28.5.13

           A vida corre, breve e a contento, apesar da espera acelerada pela hora da maior das verdades. Tudo o mais são futilidades, vazio e dias baços, nos quais as palavras são cobertas de ouro e esmaltes, como os de Gustav Klimt, que foi longe, ali mesmo no museu perto de casa, em busca do vale de Ur e das primordias de entre todas as civilizações. Ali, cada palavra era tão carinhada ao ponto de a escreverem na pedra, lapidar avant la lettre.
 
 

23.5.13

... and celebrations, já lá dizia o Cliff Richard(s)

Segundo parece, ontem - que ainda há pouco era hoje! -, dia 22, capicuento e de ar imberbe (o dia, claro! Que também foi claro, com luz a mais, aliás...), cumpriu este blog os seus dez anos, o que faz dele, se não outra coisa qualquer, pelo menos uma criatura imberbe como este dia 22 que há mais de uma hora morreu e já só cumpre calendário... O dia, claro, que o blog está-se nas tintas (sem meias das ditas, pois eu e ele - o blog! - somos de tintas completas, direitas como prumo, ácidas até aos gorgomilos e da cepa antiga) para as regras instituídas e salamaleques afins. Poderíamos - eu e o blog, claro está, limpinho como água (piada com laivos de Portismo, nestes últimos dias em que a nação se clubitizou) - estar por aqui mais uns minutos, mas afinal... para quê? Está assinalada a senectute desta casa azimutal, faroleira (e farelona!) e com gáspea de couro. Soprámos as velas, depois de mais um sopapo no pêlo de um dos gatos que farejam a doçaria maçapanesca e vely coloufull que são estes bolos de hoje em dia - o raio do gato, pensa que é tudo nosso? - e partimos a doçaria com pinta de fête foraine, a qual mordemos (com as ganas de dar é uma trinca ao imbecilóide do gato!) com o afinco de tudo o que é as usual e agora vamos mas é dormir que esta vida anda um nojo... e eu cá levanto-me às seis. Ora então, está devidamente assinalada a efeméride (no seu mais amplo sentido, é-o, que o é, que o é!) e até um destes dias se estivermos (eu e o blog) - com l'cença -p'rái virados. O seu a seu dono. Greetings!

14.5.13

Choverá em breve.

            O tempo aqueceu, mas não de mais. As crianças atinam, neste final de ano lectivo, quando se termina de hoje a um mês exacto e a chuva, a bem do meu espírito, ameaça, graças a Deus, os decotes de tanta vendedora ambulante de corpos sem-tom-nem-som, tanta axila malcheirosa, tanto calçado a bater, ríspido, no solo... Que tédio, a estupidez feminina, em vendas de bazar, a vulgaridade tropical de tanta pele à vista. Que será feito da sobriedade? Da discrição? Do recato...?
            As pessoas estúpidas (esta palavra diz tudo) não sabem que o são, dizem-me aqui ao lado. Por tentativa e erro, aprendo a não ser tão expansiva como esta mulher mais velha que  me fala, conformada, pois sei que excepto em casos raros - nos quais todas as palavras são desnecessárias pois o comprimento de onda é similar, bem como os estados de alma - o nosso interlocutor pensará que é a ele que nos referimos. Sendo esse interlocutor versado nos vários níveis da idiotia, ficará a pensar, forçosamente, que nível terá de atingir para ser tão estúpido como o que acaba de o ofender, por se atrever a dizer a verdade... Conversas estéreis, portanto, de gente que não sabe ler olhos nem atitudes e se limita ao óbvio.
            Prefiro, de longe, aquilo que me chegará com a chuva que aí vem: corpos menos expansivos e ostensivos, com menos odores, gente menos relaxada, mais metida com afazeres do que com as alheias medidas corporais ou de intelecto.
            A chuva, sábia, igualitária sem panfletos nem luzes de bazar a comprovar da sua utilidade a vários níveis, obriga a baixar olhares, em pestanas onde as gotículas impedem uma postura arrogante, gente entrevista apenas por entre guarda-chuvas, a sobriedade das roupas que envolvem, resguardam de olharapos, aperfeiçoam objectivos, porque há lugares onde ir, a esplanada enoja, os outros, todos os outros têm pressa, sempre muita pressa de fugir a uma das mais belas manifestações da natureza...            
            Fico-me com a chuva, desejada, imperiosa na sua subtileza, poética na forma. De uma só vez, todos somos sábios como idosos, pensativos como filósofos, mas fugazes, breves como crianças em transgressão: mais genuínos, em suma. Acredito piamente que a chuva é sempre o nosso melhor lado.

8.1.13

«Uma Agulha num Palheiro»


... 
Então, dei por mim a pensar que os americanos (os dos E.U.A., pelo menos, aqueles de cuja way of life levamos, ao longo de uma vida, monumentais, cavalares injecções na panóplia de filmes que acabam sempre dentro das 4-5 fórmulas do costume) nunca prescindiram do bem a vencer em quaisquer circunstâncias nem de bandeiras hasteadas e apregoando alto que aquela é "a terra" onde TUDO o que seja devorável, por infantil, funcionará sempre.

Uma das maiores desilusões dos últimos tempos: Uma Agulha num Palheiro, de J.D. Salinger. No original, Catcher in the Rye - título supostamente inspirado num poema de Robert Burns, mencionado na conversa entre Holden e Phoebe - consegue receber (em mais uma ridícula tradução à letra dos sempre estranhos brasileiros) o estranho título de «O Apanhador do Campo de Centeio»...

