9.10.07

Imponderáveis adjectivos = nauseante instabilidade


Mulher inteligente:

«Acabo de ler o Ulisses e julgo-o um insucesso... É prolixo e desagradável. É um texto grosseiro, não só em sentido objectivo, mas também do ponto de vista literário.»(Do Diário, de Virgínia Wolf)


[aplausos]


Homem estúpido:

«Serei talvez duro para compreendê-lo, mas não consigo capacitar-me do facto de um senhor poder empregar 30 páginas para descrever como se dá voltas e mais voltas na cama antes de adormecer.»(Relatório de leitura sobre À la Recherche du Temps Perdu, de Proust)



[lástima]

6.9.07

Deusa

Maya Nasri
(Líbano)
(Clips das músicas: Khallini Biljao; Roh)
Perdoemos-lhe o péssimo clip, o site de gosto duvidoso... Maya Nasri não tem (se pensarmos nos tons graves e cálidos do Líbano) uma das melhores vozes do mundo árabe - ainda jovem, falta-lhe o tempo que dá corpo à voz (não aconteceu o mesmo com a portuguesa Sara Tavares?) -, mas sabe usar o dom divino da vocalização como nessun'altra. Há meia dúzia de meses, eu esperava que alguém disponibilizasse na net esta música e eram poucas as imagens da cantora... Nota-se uma maior aposta na promoção. Mais uma vez, o Líbano impera nas artes. Definitivamente, esta carreira interessa-me: a voz de Maya Nasri é puro veludo.

Neste outro, um grande acréscimo de qualidade: melodia mais memorizável sem ocidentalização excessiva, capacidades cénicas (estudou representação a nível superior), uma graça e beleza físicas que não são de descurar num meio agressivo e demasiado exposto como é o musical (já foi modelo). Não é só a voz: esta mulher É veludo! E... porque se parece, de repente, com Monica Bellucci?...

Boas noites, sempre com boa música.

14.8.07

Catorze.

Mais estes, este mês.
Quantos me sobrarão ainda?...
É de dias que aqui se fala, agora
que é noite.
Obrigada por todos os mails.
Como todos os que até hoje brilharam,
gosto desse low profile
daqueles que se dizem amigos.
Saboreio a dávida, divina também ela.
Telúrica, saúdo Torga!
Danço com Bryan Ferry
(no rés-do-chão do blog, toca o Finetune):
Don't Stop the Dance!

19.7.07

Ainda


há.


