgoto a céu aberto, a indigência mental, a mendicidade civilizacional, o fim de tudo o que conheci e me foi dado amar de equilíbrio e rigor. Mas haverá alguém no seu perfeito juízo que ponha p'rái umas subversivas bombas de indignação rastilheira de "não-cumpros", que enfie uma simbólicas baionetas em meia dúzia de panças abonadas à estatal teta, que perceba que isto é o fim de um estado-nação, se é que este solo ainda lhe merece o nome? MAS QUE RAIO DE PÁ(T)RIA É ESTA?

Tanto portátil, tanto cromado, tanto pó compacto perfumado... e tanta imundície endógena e exoesquelética!... Terei de ver tanta gente lúcida continuar a escrever que, 500 anos depois, Portug(ra)al se submete ao "crioulo" do Brasil?... Haja higiene!

15.5.12

As aulas acabaram. A escola prepara-se para novo dia, é limpa, fechada, silenciada. Só, neste espaço que escolhi, concluo - definitivamente e, por definição, sem retrocessos - que por vezes, há mesmo uma esmagadora quantidade de sorte imbuída nas escolhas que fazemos. Aqui, sou feliz. Sorrio, em honra disso. E também esta ausência tardia dos risos das minhas crianças é boa. É a isto que se chama paz?...

3.5.12

Saga Millennium (ainda a)

Entre o dia 24 de Abril pelas 22 e hoje pelas 14 li, compulsivamente - e sempre que a narcolepsia e o trabalho voraz mo permitiram - a Saga Millennium, de Stieg Larsson: Os Homens que Odeiam as Mulheres, A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo; A Rainha no Palácio das Correntes de Ar = 551 + 623 + 732 páginas. 

Tudo analisado - sem os insuportáveis rodriguinhos da chamada "literatura portuguesa", aos quais escapam os excelentes Richard Zimmler e João Tordo - e desde que me veio parar às mãos o filme (versão Hollywood) "The Girl with the Dragon Tattoo" (Os Homens que Odeiam as Mulheres) com a brilhante neo-punk Rooney Mara (Ooh, gab'ardeen'!...) - a obra resume-se na página 668 (quase, quase, o "número da Besta"!) do 3º volume:  
«Vistas bem as coisas [boa tradução, mas eu teria trocado o "bem" pelo "vistas", passe o horrendo lugar-comum, algo que odeio!], o tema desta história não são espiões nem segredos de Estado, mas a violência exercida contra as mulheres, e os homens que a tornam possível».

Priceless!
Agora, há que ver o filme-versão sueca, antes que Hollywood (me) deturpe os factos do livro, com a parte II da Saga. Descansa em paz, Stieg Larsson. Também eu te amo à distância. Tal como os parisienses fizeram com o nome do esmagador Tolkien, talvez eu escreva nas paredes do Metro: Larsson Lives!

26.4.12

Non compos mentis*

Distraída com Lisbeth Salander* & a Saga Millennium, filme ou romance, esquadrinho tudo por informações. Além de Bellucci, descobri outra mulher, Rooney Mara, da qual gosto de pensar que Salander é um alter-ego. Dormíveis, todas elas.Orgulho-me de pertencer à espécie e noto os homens tão pouco inteligentes - apesar de atraentes por excelência, muitos  - que é confrangedor circular entre eles. Defendo-me - como em menina - com olhares baixos ou de fuzilamento, para abrir caminho. Reconheço-lhes o medo no olhar: o intelecto e a agudeza clarividente assustam-nos. Que poder tem uma mulher que o saiba! 
Não dei por cravos de Abril, uma melhor economia et pour cause com menor número de notícias a propósito, nem pelas horas que passaram, passando-as eu a dormir. 
Há escolas melhores e piores, miúdos que adolescem ultrapassando dramas de época através de conselhos que me pedem por e-mail e rendem, em aulas, mais do que a minha imaginação pediria nos meus melhores sonhos. 
As minhas crianças crescem,  assim como as duas suculentas e o cacto envasados no parapeito da janela da cozinha.
Continuo a rir-me para pássaros e crianças com olhos fundos que me perscrutem. Os desafiadores com sapientia põem-me no rosto o riso dos que reconhecem os iguais!
O homem que mais me agrada ainda me encanta com a sua voz, mesmo se por telefone, às vezes, lá de longe. Ah, soubesse ele como e voaria até mim, já quente e aceso! Não me faria rogada: se quero, digo; se quero, faço! Ele gosta. Somos dois. 