Trata-se de mais uma daquelas histórias plenas das deambulações de um ser humano perdido entre as suas mal refreadas emoções e a realidade pesada e repetitiva. Mais uma luta contra o tédio. Assim será a chamada "obra-prima" de Kerouac, assim são todas as obras de Paul Auster, assim é o insuportavelmente redundante Pelo Mundo Fora, de Julia Glass: previsíveis, inacreditáveis acervos de todos os lugares-comuns da ment(alidad)e americana. Aconteça o que acontecer, haverá sempre uma justificação para tudo, uma desculpa para tudo, como se não passassem de crianças sem preparação para as desilusões e tivessem de ser compensados por todos os males que a História lhes reserve. Doentiamente psicanalíticos, preocupados com explicações para todos os seus comportamentos, Woodyallenescos em tudo, excessivos no que não importa, histriónicos até ao doloroso. Por aí passa, de certeza, a relação deste povo com a comida, com a crença psicótica no poder das armas, com a necessidade de expor toda a "roupa suja" familiar, voire íntima, em bares, seja a conversas de amigos ou de novos conhecimentos. Não se aguenta (de) tanto egocentrismo. Pude verificar de perto: como aluna Erasmus, enojava-me a obsessiva necessidade (o show-off) de centralizar TODAS as atenções dos meus colegas dos Estados Unidos... Tóxicos. Bebés à procura da chupeta, berrando em todas as direcções, tão bem intencionados que qualquer filme europeu os deixaria, soçobrantes, colados a crises existenciais para as quais nem saberiam, sequer, formular as perguntas. Há pouca realidade em toda aquela gente, como se todos nos gritassem, sistematicamente: «Alguém pode esbofetear-me para que me controle, por favor?»...

Ou o meu cinismo europeu não me permite ver a suposta grandeza destes autores e de todo um star system baseado em falsas questões e premissas, ou a literatura desta gente é uma monumental (com (vossa) licença) merda!... Gira tudo à volta dos mesmos melosos temas, tal como praticamente toda a música sussurrada ou sambada do Brasil soa a melosa batalha hormonal, a pernas que não permanecem juntas por muitas horas, tudo esbarra no enojante tema do "ámôrr", tudo é tão forçado e redundante que nos perguntamos se alguns dos habitantes do território resistem sem pastilhas para o enjoo, tal é o bombardeio sobre os sentidos. Verdadeiros insultos à crueza do intelecto e maneiras de sentir de milhões de europeus que, mergulhados na lucidez, só podem afastar de tudo isto o seu gosto pessoal com náusea.

Claro que eu também posso ser tão inculta que só entendo a crueza e gosto duvidoso da pintura de Picasso depois de ter me terem sido ensinados os motivos para o seu ódio ao que mais amava, as mulheres, ou depois de me terem sido explicadas as fases "Rosa" e "Azul"... Será defeito meu, mas sempre que ouvir uma suposta "estrela" de Hollywood dizer que o livro que mais o/a marcou foi o supracitado de Salinger, acrescentando que foi ele que os levou a ler Somerset Maugham ou The Great Gatsby, torcerei nada mais, nada menos que o meu sensível nariz europeu e, tal como o protagonista da obra, trarei à tona o sarcasmo e  o ódio a quase tudo o que me rodeie de imbecil, dizendo como o polícia ou o empregado de hotel no filme "O Turista": americanos...


14.11.12

Eles "andem" aí, mas nem se nota...

Quando se precisa que o homem nos anime, nos faça reclinar e mostrar toda a bela dentuça, reciclar o corpo com a gargalhada franca e cristalina de uma graça encontrada numa das frases da masculina espécie, nada... Afinal, eu é que preciso de sair deste zeitgeist em que a conjuntura me afundou, eu é que preciso de rir, de lhe agradecer por me ter feito "desopilar o fígado", por me ter iluminado o rosto, por ter trazido à luz do dia a gargalhada que por um ou outro motivo, afogo na garganta! 

É deste homem e é dos outros com os quais vou cruzando - nos vários lugares e papéis sociais que a vida nos vai, a todos, pondo no caminho - que quero a obrigatoriedade de me provocar o riso. Afinal, não é esse um dos pilares da conquista da inexpugnável fortaleza feminina, o humor? 

Arrepelam-se-me os cabelos quando sou genuína, digo o que penso e quero, tenho fúrias contra os maçónicos do costume, reparo em situações altamente ridicularizáveis do mundo que me cerca, rasgo o dia com veia satírica  e um qualquer homem presente - às vezes, até "o meu", rai's o partam! - diz, entre gargalhadas:
- Ah ah ah, és tão engraçada!

E vêm depois os psi-qualquer-coisa (...tacídeos?) dizer 
- Ah, e tal, o "humor masculino"... bzz.. bzz... bzz... bzz... bzzz... ...zzzzzzzzzzzzzzzz


25.10.12

Nos gloriosos anos 80-90,
a música era outra e, se feita de batida algo pirosa, inebriava.
(Co)Move-me sempre
Pat Benatar, Love is a Battlefield.
Fico a ouvi-la e sabe-me sempre bem:
We are young, no one can tell us we're wrong!

31.8.12



Desde meados do mês precedente, há dois tempos: 
o a.i. e um outro, d.i.
i de iPad.
Nunca uma maçã já trincada soube tão bem!
:D

6.7.12


Associo estes sabujos filhos duma grande mãe pária que querem escrever num Português abortado a que falsamente chamam "Acordo" a "portáteis" cobertos de imundície. 