Na Clínica. Os "humores" entre o sanguíneo/bilioso/fleumático/nervoso levaram-me de novo à presença dos médicos. Que não, não estava doente. Nada a temer, portanto. Pensam que é problema de Psyké. Disse-lhes que talvez de Eros. Riso de circunstância.
---
Entretanto, antes de novo departamento de triagem, "a" sala. Esperei. Na sala de esperar, esperei. Esperei, esperei. Sem almoço, devorava Fogo Negro, de Sansom. Olhei em volta.
Como um pássaro ferido, uma mulher da idade do mundo tremia em cadeira-de-rodas posta. Sem sossego. Suponho que não fosse Inês o seu nome. Cravejada de rugas, fechava olhos minúsculos em cansaço extremo. Magra como se do Biafra oriunda. A família, não sem a brusquidão dos insensíveis, encostou-a à lona da cadeira: "Assim, cansa-se menos...". Um talvez-bisneto ainda nos quatro anos deixava cair incessantes carrinhos-brinquedo, sobressaltando-a do sono de aparente quase-morte. Já nem era tristeza, aquilo. A lassidão de um corpo entregue de vez às tremuras e, no rosto, o rictus dos que sofrem. Cronicidade na dor. Um pássaro ferido, um pequeno, minúsculo destroço que a Deus não custaria levar ao colo, um dia próximo. Um pequenino pássaro. Talvez já nem os alimentos lhe soubessem, como aconteceu a minha avó, nos derradeiros dias... Imaginei-a com sede. Nada em volta a trazia ao acordo de si, excepto os brinquedos do rapaz batendo no solo a seco, sem que a imbecil família o impedisse de tão repetitiva cacofonia agressiva. Vacilava. O resto de mulher vacilava.
---
Como um pássaro repugnado por ignominiosa espera, uma jovem impaciente, verde como um junco alçava a sobrancelha impertinente em poltrona de sala-de-espera posta. Desassossegada, também ela. Vivia a espera com tal intensidade que se lhe abriam narinas de sensitiva. Deslizava, ao recolher copos de água, ao passar entre salas, ao dirigir-se aos balcões de atendimento. Nem a mais ínfima sombra de homem de aspecto escravo afundado nas poltronas lhe era indiferente ao andar meneado, ao olhar altivo, à ausência de massa corporal, à visão perfilada de um corpo privado de ancas, de nádegas, de peito. Mas brutalmente feminina, a graça da árabe nos meneios ventrescos, os cabelos ondulados da deusa mediterrânica, o olhar entre o tecto e o chão da fêmea arrogante e da menina discreta, encimesmando-se, farta de mundo, elástica na fuga. Um magríssimo portento, um mau feitio acabado, uma leoa magrinha e magnífica. Tinha stamina, raiva, determinação dentro, via-se. Para espanto desta que aqui escreve, a bela criatura sentia! Vi-lhe o olhar percorrer a tristeza profunda, a indignação, a revolta e nova profunda dor: ela vibrava ao ver televisão - apesar da fingida indiferença - com a exploração de trabalho infantil na China, a represália sobre o esclavagista condenado à morte, a explosão em central nuclear, as declarações de ministro-pinóquio, a conversa sobre anorexias várias a nível de pensionistas-classe-trabalhista e bulimias a nível de classes de almirantes pré-reforma, dos que recebem complementos inexplicáveis, depois de tantas paradas com pernoita em hotéis de cinco estrelas com respectivas famílias e amigos, tudo para Estado-pagante... A menina-mulher reagia. A sobrancelha fazia-lhe justiça ao nível de indignação. Que diria Proust do seu porte, do seu rosto?...
Que diria Proust da velhinha? Também ela lhe recordaria "Grand-mère"; a menina-mulher seria uma "Albertine"? E a senhora de meia-idade adormecida à minha frente na sala-de-espera? E eu, entre elas, em que estádio do percurso me encontro? Serei, um dia, aquela mulher diáfana e magra que mal entreabria os olhos e se contorcia de dores a cada mudança de posição do corpo na cadeira-de-rodas?...
---
Assim me interrompiam com doçura os pensamentos, falando-me ao rosto em delicada voz baixa: «Dona I., ainda não a chamámos, porque há um ligeiro problema informático. Dentro em breve, ouvirá o seu nome, sim?». Sorri à enfermeira porque, ao contrário da velhinha, não me contorciam dores; a senhora de meia-idade dormia, sem termo do sono à vista; outros conversavam baixinho; crianças passavam e pais orientavam-nas, sorrindo por terem público e por todos nós amarmos sempre muito todas as crianças. E... os velhos? Quem repara naquilo que será um destes dias? Quem se condói? Quem lhes sorri? Quem lhes fala ou toca com ternura, sem paternalismos ou "pena" na voz? Ternura da verdadeira, aquela mesma que usamos para com os pequenos?
A jovem de ar altivo condoeu-se. Ela percebeu. Olhou, discretamente, com profunda tristeza o destroço humano que virá a ser quando, um dia, nem beleza, nem saúde, nem um andar rápido lhe valerem e já não houver energia nem para colheres de sopa dadas por mão alheia, nem para indignações vindas do fundo da revolta pelas longas esperas. Eu fui testemunha. Ainda há alguma. Esperança, a tal que é verde. Como um junco, como a Irlanda, como um limão, como o amado Minho. Tudo o que é vivaz.
---
Hoje acontece de novo, exactamente às 12:15. Um pequeno marco miliário nas horas da minha estrada.
Estarei mais afastada da adolescente; mais perto da mulher que, aos poucos, mansamente, fecha o ciclo. Será o trigésimo oitavo aro de tempo no tronco da árvore que sou. Hoje, abraço a minha mãe com mais força. Digo-lhe «Obrigada». Ainda há tempo. Ainda há esperança. Dizem-na verde. Talvez seja, ainda.

26.6.07

Negra

Se não me engano, uma sexta de aziaga memória. Essa parte da História mostrou-me - no 8º de escolaridade - que nem os mais titânicos sistemas económicos estão protegidos contra um "crash". Se não estão eles, o que está? As neves do Kilimanjaro? A beleza de Helena de Tróia? O clima? A simpatia entre humanos? A ideia de eternidade, de "marcar" o mundo, de afanosamente juntar amigos como se juntam peças em linha de montagem com vista a um objecto de culto - nós -, ainda me diverte. Se alguém marcou lugares, pessoas, se resistiu enquanto memória além dos cinquenta, cem anos após a sua morte não terá sido pela simpatia, por certo. Disso, há muito quem. Após os ditos, os pensados, os ego sum, o que nos sobra? Isso mesmo, sem o s: obra. Sobram actos. Não gestos - memorabilia típica de gerações videoclip - a mão que agarra o ar fora do carro, a nuance de sol no loiro postiço, o dentinho que brilhou com sparkling de bom dentífrico, os bloggers que, naquele jantar nos levaram em ombros por sermos os melhores da nossa rua e arredores, o nosso riso naquela foto onde outros lambe-botas se esmagam para fazer parte. Há muito dos humanos que não entendo. A vaidade - a presunção, será mais ela - faz-me cócegas nas meninges. Se "o pior cego é aquele que não quer ver", eu não vejo quem seja ufano. Sou do pior, portanto. Ou há mérito, ou morreu e já fede quem quer que se alteie nas suas tamanquinhas fugindo para coturno. Andar no mundo para agraciar os egos dos outros? Nãh!... Os mais imbecis entre a bosta dizem "Eu sou uma pessoa que...", "Eu sou muito competente...", "Farto-me de trabalhar...", "O mundo não me dá valor...". Costumam ficar a falar a sós. Eu já saí entretanto para respirar oxigénio. Como um bicho banal. Recuso a aceitação asinina de que a poeira de estrelas daquele tipo à minha frente na fila, da vamp à minha rectaguarda, do adolescente às minhas dez horas ou da avozinha às minhas quatro seja de uma galáxia melhor do que aquelas de onde provêm todos os outros. Tudo isso será paisagem. Já faltou mais. Tem mais valor este oxigénio: é invisível. Sem querer ridiculamente parafrasear Saint-Éxupéry, não é só o essencial que é invisível. Também o óptimo o é. O que é verdadeiramente genuíno não se vê ou prefere ser absoluta e esmagadoramente discreto. Subtil, ágil na fuga. Soliloquial.
Por isso rio com os agradecimentos a "bloggers que nos colocam entre as suas preferências". Gostaram? Pronto, agradece-se po escrito mas por mail. Haja sobriedade. Agadecer no blog? Agradecer no blog?... Um blog serve para agradecer que outros leiam o nosso blog? Isso, essa simpatia, está muito longe da urbanidade. Do carácter. Do real interesse. Do que seja o genuíno: a natural. I am a natural. Tudo o mais me faz cócegas meníngicas. Não entendo a necessidade de aprovação, a falta de rigor, de liberdade no âmago. Uma inenarrável solidão adeja entre as massas. Interessante, social e antropologicamente. E ainda rio mais quando me demonstram que há uma parte importantíssima da vida social que eu ignorei. Supostamente, por isso me ignoram. Óptimo. Para isso criei eu um blog. Para ser ignorada. Aqui à minha volta, a sala ferve de vida social. Nope, not interested! Go away!
Bloggers que por aqui passam dizem-me "simpática". Talvez se enganem, com tudo o que um talvez encerre de dúvidas, mas pessoas simpáticas sempre me pareceram alguém que pede socorro...
Tant pis, ça m'est égal. Et hop! Vive le silence!
:0)