Deixei-me da praia, optando por bibliotecas, mas é tão difícil: a falta de educação banalizada por certas ideias políticas, a liberdade de tudo e mais alguma coisa, a gente poucochinha que fala alto e mal e nunca soube estar são um borrão na paisagem, como nódoas em tecido de qualidade. Há gente a mais em todo o lado e com vociferante palavroada, da que dói. Chi pensa male, parla male,  dizia o querido Nanni Moretti! Alguém há-de pagar por tanto asco cobrindo o planeta. Morte aos grotescos! Goya pintou-os bem, mas eles não se reconheceriam, de tão macacais...
Segundo a bisavó R., até dos cabelos perdidos teremos de prestar contas, um dia. Não a um Deus, mas a algo maior que Ele, algo não inventado pelas nossas vãs filosofias. Os humanos são fossas com pernas e pensam que pensam que pensam. O mundo é, cada vez mais, um misto de fluídos mal aproveitados, actividades neuronais abaixo da média, sinapses tão sinuosas que não fazem tilt, amálgama de odores, miscelânia de vozes sempre excessivamente altas. Será da minha narcolepsia ou da "ruivice" escondida?... A sensibilidade é demasiado cara e estou farta de reconhecer direitos a seres tão viscosos que nem merecem o chão que pisam. Fartinha de ajuntamentos, populismos, bárbaros e solucionadores profissionais dos males dos outros, com remédios para calos que curam também dores de alma...
Embrulho, por momentos, a sensibilidade e repito: o mundo anda a precisar de uma guerra! Alguns, aqui em casa, já me imaginam radical, de cinto de granadas a substituir o "de ligas" que parece ser apanágio do objecto-mulher! Eu, não! 
Busco um Oriente do Oriente no sono. Enquisto-me, calo-me cada vez mais, digo só por papel o que quero dizer. Demasiada tonelagem, isto a que chamam vida: sobrevive-se. 
Demasiada, tóxica, a estupidez humana cresce como as raízes vermelhas dos invasores de Marte, n' A Guerra dos Mundos.
Leio só os bons: Richard Zimler e João Tordo. A fixação de Zimler em pássaros, difusa, esvoaçante mas que surpreendo sempre, como reflexos fugidios de voo nas páginas valiosíssimas que escreve; Tordo e o seu "O Livro dos Homens sem Luz" - e eu a pedir que ponham em filme do fantástico, por amor de Deus, o homem-monstro-biónico que se desconjunta, sem alma -, a inteligência de uma história bem construída, negando o império dos floreados de vácuo a que este pretenso país costuma chamar "literatura"...
Mas ai dos livros! Moribundos uns, já mortos outros! Só os compro anteriores a 2009, não vá o "aborto" ortográfico tirar-me a paz de espírito que é ler na língua nativa...

Destas e de tantas coisas se me enchem os dias e, supostamente viva, sou assaltada como milhares, pago impostos, oiço o gado que, dizem, nos "governa" mugir nos assentos do Parlatório,  aquecidos cuzes, vidas algodoadas, macias, eles, que tinham de nem ter o direito de esboçar sorrisos, "Muit' bãnh, sô dep'tado, muit' bãnh"... Um dia destes, um qualquer breivik vai-lhes ao paraíso e mata-lhes as crianças, zás! Oh, ignomínia! Há-de haver cada vez mais suicídios-dos-que-levam-muitos! Admirem-se, pois, com a "degradação mental" das gentes! 


Como sempre, também eu espero a morte para breve. Sem ela, nada faria sentido e, de facto, é penoso andar por entre gente que reputo ao nível de Jean-Baptiste Grenouille, o anti-herói de Süskind. Poderia o mundo ser mais torpe?...
Valha-nos a Arte, sem o perdigoto auto-comiserativo-&-ai-que-eu-quero-uma-mãe-p'rós meus filhos dos valterhugomães planetários. É ou não é o mundo um hino à estupidez?... Quem lhes dá o direito de nos enojarem? Abaixo a cultura latrinária instituída! Abaixo a "síndrome de Furtado"! Abaixo o "EUsismo"!


Deus, quem quer que sejas, livra-me dela, da Grande-Mãe acefálica (sem falo), mas tão-pouco apenas acéfala que nos nivela por igual e nos atira com os seus ruídos refocilantes envoltos em palavras como direitos, liberdades, o-qu'é-bom-é-p'ra-se-ver... Marca aí na agenda, para breve, a minha saída deste manicómio: vaidade, tudo é vaidade. 
Tenho frio do lamaçal: põe-me sobre os ombros a toalha, a grande pacificadora, e deixa-me ver depressa os tais pontinhos de luz à frente que os cientistas dizem ser o cérebro a desligar, coisa que, supostamente, não se faz num clic, mas sim em muito tempo. Tudo aqui é tão "gadoso", visceral e dá cá uma sede!... 
O relógio azul e gigante, ali ao lado, diz-me que já é outro dia e não consigo decidir-me: levo o guarda-chuva verde-imbecil ou o vermelho-revolução? Fingirei, enquanto não adormeço, que me preocupo com essa monumental merda a que chamam moda, para dar repouso aos neurónios que, espero, ainda são muitos milhões! 
Pensar dói por todo o lado como a vesícula dói no nosso centro por irradiar miasmas, como o prazer dói no nosso centro por ser grande a ânsia de mais, como os olhos vêem tudo azul depois de os termos fechado sob o sol horizontal, como o sono se abate sobre o verde nostalgia destes olhos que querem fechar-se... porque dói, porque é bom, porque fascina, porque desgasta e entristece. Em suma, Grande-arquitecto: porque não me fizeste estúpida e contentinha?...