Nestas reuniões finais reparo como, sob os reflexos solares, os computadores - que tantos colegas carregam como se ali levassem um diamantino estatuto social - estão cobertos de... esterco: dedadas de muitos meses, pingos de saliva perdigotados quando muitos deles gostam de se ouvir em português dúbio, submerso em calão e "tiques", crostas várias, uma poeira imensa... Sempre associei a falta de higiene a esparsos equilíbrio, abertura mental e, principalmente (...not least, claro!) a pouca clareza espiritual. Porque associei sempre as piores pessoas à sujidade? Porque assim me tem sido dado comprovar: quem é porco, é porco em tudo! 

Zumbe-me aqui, entre os (cumpre-me acreditar!) vários neurónios, uma certeza desde sempre: os abertos à novidade do costume são todos estes: com a adaptabilidade dos primatas que procuram apenas sobreviver, fica-lhes o discernimento tão raso que facilmente se entortam, enlameados, na senda dos muitos do mesmo lado, identificam-se demasiado cedo com o todo, o comum, a correria desenfreada para todos os lugares sem nunca se entregarem à chegada onde quer que seja... Avessos ao simples acto de pensar e sopesar o seu papel social, esquecem que os alunos aprendem com eles: a abrir uma porta sem que qualquer pé seja para aí chamado, a devolver uma cadeira ao lugar quando a usámos, se possível sem fingir que somos um dorido semi-deus carregando o mundo, a limpar as superfícies onde os milhões de bactérias acumuladas são uma prova civilizacional de falta de tudo. 

Antigamente, falava-se de "brio", dantes, quando tudo era importante e ninguém tinha de fingir pressa para fingir competência ou domínio... Agora, há demasiado de tudo: ruído, sujidade, objectos a mais, movimentos rítmicos de pernas que personificam como "inquietas", moedas que matraqueiam balcões, canetas que espetam mesas, despudor no verbo e no traje, dedos em riste a pessoas que apenas cruzaram a mesma estrada e não gostam de símios ao volante, vacuidade, insegurança, medições de força várias (neste domínio, as fêmeas dão cartas), medos... justamente quando se trabalhou tanto para que nada disso nos importunasse... Não é irónico?

A todos esses males, associados a governos de "elites" atamancadas e ignóbeis em quase tudo associo eu esta vaga desdesodorizada e populista, lulasilvista e dilmaroussefiana, socretina, passoscoelhana, cavaquista, soarista, santanalopiana et allii do "acordo ortográfico", que é uma mentira em duas palavras, de uma só vez. Porcaria, insanidade, pressa de conseguir chegar algures, mas sempre com meta cifroniana, uma espécie de etnia espacial que roça o bolbo raquidiano do homo neandertalensis... Mas... para onde caminha esta "civilização"?...

Tanta tecnologia e tanto retrocesso; tanto estatuto e tanto lixo; tanto futuro e tanta bestialidade... 

O português abortivo que por aí circula roça a insalubridade do esgoto a céu aberto, a indigência mental, a mendicidade civilizacional, o fim de tudo o que conheci e me foi dado amar de equilíbrio e rigor. Mas haverá alguém no seu perfeito juízo que ponha p'rái umas subversivas bombas de indignação rastilheira de "não-cumpros", que enfie uma simbólicas baionetas em meia dúzia de panças abonadas à estatal teta, que perceba que isto é o fim de um estado-nação, se é que este solo ainda lhe merece o nome? MAS QUE RAIO DE PÁ(T)RIA É ESTA?

Tanto portátil, tanto cromado, tanto pó compacto perfumado... e tanta imundície endógena e exoesquelética!... Terei de ver tanta gente lúcida continuar a escrever que, 500 anos depois, Portug(ra)al se submete ao "crioulo" do Brasil?... Haja higiene!

15.5.12

As aulas acabaram. A escola prepara-se para novo dia, é limpa, fechada, silenciada. Só, neste espaço que escolhi, concluo - definitivamente e, por definição, sem retrocessos - que por vezes, há mesmo uma esmagadora quantidade de sorte imbuída nas escolhas que fazemos. Aqui, sou feliz. Sorrio, em honra disso. E também esta ausência tardia dos risos das minhas crianças é boa. É a isto que se chama paz?...

3.5.12

Saga Millennium (ainda a)

Entre o dia 24 de Abril pelas 22 e hoje pelas 14 li, compulsivamente - e sempre que a narcolepsia e o trabalho voraz mo permitiram - a Saga Millennium, de Stieg Larsson: Os Homens que Odeiam as Mulheres, A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo; A Rainha no Palácio das Correntes de Ar = 551 + 623 + 732 páginas. 

Tudo analisado - sem os insuportáveis rodriguinhos da chamada "literatura portuguesa", aos quais escapam os excelentes Richard Zimmler e João Tordo - e desde que me veio parar às mãos o filme (versão Hollywood) "The Girl with the Dragon Tattoo" (Os Homens que Odeiam as Mulheres) com a brilhante neo-punk Rooney Mara (Ooh, gab'ardeen'!...) - a obra resume-se na página 668 (quase, quase, o "número da Besta"!) do 3º volume:  
«Vistas bem as coisas [boa tradução, mas eu teria trocado o "bem" pelo "vistas", passe o horrendo lugar-comum, algo que odeio!], o tema desta história não são espiões nem segredos de Estado, mas a violência exercida contra as mulheres, e os homens que a tornam possível».

Priceless!
Agora, há que ver o filme-versão sueca, antes que Hollywood (me) deturpe os factos do livro, com a parte II da Saga. Descansa em paz, Stieg Larsson. Também eu te amo à distância. Tal como os parisienses fizeram com o nome do esmagador Tolkien, talvez eu escreva nas paredes do Metro: Larsson Lives!