22.6.07





E pronto.

Acabou.

O ano lectivo, quero dizer.




:D



.Beijos a quem de direitO.

12.6.07

Teste... 1, 2, 3...

Na realidade, são sempre mais de cem:
o número exacto de alunos que tenho eu.
Fase de avaliações.
Um blog será sempre um blog:
ANÁTEMA MEU, IH IH!
See ya!

29.5.07

Insubmissa, ela?...

Jezebel, a Insubmissa
(The One & Only) Bette Davies

24.5.07

Congrats

. 22 Maio 2003: começava este blog .

22.5.07

O culpado? Nanni Moretti, no Sábado!

DIDI - Cheb Khaled


There's no such thing as uggly arab music!
Não há música árabe que não seja bonita!
Dançar, dançar, dançar!
Banda Sonora de Caro Diario, de e com Nanni Moretti
[um homem numa lambreta
em andamento,
braços abertos, dançando Didi!
Sono innamorata da te, Nanni! ]
:D

18.5.07

Ridiculices

Definitivamente, ridículo. Por estes dias, obrigaram Bryan Ferry (ex-Roxy Music) a pedir desculpas pelas suas opiniões... estéticas. O homem (mister charming, himself, por sinal! [Eu cá gosto! E muito.]) limitou-se a elogiar a estética da ordem que prevalece aos desfiles, aos uniformes, às botas militarizadas que se associam a uma corrente ideológica, o nazismo. Ele não afirmou que era simpatizante, que admirava o carácter de quem quer que fosse associado à Shoah ou sequer que aquela fase histórica o fascina, for God's sake... O homem limitou-se a afirmar o seu gosto pela estética da ordem das multidões, da sincronia das marchas, a formalidade dos corpos uniformizados em... uniformes. Reconheço-me no gosto pela sincronia, embora ela me assuste se aplicada militarmente, porque reconheço o horror do ímpeto de meras "máquinas humanas de morte", mas também aprecio a beleza dos corpos sincronizados, como apreciava Esther Williams rodeada de bailarinas de natação sincronizada na piscina da MGM; como aprecio - apesar de ser assumidamente hetero - as estonteantes belezas do Crazy Horse; como aprecio os padrões, a simetria da natureza ou o simples alinhamento de aves no céu. So what?... No oposto, abomino as vozes de Catarina Furtado, a distorção vocálica de Shakira ou de Bono Vox, que associo a dores excruciantes. A falta de harmonia, de ordem ou da simples graciosidade natural choca-me.
Chocam-me o tom, as ideias, a figura de louco furioso de Hitler, a sua deturpação dos conhecimentos gnósticos*, a sua obsessão sectária e assassina. Isso, contudo, não invalida que reconheça a força de uma multidão ordenada com um fito comum. Horrorizam-me as massas e o endoutrinamento, mas tal não invalida o gosto pela ordem, pelo movimento a compasso, pela grandiosidade de um "desfile de moda", mesmo que os modelos sejam militares às centenas e todos iguaizinhos. Quando essas imagens são acompanhadas de música como nos videoclips actuais, há nisso reconhecida estética. Discutível, a estética do bélico. Mas, o teor "discutível" de um gosto desobriga-nos de desculpas aturdidas, ridiculamente "correctas" e típicas de paz podre. Haverá sempre teias de aranha de sobra, mentes enviesadas, falta de clareza nos limites do esteticamente aceitável, mas... pedir desculpas? O que seria de Salvador Dali e da sua exposição de carne crua pendurada em pregos na galeria? E de Zsa Zsa Gabor? Da Sagrada Família de Gaudì? De Cândida Brancaflor? E do futebol, dos Gato Fedorento e de Herman José, ou dos casais que casam em Vegas, ou dos que aqui mesmo, na Lusitânia, alugam limusinas e promovem bailaricos e karaokes, já agora?... Alguém tinha e tem de apoiar essa gente, alinhando, ondulando, endeusando. Eu não. Não gosto. Terei de pedir desculpas?...
* Ler Hitler e as Religiões da Suástica, de Jean-Pierre Angebert, por exemplo.