24.11.11

Elas


Em profusão, chegam de manhã cedo, esfiapam-se por entre as tantas horas, marulhando segredos, enquanto as repito até que, exangues, me deixam a mente vaga, menos nodosa dos movimentos que, amontoadas, fizeram em revolteios. Depois, sucumbem, satisfeitas, lânguidas, caindo de mim abaixo como cabelos meus já mortos e soltos na brisa, ainda mornos, penas de pássaro que marcam os meus caminhos de seiva e genética. São elas o fim e o mesmo princípio de tudo, porque tudo se arredonda, circular, em ouroboro, o si na busca de si mesmo. Diáfanas, sorriem, descendo de mim, zombeteiras, por me terem sugado energias, de tanto pensar nelas: mesa mesa mesa mesa mesa mesa, subida subida subida, alto alto. Nenhuma, garanto-lhes, é mais importante. Todas me enchem do som do chocolate preto bombeado do palato aos dentes, da língua aos lábios que dizem ao cérebro que é mesmo aquilo, 60 a 80% cacau. Cacau. Cacau. Cacau. Amargor. Exotismo. Longe, muito longe daqui. Bom dia, palavras.


2.9.11

Verba


Demasiada gente (que) escreve com erros. Agora e para sempre. Restam-nos as palavras que se ejectaram - a tempo e por inerência - da cloaca em que foi transformada esta Língua.
Ao contrário da terra dantes transportada em pequenos sacos para polvilhar o morto longe do seu solo de berço, da bandeira ou do hino, as palavras têm imagem visual, um rosto e trazem-se dentro, embutidas na máquina propulsora a que se chama cérebro. Também ele se liquefará, a seu tempo, num tempo em que quaisquer famous last words ainda possam ser pronunciadas, ditas com voz. Afinal, os druídas sabiam o que aí vinha e, por definição, o que faziam: era proibido escrever.
Em nome do que sobra sempre, do que é válido, banirei - e apenas em documentos oficiais, os do Inimigo -, por relapsas, as palavras óPtimo, aCtividade ou pÁra! Serão substituídas por sinónimas e guardadas em santuário, como pássaros de asa ferida. Guardo-as aqui e nos meus textos-de-gaveta, que são uma e a mesma coisa.
Resta-me este consolo: os podres que as quiseram assassinar hão-de adubar a terra, juntamente com o esterco dos milénios. Para o sempre sobram essas palavras feridas, convalescentes, transportadas na boca, no ventre, entre as mãos dos que as sabem. Desamputadas, aguardam: tal como a árvore que ali vejo, recortada contra o azul-petróleo doloroso do céu que se outoniza, sobreviverão, nos bailados das palavras compostos por muitos, todos os que o tempo não apaga, mas antes cinzela. Ainda bem que todos os humanos apodrecem. Só a natureza tem um corpo dúctil, tal como as plantas têm sementes. Quem não viu isto, nem sabe quem é.

30.6.11

Isto de dar aulas a CEF's

(suponho que o "E" seja de energúmenos)

iguala-me a estes pinheiros em cinzas
que me entram pelas narinas,
aqui, onde tudo arde, tudo arde,
tudo seca, tudo é dislate,
desconchavo,
poucochinho,
cinza já, de tudo o que poderíamos ter sido.
E isso tudo me agasta,
nos agacha,
Toda a gente "acha",
Ninguém sabe nada,
E as cinzas são eu.

8.6.11

Isto sim, é uma notícia



http://www.publico.pt/Cultura/estudo-diz-que-giotto-foi-o-criador-do-sudario-de-turim_1498035


Não. Claro que não vim recordar, mas
este blog fez anos: oito, a vinte e dois do cinco.
Evidentemente, gosto mais do tema notícia supra.

22.4.11

E eu disse a muitos: Marchemos para lá, para sul, onde se acoita a podridão!


António Barreto, RTP 1, 21 de Abril

admitia que a responsabilidade no estado do país era repartida entre os dois maiores partidos, mas dava ênfase ao facto de a culpa maior ser do partido do ex-governo
[imagine-se a partícula"des" depois da partícula ex].

O sociólogo disse sobre o ex-governo as seguintes palavras:
«ABRASIVOS, COLÉRICOS, FURIOSOS, VIOLENTOS, CRUÉIS».