26.4.12

Non compos mentis*

Distraída com Lisbeth Salander* & a Saga Millennium, filme ou romance, esquadrinho tudo por informações. Além de Bellucci, descobri outra mulher, Rooney Mara, da qual gosto de pensar que Salander é um alter-ego. Dormíveis, todas elas.Orgulho-me de pertencer à espécie e noto os homens tão pouco inteligentes - apesar de atraentes por excelência, muitos  - que é confrangedor circular entre eles. Defendo-me - como em menina - com olhares baixos ou de fuzilamento, para abrir caminho. Reconheço-lhes o medo no olhar: o intelecto e a agudeza clarividente assustam-nos. Que poder tem uma mulher que o saiba! 
Não dei por cravos de Abril, uma melhor economia et pour cause com menor número de notícias a propósito, nem pelas horas que passaram, passando-as eu a dormir. 
Há escolas melhores e piores, miúdos que adolescem ultrapassando dramas de época através de conselhos que me pedem por e-mail e rendem, em aulas, mais do que a minha imaginação pediria nos meus melhores sonhos. 
As minhas crianças crescem,  assim como as duas suculentas e o cacto envasados no parapeito da janela da cozinha.
Continuo a rir-me para pássaros e crianças com olhos fundos que me perscrutem. Os desafiadores com sapientia põem-me no rosto o riso dos que reconhecem os iguais!
O homem que mais me agrada ainda me encanta com a sua voz, mesmo se por telefone, às vezes, lá de longe. Ah, soubesse ele como e voaria até mim, já quente e aceso! Não me faria rogada: se quero, digo; se quero, faço! Ele gosta. Somos dois. 

Deixei-me da praia, optando por bibliotecas, mas é tão difícil: a falta de educação banalizada por certas ideias políticas, a liberdade de tudo e mais alguma coisa, a gente poucochinha que fala alto e mal e nunca soube estar são um borrão na paisagem, como nódoas em tecido de qualidade. Há gente a mais em todo o lado e com vociferante palavroada, da que dói. Chi pensa male, parla male,  dizia o querido Nanni Moretti! Alguém há-de pagar por tanto asco cobrindo o planeta. Morte aos grotescos! Goya pintou-os bem, mas eles não se reconheceriam, de tão macacais...
Segundo a bisavó R., até dos cabelos perdidos teremos de prestar contas, um dia. Não a um Deus, mas a algo maior que Ele, algo não inventado pelas nossas vãs filosofias. Os humanos são fossas com pernas e pensam que pensam que pensam. O mundo é, cada vez mais, um misto de fluídos mal aproveitados, actividades neuronais abaixo da média, sinapses tão sinuosas que não fazem tilt, amálgama de odores, miscelânia de vozes sempre excessivamente altas. Será da minha narcolepsia ou da "ruivice" escondida?... A sensibilidade é demasiado cara e estou farta de reconhecer direitos a seres tão viscosos que nem merecem o chão que pisam. Fartinha de ajuntamentos, populismos, bárbaros e solucionadores profissionais dos males dos outros, com remédios para calos que curam também dores de alma...
Embrulho, por momentos, a sensibilidade e repito: o mundo anda a precisar de uma guerra! Alguns, aqui em casa, já me imaginam radical, de cinto de granadas a substituir o "de ligas" que parece ser apanágio do objecto-mulher! Eu, não! 
Busco um Oriente do Oriente no sono. Enquisto-me, calo-me cada vez mais, digo só por papel o que quero dizer. Demasiada tonelagem, isto a que chamam vida: sobrevive-se. 
Demasiada, tóxica, a estupidez humana cresce como as raízes vermelhas dos invasores de Marte, n' A Guerra dos Mundos.
Leio só os bons: Richard Zimler e João Tordo. A fixação de Zimler em pássaros, difusa, esvoaçante mas que surpreendo sempre, como reflexos fugidios de voo nas páginas valiosíssimas que escreve; Tordo e o seu "O Livro dos Homens sem Luz" - e eu a pedir que ponham em filme do fantástico, por amor de Deus, o homem-monstro-biónico que se desconjunta, sem alma -, a inteligência de uma história bem construída, negando o império dos floreados de vácuo a que este pretenso país costuma chamar "literatura"...
Mas ai dos livros! Moribundos uns, já mortos outros! Só os compro anteriores a 2009, não vá o "aborto" ortográfico tirar-me a paz de espírito que é ler na língua nativa...

Destas e de tantas coisas se me enchem os dias e, supostamente viva, sou assaltada como milhares, pago impostos, oiço o gado que, dizem, nos "governa" mugir nos assentos do Parlatório,  aquecidos cuzes, vidas algodoadas, macias, eles, que tinham de nem ter o direito de esboçar sorrisos, "Muit' bãnh, sô dep'tado, muit' bãnh"... Um dia destes, um qualquer breivik vai-lhes ao paraíso e mata-lhes as crianças, zás! Oh, ignomínia! Há-de haver cada vez mais suicídios-dos-que-levam-muitos! Admirem-se, pois, com a "degradação mental" das gentes! 


Como sempre, também eu espero a morte para breve. Sem ela, nada faria sentido e, de facto, é penoso andar por entre gente que reputo ao nível de Jean-Baptiste Grenouille, o anti-herói de Süskind. Poderia o mundo ser mais torpe?...
Valha-nos a Arte, sem o perdigoto auto-comiserativo-&-ai-que-eu-quero-uma-mãe-p'rós meus filhos dos valterhugomães planetários. É ou não é o mundo um hino à estupidez?... Quem lhes dá o direito de nos enojarem? Abaixo a cultura latrinária instituída! Abaixo a "síndrome de Furtado"! Abaixo o "EUsismo"!