14.5.07

Escala planetária

Algures na Bulgária (Plovdiv?),
um(a) leitor(a) mantém-se fiel
ao meu bloguinho.
Já se contabiliza
a fidelidade em horas.
Impõe-se uma questão:
ZA CHTO?

4.5.07

25.4.07

Redacção: a liberdade



Dizem que andou por aí, hoje. Eu vi-a. Creio que era ela.


Ia a desaparecer por detrás de uns prédios, os daquele construtor que apodrece de tanto empreendimento lucrativo e não retoca as paredes com fissuras pelas quais se infiltra a água que entra nas casas dos moradores que não podem pagar a advogados.
Devia estar também no corpo daquela miúda de uns dezasseis que, alcoolizada, seguia com saltos vermelhos abraçada a um quarentão agarrado que lhe abocanhava o corpo gasto de tanto sexo pago.
Talvez fosse o cravo na lapela daquela mulher antiquíssima que trabalhou na fábrica e nunca conduziu um carro, accionou uma máquina de secar roupa ou teve opção de escolha entre ter um filho e abortá-lo, porque então eram os homens que mandavam.
Seria, por acaso, a voz dos meus alunos de oitavo ano que me diziam ter descoberto, há dias, os blogs nacionais e terem-se envergonhado porque as senhoras que neles escrevem têm linguagem carroceira e não terão, definitivamente, nascido para o apostolado do bom-senso nem para o que quer que seja a maternidade, "porque de filhos de gente dessa já as escolas estão pleníssimas, abarrotadiças" e um deles afirmou ser isso a tal liberdade de expressão.
Não afasto, de todo, a hipótese de ser aquela música que saltava pelas janelas de um vizinho amante de decibéis metalizados, ou os gritos da vizinha que gosta demasiado da cópula para perceber de sexo ou entender que é no silêncio e/ou nos sussurros que se experimenta o maior prazer, mas que entende ela de gnose?...
Está, seguramente, algures num quadro de Delacroix, mas esse está demasiado longe, num museu e o povo não precisa que a Liberdade o guie, porque ele me recorda muito mais, neste preciso momento histórico, os cegos do quadro de Brueghel O Velho que se deixam conduzir por um outro, como na parábola bíblica, com consequências óbvias.
Porventura estará nos corpos de criança tatuados a cigarro, chicote, colher-de-pau, chinelo, navalha, que têm de ser observados em urgências de hospital onde os progenitores alvitram possíveis quedas na escada, em liberdades de expressão englobando a fúria de viver.
Está, creio, nas quantidades imensas de água que gasto em limpezas de casa, banhos, máquinas de roupa, porque posso e sou livre de gastar na minha medida, embora saiba que por isso pagarão as gerações futuras, paladinas de outras causas porventura ainda mais perto do atributo perdidas.
Vi e ouvi, na abóbada, reflexos dos risos da miudagem que hoje lançou papagaios, balões e frases-feitas para adulto sorrir com cinismo. Havia palavras de ordem, risos e cravos - aziaga flor de odor tóxico, má escolha, duvidosos gostos de maiorias - além de pretensos credos de "somos felizes assim"...
Não me acabrunhei. Segui, risonha, mas discreta. Cravei o meu olhar nas crianças do consultório onde esperei três horas, após ter pago 65 euros, porque a liberdade tem um preço. Comi num restaurante bem onde se fumava e falava alto de mais. As mulheres presentes também tinham exercido a liberdade de pagar muitíssimo por pouco pano nas vestimentas e os homens, lúbricos, estrabizavam-se com tanta glândula mamária à discrição. Expressavam-se em liberdade ambos os lados, ambas as espécies convictas do bom uso do calão, em dia de igualdade, fraternos perante o "senhor dos anéis" que manipulava as travessas e elogiava a pueril facção y, rubro, casposo e de comiserável dentição. Pensei no conceito de classe. Tenho. Observo infinitesimais demonstrações de respeito pelos limites do excesso de cada um. Gosto da liberdade, mas uso-a com parcimónia. Não me acotovelo, não apologizo, antes oiço. Sou testemunha do meu tempo. O meu tempo é o melhor de sempre. Feliz, não me fecho, contudo, às dores nem ao vómito de vazio desconsolado em que vivem os menos circunspectos. Nasci para observar e cumpro o meu papel. Agradeço a Deus por não ser esta espécie de catarismo apanágio de maiorias: quem aguentaria, hoje, a contemplação da obra divina e seus desvios em nome da liberdade-livre-arbítrio?
Cumpro o meu papel de cronista. Cumpriu-se mais um dia. Creio que entrevi a tal liberdade quando oxigenava corpo e alma nas varandas e um grupo de mulheres fazia a caminhada diária em apressado, alegre bando. Os maridos - modernos guardiões do lar - terão, porventura, aproveitado para exercer liberdades que a espécie supostamente lhes outorga o direito de, como já ouvi à boca pequena dizer... De cima deste edifício, antigo farol semi-desactivado, sinto-me a mais livre das mulheres: insisto em caminhar a sós, ir ao cinema a sós, jantar a sós, conduzir eu os meus dias sem espécie dominante. Das noites, saberá Deus. A isso chamo liberdade: não dar contas a homem vivo das ínfimas revoltas diárias num mundo imperfeito e tosco, mas glabro e delicado como flor de estufa em precário equilíbrio.
Fecho o meu diário, enquanto a liberdade se encerra neste peito e se aconchega na carcela azul-celeste de mais uma camisa de noite que se fez fria como o é Abril. Amanhã, o país voltará a dar importâncias excessivas a cidadãos-eusébio, lobo-antunes e outras manobras de diversão de duvidoso bom-senso e bom gosto. Assim a caravana passará, estro em farrapos, esparsas mini-glórias, abjecções da tal liberdade, panis circensis... Fechar os meus olhos às modas é a minha não-servidão.
Quanto à liberdade, creio que andou por aí hoje. Eu vivi-a. Creio que era a isso que me sabia a boca quando uma criança anónima me estendeu uma papoila acabada de trazer de um campo perto de Azimutes. Creio que a multidão estava rubra de ópios vários e choro por dentro a vermelho quando digo que nunca antes a vi tão pouco convicta... Em teu nome só, liberdade, perdoo aos iconólatras de um pequeno país a que chamo meu. Por tantos excessos se tornou a liberdade maniforme e ganhou força a sinistra. Segura-te, democracia! O círculo fecha-se sobre ti. Que poder terá, então, um cravo? Sonha-se de mais. A História repete-se sempre que as memórias se encurtem subvertidas, alheadas, anestesiadas de medo. Num cenário de diletantes onde nunca mais voltará a inocência da trintona liberdade, será muito mais difícil actuar, um dia. Porque ousa mais o ignaro que acredita com fé pura do que aquele que sabe o preço de um não, mas prefere lamentar um destino que teima em eternizar avesso. Aos 33, espelha-se a liberdade no seu contrário: o direito à liberdade de anuir à ruína... Também isto é liberdade: expresse-se o hodierno, lúcido, irónico nojo.