A mim, que memorizei os 5 epítetos e os escrevi como sobre pedra por com eles concordar, apeteceu-me trocar as sílabas, dislexicando-me, quando (entre outras Fúrias boas ou más) me revejo no que alguém diz (Sim, Doutor António Barreto, é exacto o que diz, Obrigada por não temer as palavras certas, e-xac-ta-men-te como eu creio que deveria funcionar esta penedia a que ainda chamam país).

Assim, digo também eu sobre o abominável ogre e seus sicários que nos desregularam ad aeternum até ao ponto de perdermos a matriz ortográfica do idioma-pátrio, dislexicando-os assim:

ABRALENTOS
FURISIVOS
COLÉOSOS
CRURICOS
VIOÉIS
!

E, sobretudo, não me venham falar (se nem tenho cor política)
da já podre serenidade
no 25 de Abril!

28.2.11

O hodierno


pão nos Dai hoje.

Seja feita a Vossa vontade:

assim na Terra, Livrai-nos do mal.


Zwomen (por Amen)

15.2.11

Marés


Cinza. Hoje, o mar está cinza. Teimoso, insistente, protuberante, desenovela-se em galáxias, pois que é nele que se espelham todas. Quantas cabem nos oceanos que temos? Todas, se quisermos?... Até onde nos corre a imaginação em delírios, pois se até ela acaba e, no fim da palavra, correm "rios"...? Até onde podemos congeminar, nós, os pequenos humanos? Terminará ela, a nossa capacidade de sonho, liquefeita, no marulhar gasto e espesso de séculos de turbulência? Como me diz a mãe, sempre que vê o mar:

- Ei-lo, o bicho... O bicharoco que me persegue em pesadelos... É tenebroso, o mar.

- Medonho... - respondo eu em palavra que amo - Medonho! Adoravelmente medonho!

(...)

Os diálogos perdem-se, as palavras impedindo que se abarque tal assombro com elas, porque nunca chegam: o mar engole-nos por dentro.

Depois, por dias de sol, passa-se ali, mesmo ao lado, como ao lado é o Cabo Tormentório - que todos trazemos dentro - e desagua-se em Vila do Conde: ali está a nau. O medo que lhe tenho, o respeito que me inspira a negra quilha, o sagrado lenho, o pavor que me transtorna sempre, como se tivesse ainda os oito, nove anos:

« - Avozinha, não quero aproximar-me dos barcos com musgo, mortos ali na praia. Tenho terror dos barcos da praia, porque lhes vejo a alma...»

O barco negro (assim lhes chamavam os nipónicos, diz-se) provoca-me sempre uma convulsão de medo e ele enrola-se nas vísceras e dói-me por dentro, como se nele, barco, tivesse eu morrido, em vidas passadas. A Vila olha-me, branda, compreensiva, mas o barco rasga-me gritos endogenizados, guinchos de bicho em pânico, acossado, psychotizam-se laivos de sangue, em dor liofilizada, microfilmada, percutente, riso lupino da morte - minha amiga, mas que me espreita com máscaras contorcidas quando quase a aceito, mas a quero dócil e as carantonhas que ergue me acometem nas esquinas da casa escura e sozinha, voláteis, elas, assincopada, a minha golfada de oxigénio entrando a eito -, como se tudo o que eu sou estivesse inadiavelmente inscrito no cerne daquela nave marinha...

O barco negro rasga-me sempre o dia, porque nunca me lembro que ali repousa, como reaparecido após séculos de viagem. E o mar, que tudo sabe dele e o quis ainda vivo no dealbar de nova era, é conivente, cúmplice de funduras algosas onde não quer este filho negro que o galga - como o teu corpo, sobre o meu? -, ri um riso só dos dois e espraia-se no casco, entre afagando e percutindo, cerce, em marcas de amor dorido e lento.

- O mar sabe-a toda... O mar ri de tudo o que a nós traz rugas na testa, de tantas perguntas que levamos do mundo sem resposta, secos, hirtos como cartografias pergaminhadas, cansados de tanto nadar a contra-corrente. Por vezes - tantas! - para ter paz, tenho de recordar que isto me guia:

- Senhor, seja feita a tua vontade... As marés, elas mesmas mares-fêmea, nunca te acusaram o cansaço?... Não me deixes pensar tanto: o que levo é o que trouxe, uma ausência de medo, um deslumbramento que me morre entre os dedos, uma ânsia de, como Agostinho, fugir-te, para que me procures e me fales em tudo e em tudo estejas, como este mar que me cerca, ilhéu-fêmea, relapsa, vaga-mundo, dor-de-pensar ao que vim, eu, que quero ser não sendo, fugitiva de pés nus sobre o vidro que o pensamento é. Disso tudo o mar sorri. Tem milénios de tempo, o canalha… Como o amo, de tanto não o poder ter, sequer, nas veias!