Deus, quem quer que sejas, livra-me dela, da Grande-Mãe acefálica (sem falo), mas tão-pouco apenas acéfala que nos nivela por igual e nos atira com os seus ruídos refocilantes envoltos em palavras como direitos, liberdades, o-qu'é-bom-é-p'ra-se-ver... Marca aí na agenda, para breve, a minha saída deste manicómio: vaidade, tudo é vaidade. 
Tenho frio do lamaçal: põe-me sobre os ombros a toalha, a grande pacificadora, e deixa-me ver depressa os tais pontinhos de luz à frente que os cientistas dizem ser o cérebro a desligar, coisa que, supostamente, não se faz num clic, mas sim em muito tempo. Tudo aqui é tão "gadoso", visceral e dá cá uma sede!... 
O relógio azul e gigante, ali ao lado, diz-me que já é outro dia e não consigo decidir-me: levo o guarda-chuva verde-imbecil ou o vermelho-revolução? Fingirei, enquanto não adormeço, que me preocupo com essa monumental merda a que chamam moda, para dar repouso aos neurónios que, espero, ainda são muitos milhões! 
Pensar dói por todo o lado como a vesícula dói no nosso centro por irradiar miasmas, como o prazer dói no nosso centro por ser grande a ânsia de mais, como os olhos vêem tudo azul depois de os termos fechado sob o sol horizontal, como o sono se abate sobre o verde nostalgia destes olhos que querem fechar-se... porque dói, porque é bom, porque fascina, porque desgasta e entristece. Em suma, Grande-arquitecto: porque não me fizeste estúpida e contentinha?...

24.11.11

Elas


Em profusão, chegam de manhã cedo, esfiapam-se por entre as tantas horas, marulhando segredos, enquanto as repito até que, exangues, me deixam a mente vaga, menos nodosa dos movimentos que, amontoadas, fizeram em revolteios. Depois, sucumbem, satisfeitas, lânguidas, caindo de mim abaixo como cabelos meus já mortos e soltos na brisa, ainda mornos, penas de pássaro que marcam os meus caminhos de seiva e genética. São elas o fim e o mesmo princípio de tudo, porque tudo se arredonda, circular, em ouroboro, o si na busca de si mesmo. Diáfanas, sorriem, descendo de mim, zombeteiras, por me terem sugado energias, de tanto pensar nelas: mesa mesa mesa mesa mesa mesa, subida subida subida, alto alto. Nenhuma, garanto-lhes, é mais importante. Todas me enchem do som do chocolate preto bombeado do palato aos dentes, da língua aos lábios que dizem ao cérebro que é mesmo aquilo, 60 a 80% cacau. Cacau. Cacau. Cacau. Amargor. Exotismo. Longe, muito longe daqui. Bom dia, palavras.


2.9.11

Verba


Demasiada gente (que) escreve com erros. Agora e para sempre. Restam-nos as palavras que se ejectaram - a tempo e por inerência - da cloaca em que foi transformada esta Língua.
Ao contrário da terra dantes transportada em pequenos sacos para polvilhar o morto longe do seu solo de berço, da bandeira ou do hino, as palavras têm imagem visual, um rosto e trazem-se dentro, embutidas na máquina propulsora a que se chama cérebro. Também ele se liquefará, a seu tempo, num tempo em que quaisquer famous last words ainda possam ser pronunciadas, ditas com voz. Afinal, os druídas sabiam o que aí vinha e, por definição, o que faziam: era proibido escrever.
Em nome do que sobra sempre, do que é válido, banirei - e apenas em documentos oficiais, os do Inimigo -, por relapsas, as palavras óPtimo, aCtividade ou pÁra! Serão substituídas por sinónimas e guardadas em santuário, como pássaros de asa ferida. Guardo-as aqui e nos meus textos-de-gaveta, que são uma e a mesma coisa.
Resta-me este consolo: os podres que as quiseram assassinar hão-de adubar a terra, juntamente com o esterco dos milénios. Para o sempre sobram essas palavras feridas, convalescentes, transportadas na boca, no ventre, entre as mãos dos que as sabem. Desamputadas, aguardam: tal como a árvore que ali vejo, recortada contra o azul-petróleo doloroso do céu que se outoniza, sobreviverão, nos bailados das palavras compostos por muitos, todos os que o tempo não apaga, mas antes cinzela. Ainda bem que todos os humanos apodrecem. Só a natureza tem um corpo dúctil, tal como as plantas têm sementes. Quem não viu isto, nem sabe quem é.

30.6.11

Isto de dar aulas a CEF's

(suponho que o "E" seja de energúmenos)

iguala-me a estes pinheiros em cinzas
que me entram pelas narinas,
aqui, onde tudo arde, tudo arde,
tudo seca, tudo é dislate,
desconchavo,
poucochinho,
cinza já, de tudo o que poderíamos ter sido.
E isso tudo me agasta,
nos agacha,
Toda a gente "acha",
Ninguém sabe nada,
E as cinzas são eu.

8.6.11

Isto sim, é uma notícia



http://www.publico.pt/Cultura/estudo-diz-que-giotto-foi-o-criador-do-sudario-de-turim_1498035


Não. Claro que não vim recordar, mas
este blog fez anos: oito, a vinte e dois do cinco.
Evidentemente, gosto mais do tema notícia supra.

22.4.11

E eu disse a muitos: Marchemos para lá, para sul, onde se acoita a podridão!


António Barreto, RTP 1, 21 de Abril

admitia que a responsabilidade no estado do país era repartida entre os dois maiores partidos, mas dava ênfase ao facto de a culpa maior ser do partido do ex-governo
[imagine-se a partícula"des" depois da partícula ex].