20.4.07

Proverbial[mente re]provável - II

O alheio plagia: na praça serás aplaudido
(, cloaca!).
«Quem o alheio veste, na praça o despe.»

19.4.07

Alvinegro

Sigo, perfilando-me com os prédios da cidade
morna.
Estou morna com ela, dúctil, infinita
deslizo, morte a caminho,
vida latejante em mim,
medito, passo a passo,
no que os meus olhos devoram
de mundo,
de mundo,
tanto mundo!
Vestida,
nua a alma: sóbria!
Tudo o que seja de vértices
se estreita no campo
da visão e imiscui filamentos
de vidas - muitas outras -
nesta que é, ainda, a minha.
As bacantes desfilam, calça
branca transparente, seios
que saltam,
detestável vulgaridade à transparência, elas
dão tudo ao transeunte, revolvem-nos
estômagos, encaloram
os imbecis por culto.
Quase há - a troco pouco - acidentes,
ridículos acidentes
("distraí-me com os meneios de uma porca que passava..." e
até verem os filhos à noite,
quantas
vezes
pensaram eles em
sexo,
os falaciosos anónimos,
acefálicos desesperados?)
...
A discreta sensualidade
quase jaz,
o mistério perde-se,
a evidência aterroriza,
asqueriza-me
os dias brancos por norma,
essa altervulgaridade.
Sem subtileza,
deslizamentos de graça,
movimentos sinápticos dignos de nota,
fazem-me pena as óbvias
mulheres
quase-gente,
sacos de pancada,
desesperadas de homens por minutos, homens só
que se esvaiam
em minutos,
gatas gastas,
queimadas,
a evidência entumecida sob as saias,
ali onde lhes palpitem neurónios volvidos fusíveis...
tão céleres face ao abismo, tão vagas nos prazeres.
Nada a obstar, o mundo é mundo!
Que avance, freio nos dentes,
sabor a sangue e desespero,
mas ai
da
tão pouca exigência
nos dons essenciais,
nas horas nascidas para a perfeição do divino acto!
Insensatez de penugem...
Isto apenas as redime: a que lhes sabe o vazio?
O depois, o depois, o depois...
Sabem, ao menos, a quem se vendem?
Isto lhes ensinam: oferece-te ou vende-te.
A que sabe aquilo - tudo aquilo - que no percurso não deu luta?...
Vertical, guardo o leito para as quatro paredes.
Só quero os olhos dele, os olhos dele, os olhos dele
que se abrem de espanto
quando passo e me
queimam colo, braços e ancas, narinas
abertas, ele inala-me
e quase fabrica em público
um beijo que quero só nosso,
despenteado contra a parede
que
são as suas mãos esguias
de cobre,
o beijo
enlouquecido de tão lento,
como o meu corpo se dá
nas horas perfumadas de
"alta vai a noite e eu em ti".
Como ela, elevo-me aí: dentro
da cidade, mas
fora
das ruas.
E os olhos dele, os olhos dele, esses olhos que me despem
e sabem
que sou só deles
enquanto me chamem sua.
Como a sombra e o reflexo de tudo o que se espelhe no sol.
O branco e o negro.
Definitivamente, não sou como as mulheres
todas que me passam nas ruas
o testemunho daquilo que não quero, abomino, execro por força.
Faço-me única.
Ele sabe que valho um tesouro
e
uma
coisa
dessas
não se expõe nas ruas da minha, da cidade dele,
nas alamedas sob o sol.
Eu sou da sombra: liquefaço-me apenas
à ordem de uma voz que é luz e é
umbrosa,
vibratória
nas cordas vocais que são minhas,
me perfura até ao âmago da electrização
nocturna entre alvos,
ondulantes,
gemidos
lençóis
de-um-homem-só
que se perde.
Venturosamente,
perde-se algures
na cidade
que é o meu corpo
risonho e sinuoso
aos poucos
deleitado
:
alvinegro
exoceto
!
.