O sociólogo disse sobre o ex-governo as seguintes palavras:
«ABRASIVOS, COLÉRICOS, FURIOSOS, VIOLENTOS, CRUÉIS».

A mim, que memorizei os 5 epítetos e os escrevi como sobre pedra por com eles concordar, apeteceu-me trocar as sílabas, dislexicando-me, quando (entre outras Fúrias boas ou más) me revejo no que alguém diz (Sim, Doutor António Barreto, é exacto o que diz, Obrigada por não temer as palavras certas, e-xac-ta-men-te como eu creio que deveria funcionar esta penedia a que ainda chamam país).

Assim, digo também eu sobre o abominável ogre e seus sicários que nos desregularam ad aeternum até ao ponto de perdermos a matriz ortográfica do idioma-pátrio, dislexicando-os assim:

ABRALENTOS
FURISIVOS
COLÉOSOS
CRURICOS
VIOÉIS
!

E, sobretudo, não me venham falar (se nem tenho cor política)
da já podre serenidade
no 25 de Abril!

28.2.11

O hodierno


pão nos Dai hoje.

Seja feita a Vossa vontade:

assim na Terra, Livrai-nos do mal.


Zwomen (por Amen)

15.2.11

Marés


Cinza. Hoje, o mar está cinza. Teimoso, insistente, protuberante, desenovela-se em galáxias, pois que é nele que se espelham todas. Quantas cabem nos oceanos que temos? Todas, se quisermos?... Até onde nos corre a imaginação em delírios, pois se até ela acaba e, no fim da palavra, correm "rios"...? Até onde podemos congeminar, nós, os pequenos humanos? Terminará ela, a nossa capacidade de sonho, liquefeita, no marulhar gasto e espesso de séculos de turbulência? Como me diz a mãe, sempre que vê o mar:

- Ei-lo, o bicho... O bicharoco que me persegue em pesadelos... É tenebroso, o mar.

- Medonho... - respondo eu em palavra que amo - Medonho! Adoravelmente medonho!

(...)

Os diálogos perdem-se, as palavras impedindo que se abarque tal assombro com elas, porque nunca chegam: o mar engole-nos por dentro.

Depois, por dias de sol, passa-se ali, mesmo ao lado, como ao lado é o Cabo Tormentório - que todos trazemos dentro - e desagua-se em Vila do Conde: ali está a nau. O medo que lhe tenho, o respeito que me inspira a negra quilha, o sagrado lenho, o pavor que me transtorna sempre, como se tivesse ainda os oito, nove anos:

« - Avozinha, não quero aproximar-me dos barcos com musgo, mortos ali na praia. Tenho terror dos barcos da praia, porque lhes vejo a alma...»

O barco negro (assim lhes chamavam os nipónicos, diz-se) provoca-me sempre uma convulsão de medo e ele enrola-se nas vísceras e dói-me por dentro, como se nele, barco, tivesse eu morrido, em vidas passadas. A Vila olha-me, branda, compreensiva, mas o barco rasga-me gritos endogenizados, guinchos de bicho em pânico, acossado, psychotizam-se laivos de sangue, em dor liofilizada, microfilmada, percutente, riso lupino da morte - minha amiga, mas que me espreita com máscaras contorcidas quando quase a aceito, mas a quero dócil e as carantonhas que ergue me acometem nas esquinas da casa escura e sozinha, voláteis, elas, assincopada, a minha golfada de oxigénio entrando a eito -, como se tudo o que eu sou estivesse inadiavelmente inscrito no cerne daquela nave marinha...

O barco negro rasga-me sempre o dia, porque nunca me lembro que ali repousa, como reaparecido após séculos de viagem. E o mar, que tudo sabe dele e o quis ainda vivo no dealbar de nova era, é conivente, cúmplice de funduras algosas onde não quer este filho negro que o galga - como o teu corpo, sobre o meu? -, ri um riso só dos dois e espraia-se no casco, entre afagando e percutindo, cerce, em marcas de amor dorido e lento.

- O mar sabe-a toda... O mar ri de tudo o que a nós traz rugas na testa, de tantas perguntas que levamos do mundo sem resposta, secos, hirtos como cartografias pergaminhadas, cansados de tanto nadar a contra-corrente. Por vezes - tantas! - para ter paz, tenho de recordar que isto me guia:

- Senhor, seja feita a tua vontade... As marés, elas mesmas mares-fêmea, nunca te acusaram o cansaço?... Não me deixes pensar tanto: o que levo é o que trouxe, uma ausência de medo, um deslumbramento que me morre entre os dedos, uma ânsia de, como Agostinho, fugir-te, para que me procures e me fales em tudo e em tudo estejas, como este mar que me cerca, ilhéu-fêmea, relapsa, vaga-mundo, dor-de-pensar ao que vim, eu, que quero ser não sendo, fugitiva de pés nus sobre o vidro que o pensamento é. Disso tudo o mar sorri. Tem milénios de tempo, o canalha… Como o amo, de tanto não o poder ter, sequer, nas veias!


19.11.10

Da "S" e outras crianças


A "S" é a filha que eu queria ter tido. Tal como o "F" é o filho que nunca terei. Há muitos, entre eles, que vou escolhendo para "meus", na casa que encontro vazia de vozes infantis quando chego. Sem mágoas, contudo, que eu sei porque me quis assim e isso só a mim importa.