16.4.07

Proverbial[mente re]provável

No sexo e em democracia, tudo vale.
«No amor e na guerra, vale tudo.»

Sub rosa


Ankh, Cátaros & Cruzada albigense (ter uma amiga de Albi (B.C.) com projectos anti-messiânicos contará?), Concílio de Niceia, seus Blasfemos, Apóstatas e Cismáticos, Culto da Deusa, Geometria sagrada & Proporção dourada ou Rectângulo dourado (estará em mim além dos meros dados científicos da simetria, uma vez que sou conhecida como La Joconde?), Gnósticos (fiz parte, hei-de voltar), Heresia Ariana (Ário como ideia viajou muito, desde então, tal como as ideias de Manés), José de Arimateia, Madonas Negras (e Vierges en majesté, conheço), Merovíngios, Opus Dei (assisti, vi por dentro, quiseram "requisitar-me", quando na casa dos vinte), Pentagrama (disseram-me que usasse), Sequência Fibonacci (desde ela, irracional amor pelos números) e Hermes Trimegisto... *. Ego sum.


Quanto às doze questões que coloca o livro da ** - considerando que se tenha respondido sim a, pelo menos, uma delas, sabe-se que sim, que se é tal - "já experimentou a interacção de um campo energético exterior sobre a sua própria (...)**", respondi "SIM" a... 12!


** aura


O documentário sobre a suposta descoberta do túmulo d'Ele e da sua família hoje na sic, o debate que se seguiu, tudo vai de encontro a algumas das leituras que faço no momento. Como foi possível ter lido exactamente hoje sobre aquilo? Outras estranhezas têm acontecido: as premonições aumentam a um ponto que não poderei contar à família ou aos amigos... Certezas inabaláveis, feelings sobre mortes próximas, leitura prévia de acontecimentos tornados factos daí a dias...


Tudo isto me inspirou para novo conto. Por uma vez, seguirei as modas: serei mais uma curiosa. Entretanto, já decidira: volto à gnose. Nunca tinha sido tão feliz como então: se antes era feliz pelo amor ao que é simples, o espírito que me indicaram que desenvolveria face ao invisível tolda-me dias e noites. Não poderei continuar indiferente à força do meu espírito. É a obra de Deus, mas sem a clausura das organizações. Ego sum. Vigilante do meu posto no planeta. Consciente de mim.



* COX, Simon, O Código Da Vinci Descodificado.

Ler, sem falta, a origem do que trouxe às massas estúpidas e inanes sem Deus nem lei a moda da gnose: Holy Blood, Holy Grail, de Baigent, Lincoln e Leigh, mesmo sabendo que foi De Boron que inventou a lenda em volta de um recipiente inexistente (le graal) e The Woman with the Alabaster Jar, de Margaret Starbird, sobre o papel da mulher no sagrado.



Sub rosa estis

12.4.07

Tudo

«Gostava de ter assim músicas bonitas, só minhas, gravadas só para mim, as favoritas. Para quando viajo com o pai, sabes?, agora que já não temos nada a dizer um ao outro.»

Ela disse - uns cinquenta anos, sorrindo - ao filho de vinte anos, na mesa ao lado da minha, no restaurante que amo.


---
«Tia, há quanto tempo me adoras? (...) E quando descobriste que me adoravas?»
A Inês, seis anos, na cozinha da vivenda, enquanto a ajudava com os tpc (um cozinhado de frases para Português) e encostava a cabeça ao meu ombro morno e ansioso da ternura da infância onde ainda vivo.
---
«Não é contigo que vivo, mas é a ti que quero ardentemente. Todos os dias.»
Disse-lhe ele (quarenta e três anos) a ela (trinta e sete) e isso humedeceu-lhe corpo e boca toda a noite, disse ela esta manhã na sala de professores aos meus olhos arregalados, aquecendo-me a alma pelo seu desejo aceso de mulher com garras de cetim que se molha sem andar à chuva, mas com os seus próprios sonhos. Amo-te, amiga.
---
De que cor é a minha aura?
Pergunto-lhe eu a si, meu leitor...

5.4.07

Nausea(vaga)bundos(mente)

Apetece pôr um ar cínico e dizer-lhes: «Longe com o enjoo...».
Foi sempre assim: similitude entre a arma de arremesso "livros lidos" e/ou publicados; uma mulher enfeitada como árvore de natal; um blog que se esforça de mais. Tudo deveria ser natural como numa primeira vez! Tudo o mais, máscaras. Abomináveis máscaras. O tédio que fazem os necessitados de aprovação! Penduram-se em nós como os pretendentes que queremos imperiosamente, oxigenadamente, impertinentemente ignorar. Apetece-me, a mim (só por mim me responsabilizo) pôr o ar com que Bogart chamava "kid" a Bacall, mas um ar mais sentidamente cínico e dizer-lhes «You just try too much... You try too much!». São penosos, os que se esforçam demasiado. Sísifo(s)?... Os franceses, melhores definidores mundiais do-que-quer-que-seja diriam: "pénible..."! (I' nous emmerdent cet'espèce de cons, putain: y en a marre!...)
Bof...
:P

2.4.07

Em nome dos primórdios,

volto a casa.

Maré vaza, vigésima terceira hora
do dia segundo do quarto mês.
Frente ao mar de todos os dias adentro-me no vento norte, junto à rebentação. Animais esparsos e, como eu, nocturnos, despojam-se das máscaras do medo. Lentamente, deixam marcas da areia que a água há-de levar, não tarda. O casaco invernal - como a lezíria, azul-petróleo, para lá da brancura das cristas que afloram aos meus pés nus - aconchega-me o corpo emagrecido de hábitos mundanos. Esta sobriedade é-me familiar: assim começou tudo. Encosto-me a um dos barquinhos espumosos de caruncho que a carne-viva das tintas coloridas encobre e repenso caminhos. De sonhos proféticos, sonhava a queda em escadas velozes, havia já uma semana... Assim foi: areia de praia nos degraus da casa derrapou-me os pés ligeiros. Resultou um braço negro como o breu da noite que me cerca. Areia da fina... O mar chamava-me! A vida tem este hábito de parar-me se acelero, de dizer-me "Olha em volta: que vês?"... Olho. Agora, mais nítida do que nunca, a minha estrada. Cumpro a promessa feita e quem me ama como sou: "Prometa-me, V., que nunca deixará de escrever... Prometa-me!". Prometo. Mas não esqueço a ascese: privo-me de mundo, de amores, de vícios, de danças, de tempos perdidos no som e em fúrias. Eis-me tábua-rasa! Eis-me ao serviço de outros que me pedem tanto! Eis-me com mais para dar do que para receber. É a sina, é a Lei, é a única redenção: há mais prazer em dar do que em receber. Assim é, desde sempre. Aceito. Calo. Oiço, observo, escolho, sorrio de mim e dos medos de antes. De tudo, poucas vezes, mas muito a cada uma: amor, alimento, músicas viciantes, simpatia de infância, a que confia cegamente. Despojamento, ausência, silêncio. Nasce-se só. Morre-se só. O resto é mero ruído que apenas a contemplação entrecorta: volta-se, então, a Casa. O mar é já estar em casa. Concha. Nicho. Ninho. Calidez que só a gélida aragem pode trazer. Tudo o mais, efemérides, borboleteando mentes dispersas. Saber para onde se vai, aceitar as pedras do caminho, e sempre, sempre, sempre, o auto-conhecimento por padrão. Consciente: agora, neste momento, aqui, no silêncio, escrevo. Saboreio isso. O corpo lança ferros aqui; o espírito vagueia algures sobre as águas de azul-indigo que há dias sobrevoo em sonhos. E isso, que quererá isso dizer? Espero por sinais. Consciente de aqui estar, sensitiva, alerta, sedenta de sinais.

Era


uma vez um dia. Chamaram-lhe, dos de Abril, o primeiro. Diz-se que nesta fase nascem as grotescas mulheres-carneiro (nunca conheci uma que não fosse ignóbil, tudesca e infeliz ou as três coisas em feixe e imagino-as - a todas e não, não lamento - com mau hálito, de fel feliniano e péssimos acordares, o que as embarca, de todo, no asco do néant).
Quando acordei, saltei em cima da cama como os miúdos dessa gente malcriada que se hão-de drogar um dia, enfeitei as horas com gavinhas em entrelaçamentos de sinuosas curvas ao som da quinta música dos Gotan e dancei descalça pela casa. Portava-me descaradamente mal e sabia-o. Tive fome - o estômago rugiu, enfático - e lancei-me na direcção da geleia nas tostas com leite branco, magro, morno, insípido mas azedo. Soube-me bem, contudo. Atirei ao ar as peças do pijama e as interiores em seguida - ele não drmiu cá, pelo que tive mais frio mas acordei vestida, o que é, por si só, uma maçada, mas dá jeito para o pequeno-almoço - e assim fui, tangoleante (odeio tudo o que o orangotango implique - chamo-lhe assim, ao simiesco tom da dança porque as mulheres parecem, nele, bonecas de trapos nas mãos de um rústico), casa fora, já despidinha até ao duche e, apesar da violenta contradição de dançaricar algo que me irrite, posso afirmar que bem disposta estava, estava. A água sentia-se ansiosa por escorrer até ao mar de novo... Viria a fazer-lhe a vontade, mas por ora, deixava-a presa em banho-imersivo : acordei uma hora depois, já fria, a pele já ofelializada*, mas o nenúfar* não estava nas minhas mãos. Estaria, agora, no peito, asfixiando-me para sempre? Tant pis, je m'afolle et je m'en fous! Raios m'a partam se não sou feliz quando escrevo sobre controvérsias e se isto é mentira, vai já outra! Irritas-me, sabes? Não gosto nadinha de ti, pá, palermita, pacóvio, andacákésmeu!


;0)

* Bom dia, Shakespeare, pavão de palavras acertadas pelas mesmas cores das penas!
* Bom dia, Boris Vian, délicieux taré que j'aimerais avoir intellectuellement, amoureusement, sexuellement connu (não necessariamente por esta ordem)!

1.4.07

Morre, poesia, morre!