E contudo... e contudo. A nota de 86 que ontem entreguei à "S", no teste visto de fresco, fê-la voltar-se para a colega também pequena que lhe sorria na sala - a turma já tinha saído quase toda - e dançar um samba horroroso que a deformava em todas as direcções e lhe espetava o rabo na direcção da mesa onde eu arrumava papéis e orientava sumário, entre outras quezílias da profissão geradoras de amargos de boca, por escolares, anacrónicas e estupidificantes. Desculpei, à pequena "S" a sua dança tribal porque a vi, naquele instante, filha de pai morrente num certo hospital, a terminal doença marcando, já, epitáfios que tão ligeiro ser - loira e vivaz como é a "S" - não merecia tão cedo na vida. A sala tornada sambódromo, pude alegrar-me - eu, que odeio "sambantes" - por ter o meu "86" escrito a verde alegrado quem ultimamente tanto chora. Desígnios pequenos, nadas avulsos, momentos esparsos: disto se faz a alegria hodierna de um professor que viu nascer o século. No meio da turba, sambando ao som do toque das caixas múltiplas, foi aquela miúda a reabilitar-me aos olhos de um dia gasto. No meu sorriso contristado, na meia boca que inclinei, estava toda a alegria possível, quando as notícias do meu país me trazem uma estranha estrela alvinegra, de quatro pontas, bombardeando a eito, como um alvo apontado ao peito que todos trazemos pesado. Em que medida serve a estrela à "S"?... Saberá o que por detrás dos seus sambinhas trezeanistas se maquina algures?... Ensinar-lhe-á a História que para nada servem as suas notas de "86" num mundo onde os novos bárbaros vestem fraque e as armas que trazem dentro dos contratos têm nomes científicos? Muitos "86" ajudarão na subida dos degraus até ao fim do jogo? Quando perceberá a pequena que o 1% da sua alegria nada conta no mundo real que encena outras danças fora do gradeamento da escola?...
Ensinar-lhes que cada etapa é apenas um degrau será suficiente como força para aguentar o peso da vida? E agitar ainda as bandeiras da seriedade, da meritocracia, da lealdade poderá salvá-los dos orangotangos perfumados que, por estes dias, sentarão as partes nas sanitas dos hotéis de luxo? Como manter a salvo os nossos melhores, os nossos ainda perfeitos incólumes, num mundo onde a inversão de tudo o que é válido nos satura os tímpanos? Como dizer-lhes que estão a prazo, enganados, a recibo verde da corja que os militares guardam como tesouros? Como fazê-los perceber que a população inexistente nas ruas de Lisboa por estes dias é o vazio metafórico do lugar onde todos já mergulhámos há tanto tempo que já ninguém sabe quem é?...

Na minha retina, as imagens deslizam, vertiginosas, fel do ódio que tenho à mediocridade. Fico feliz pela felicidade alheia. Entretanto, a pequena "S" saiu, samba algures, sorrindo, em direcção ao dia claro, mochila às costas e faz o que a mim me ensinaram tão bem que fiquei nesse mundo para sempre: sonha que, algures, há um sítio melhor do que a realidade que muitos, canga nos ombros, absorvem como à última golfada de oxigénio no planeta. Asfixia devagar, mas para seu bem, ainda não lhe disseram...

3.10.10

lagutroP

Adianta muito ao José Pedro, nº14 do 7ºD, ter miudamente (na letra, não na ideia) escrito nome, nº e turma numa minúscula - porém bem visível - etiqueta branca no tubo de cola que lhe comprou a mãe nos idos de Setembro: a embalagem partiu pela base por excesso de torções, vertendo gota a gota a baba perfumada sobre outros materiais escolares. Jaz agora aqui, nesta sala 21 e em fim de dia já silencioso, sobre todo o lixo - que nenhum outro ser a que se possa chamar humano além da que aqui cronica a alma - põe nos ecopontos espalhados pelo recinto. Só eu uso aqueles recipientes, distribuindo neles papel, embalagens vazias e mágoa de pertencer a um país de ineducáveis. Nesta palavra, aquele outro senhor deu provas de que, afinal, sabia alguma coisa sobre a turba propensa aos balidos que alhures governou. Até o macaco Gervásio sabia separar lixos. Eu - enternecida a sós por crianças correndo em direcção ao fim-de-semana - enquanto desligo equipamentos electrónicos, envergonho-me da bandeira que, por estes dias, tantos louvam. Prostitutos sem Pátria!, digo eu ao povo que vendeu a Portuguesa Língua a veracrucianos que a escrevem com as patas, quer dizer, com licença, os pés. Afinfa-lhe, pútrida Pátria que nem de famous last words te fazes digna. Concordando ortograficamente e por decreto, uma massa de acéfalos prepara-se para espetar a farpa venenosa do descaso sob as próprias unhas, urgindo em mim laivos de fome por nova nacionalidade. Envergonho-me de ser lusa, porque nesses volteios de sepultura revejo o vate, Luís Vaz, mais insultado do que se sobre a sua efígie despejassem, ali mesmo nos Jerónimos, todos os esgotos de Lisboa e mais alguns. Afinal, Camões, estás vivo, mas as almas não rendem votos: esta nação meretrizada merece - como sempre, aliás, se disse - todo o mal que lhe aconteça. Não tem património, é inimputável (sendo, contudo, as quatro letras do meio sem qualquer acento!) e esmaga como se barata fosse a única coisa que a salvaria, ainda, da tormenta: a memória...

27.5.10

(Des)aniversário

... . . ... . .
. Este blog tem 5 dias e .
. . . ... 7 anos. . . .
. . .
... ... ...
Continua a optar azuladamente,
como nas margens aquosas,
agridoces dos odores cítricos.
Do som do vento e da chuva
também se irmana.
A casa do farol
nunca teve
tantas
certezas...