"Procaz"! (não, não era "loquaz" que eu queria, criatura, era "procaz"... lapso!)
Assim é este medium e o seu nome é blogs.
Por ter sido na blogspot assumido o ridículo brasileirismo "blogues" (argh!)
transportei eu o "histórico" para o sul desta casa do farol.
Não terei de ver a estupidez aqui crachée, capice?
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Duvido

muito de um intelectual a quem a palavra "tuga(s)" sai como perdigoto pelos interstícios dentários. É imperdoável descuido; o pingo de tinta na caligrafia; a mosca poisada na pevide da canja; a cereja do bolo em acastanhados de murchidão. Levo a mão à fronte e assento-lhe palmada aberta e clapante, olhos revirados, qual Charlie Brown: «They just don't get it, do they?...».
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Seixos rolados

Gato preto junto ao stop. O motard caído por terra na estrada em obras. A ambulância com atraso. Morte declarada. E o filho que nem era dele... Enganado, recordou, já no fim, que ela sempre fora fraca de vontade quanto a homens: continuava a procurar cama quente, se possível, junto de alguém com poder que lhe desse brilho à baça existência de que a sua fealdade era apanágio. Uma sobra que fica com sobras. A juntar a isso, o facto de os filhos pagarem - as mais das vezes - pelos pecadilhos dos pais já não o incomodaria. Dele sobraram partes avulsas à mistura com fluidos sobre a berma, bem dentro da berma, onde se amontoavam, vindos de uma praia e destinados a remate de passeio, delicados, poéticos, irónicos seixos rolados.

5 Outubro 06.
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Aviso quid pro quo

Há pão na caixa. Há assado no forno.
Não te metas no 1º da 2ª;
Quanto à 1ª, evita as migalhas, sim?
Como é óbvio, estarei a dormir.
Deixa-me em paz:
acorda-me e faz amor comigo!
;0)

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Toma lá ar(te)!
Ele - És mais sensual do que um quadro de Klimt.
Ela - Queres ser o Klimt na minha próxima fantasia?
Ele - Ruivo e tudo?...
Ela - Sem isso, nada! Queres ou não queres?
Ele - Queres que eu seja? Serás a Emilie... Vögel, não era?
Ela - 'Tá bem. Mas quero o vestido azul.
Ele - O meu gato pode assistir?
Ela - Amiguinho, sem gato, não há Klimt p'ra ninguém!
Ele - E não posso ser o Robinson Crusoé?
Ela - Gosto mais do Sexta-feira. Mas isso, só no sábado. Hoje, Klimt e as suas tésseras.
Ele - Hasta! Vou p'ra casa fabricar a bata que ele usava no atelier!...
Ela - Ok. Eu dispo-me de Emilie. Ah, a tua mãe não está incluída no pack e não te esqueças das purpurinas: sem dourados de orientalismo, nicles!...

27.3.07

NGM



"Santuários" onde espécies são protegidas da acção dos humanos.
Imagens que os meus olhos nunca poderão testemunhar
nos lugares exactos onde ocorrem.
A noção acabada e, portanto, perfeita
de que há milhões de aspectos pelos quais dar Graças, apesar de tudo.
O poder de ver por dentro, devorar com os olhos,
quase cheirar África,
Sentir o olhar inexpressivo, gelado dos habitantes marinhos,
rever em imagens tecnicistas o esquema falsamente colorido
da explosão de uma estrela,
ver de cima o mundo de todos os que vão morrer
e que Te saúdam.
Diariamente.
Obrigada,

8.3.07

Vidro fosco

Uma formação em V movimenta-se no céu molhado sobre o meu carro: aves migratórias. Desde a infância, não viam os meus olhos tal beleza. Março entra e, logo ao seu segundo dia, o tempo diz-me que muda.
Sete. Cabalísticas e envoltas em penas cinza como as nuvens, as seis dos braços abertos do V seguem a do vértice, um ponto cardeal dentro do vento. Dirigem-se para norte, cortam-me a linha do horizonte, desviando-me o curso do olhar em delta que se abre sobre o mar na linha do horizonte. Avançam. Sigo-as pelo vidro direito do meu carro gotejante de chuva. Instintivamente, diminuição de velocidade: como não entender esta paz que me faz apelos em forma de sinal dos deuses? Cabe-me trazer nos ouvidos o som cavo da chuva nas palmas das mãos abertas; na boca o travo do sal açucarado dos teus beijos; nas narinas pequenas e vibrantes o fluxo de ar em torrentes dos sensitivos; nas polpas dos dedos a forma exacta da tua boca; nos ouvidos os sons do que é alado e enche os vazios entre as plumas com ar frio volvido morno aconchego.
A continuar as suas provocações como o tem feito, a natureza só poderá levar-me de volta à mulher que fui nos primórdios. Então, não poderás culpar-me de te lançar feitiços. Só a natureza explica que se meça a pulsação pelo latejar da seiva nos veios das folhas. Só ela sabe a que ponto me alimento dos cinco sentidos. É ela a única culpada. Cede. Em nome da formação de aves em flecha rente à costa, estarás em casa. Digo-te isto como unívoca verdade - por ser a minha - através do vidro fosco com células neuronais que trago na arcada torácica. Há quem lhe chame alma. Como aqueles pássaros, voo em rota de colisão com o teu peito morno onde me seguras o rosto que se esmaga devagar em amálgamas de boca em sede.

Dilema