Cheers!
;0)

21.4.10

"C" (um aluno português)

Descrevia-lhes o programa visto sobre um mamute fêmea encontrado na Sibéria. Um corpo com milhões de anos, portanto. Expliquei-lhes do transporte em vácuo, da urna, dos cientistas dentro de fatos brancos e com máscaras, dos mil cuidados e... do nome dado à criatura (magnífico achado!), um nome russo, feminino, curto, mas do qual eu já não tinha memória.

Perguntas do aluno:
«Ó s'tôra, como é que eles sabiam o nome dela? Estava viva?...»

:0(

1.3.10

Sou feliz, mas entristeço-me...


« - Estou a procurar imagens de "iluminuras". Os meus alunos arrepiam-me, quando dizem que não sabem o que são iluminuras...»

« - O que é isso?...» - perguntou a colega de Matemática.

(Chorei por dentro.)

«- Duc de Bérry?... Livro de horas?... Livros de História? Monges copistas?...»


« - Hã?...»



24.2.10

(E)s(t)ou feliz porque...



Ontem, vi um homem da recolha do lixo devidamente "uniformizado" que, em vez de sorrir para os seus botões, sorria para o velcro do verde fluorescente do seu "camicasaco" e... tinha phones! Estaria ele, como eu, viciado nisto?




;o)

15.10.09

CHchchchchchchchchchuva!

Tanto tempo depois,
quem diria que esta casa do farol
tinha ainda a porta aberta?...

4.8.09

"Fase descendente"

Assim lhe chamava um genial professor, à "quarentena" de anos. Dizia ele que nunca atingiria o dobro, por isso, o declínio instalava-se... Também eu já dobrei esse cabo: a 19, pelas 12 e 15, nascia, há quarenta anos. Gostei que alguém me tivesse dado os parabéns pelos quar"i"nta. Assim sendo, é oficial: estou nos "intas"!
Beijos!
;0)

2.6.09

"Hipopo(p)timizada"

No passado domingo, ele reabilitou-me. Li e reli, emocionada, uma das mais sensíveis, inteligentes e bem-humoradas entrevistas de sempre. A forma deliciosa como conjuga a atenção para com os vocábulos da língua-mãe, a vontade de fascinar as crianças pelo poder mágico, encantatório do som articulado, fez-me rir, naquela discreta mesinha de café, humedecer de ternura o olhar às vezes cansado de mundo, voltar a acreditar nos que professam a fé na e pela palavra. Tudo para aportar a um nicho onde o regaço dos que alguma vez nos deram colo e nos leram baixinho histórias impossíveis será sempre um regresso a casa. Aquele homem poderá, até, eventualmente não encantar muitos - e eu sei de um livro seu que coloco aquém do seu brilho, por isso escrevo com a lucidez possível - mas aquelas páginas souberam-me a risos cúmplices, à honestidade dos amigos da infância - os "para sempre", como a adorável, inesquecível, gargalhática Alice, que ontem fez... 40 anos (o tempo foge-nos!) -, a um lugar de vozes segredadas que não quero ver apagado. Quero poder voltar a ler palavras que me saibam a gomos de laranja em sumo escorrendo pelo queixo, pinhões cobertos de pó castanho, esmagados com pedras, enquanto os outros meninos e a "irmã Ana" me gritam o nome ao longe - aaaaandaaaa, és a última, Inêêês, vais perder os fantooooches! - mãos dadas entre dois bibes azuis, rostos afogueados da muita pressa de chegar aos baloiços e todas aquelas dúvidas sobre Deus e "os lugares depois de morrermos", os que os adultos não queriam que eu soubesse cedo de mais... Sim, existe esse lugar onde a expressão Graça de Deus me faz ainda fechar os olhos no baloiço das horas, sorver o cheiro a cedros depois da chuva, tocar como espuma as folhas de Outono-nuvens que me sustentavam, os dedos sobre o musgo húmido de todas as manhãs em que a avózinha era ainda viva e nos levava ao colégio... Tudo isso assomou ao meu espírito quando percebi que há, ainda, quem não se entregue ao fogo fátuo da vaidade, que não faz questão de ir às escolas para convencer os meninos de que sabe escrever e é um escritor. Quem quer que seja modesto tem o meu aval e o meu voto de muitas, longas e prazenteiras horas de escrita, para que eu as possa também ler. Partilhar segredos. Uma e outra vez, saindo deste corpo agora perto da "quarentena" (;0)...
Álvaro Magalhães reabilitou a minha ternura pela(s) palavra(s) e, sem nunca lhe ter ouvido a voz, sei que é uma voz de riso. Obrigada! Abençoados os que nunca se deixaram contaminar pelo embotamento dos sentidos e serão sempre meninos, seja qual for o chão que pisem, a língua que falem, os percursos pelo tempo adentro que possam fazer, distanciando-se do lugar infância que eu própria me recuso a deixar de trazer dentro. Por dentro do meu corpo ainda magro e tão pequeno que não chega à estante dos livros, mas sabe já que será sempre entre eles que mora a sua casa.

25.5.09

Anni (6) berçário (?)

Sim, eu lembro-me: foi na sexta, 22.
Este blog completou meia dúzia de anos.
Deverá estar, portanto,
a estrear-se no... 1º ciclo?
(Há-de estrear-se, mas nunca estriar-se...)
Chuac!
;o)

18.5.09

Ironias (Temper, temper...)

A par com Não Há Coincidências, de Rebelo Pinto, M., repousava, na biblioteca escolar, de Pessoa (sim, Fernando!), O Livro do Desassossego. O mesmíssimo que uma funcionária - que, entre outras coisas, varre das salas o lixo que os meninos produzem num afã consumista - anda a ler. Ela, eu sei que lê. Aprecia arte, compra livros, pensa por si, LÊ de forma reflexiva e adora a escrita pessoana. Cada Ministra tem os alunos que merece...