14.5.07

Escala planetária

Algures na Bulgária (Plovdiv?),
um(a) leitor(a) mantém-se fiel
ao meu bloguinho.
Já se contabiliza
a fidelidade em horas.
Impõe-se uma questão:
ZA CHTO?

4.5.07

25.4.07

Redacção: a liberdade



Dizem que andou por aí, hoje. Eu vi-a. Creio que era ela.


Ia a desaparecer por detrás de uns prédios, os daquele construtor que apodrece de tanto empreendimento lucrativo e não retoca as paredes com fissuras pelas quais se infiltra a água que entra nas casas dos moradores que não podem pagar a advogados.
Devia estar também no corpo daquela miúda de uns dezasseis que, alcoolizada, seguia com saltos vermelhos abraçada a um quarentão agarrado que lhe abocanhava o corpo gasto de tanto sexo pago.
Talvez fosse o cravo na lapela daquela mulher antiquíssima que trabalhou na fábrica e nunca conduziu um carro, accionou uma máquina de secar roupa ou teve opção de escolha entre ter um filho e abortá-lo, porque então eram os homens que mandavam.
Seria, por acaso, a voz dos meus alunos de oitavo ano que me diziam ter descoberto, há dias, os blogs nacionais e terem-se envergonhado porque as senhoras que neles escrevem têm linguagem carroceira e não terão, definitivamente, nascido para o apostolado do bom-senso nem para o que quer que seja a maternidade, "porque de filhos de gente dessa já as escolas estão pleníssimas, abarrotadiças" e um deles afirmou ser isso a tal liberdade de expressão.
Não afasto, de todo, a hipótese de ser aquela música que saltava pelas janelas de um vizinho amante de decibéis metalizados, ou os gritos da vizinha que gosta demasiado da cópula para perceber de sexo ou entender que é no silêncio e/ou nos sussurros que se experimenta o maior prazer, mas que entende ela de gnose?...
Está, seguramente, algures num quadro de Delacroix, mas esse está demasiado longe, num museu e o povo não precisa que a Liberdade o guie, porque ele me recorda muito mais, neste preciso momento histórico, os cegos do quadro de Brueghel O Velho que se deixam conduzir por um outro, como na parábola bíblica, com consequências óbvias.
Porventura estará nos corpos de criança tatuados a cigarro, chicote, colher-de-pau, chinelo, navalha, que têm de ser observados em urgências de hospital onde os progenitores alvitram possíveis quedas na escada, em liberdades de expressão englobando a fúria de viver.
Está, creio, nas quantidades imensas de água que gasto em limpezas de casa, banhos, máquinas de roupa, porque posso e sou livre de gastar na minha medida, embora saiba que por isso pagarão as gerações futuras, paladinas de outras causas porventura ainda mais perto do atributo perdidas.
Vi e ouvi, na abóbada, reflexos dos risos da miudagem que hoje lançou papagaios, balões e frases-feitas para adulto sorrir com cinismo. Havia palavras de ordem, risos e cravos - aziaga flor de odor tóxico, má escolha, duvidosos gostos de maiorias - além de pretensos credos de "somos felizes assim"...
Não me acabrunhei. Segui, risonha, mas discreta. Cravei o meu olhar nas crianças do consultório onde esperei três horas, após ter pago 65 euros, porque a liberdade tem um preço. Comi num restaurante bem onde se fumava e falava alto de mais. As mulheres presentes também tinham exercido a liberdade de pagar muitíssimo por pouco pano nas vestimentas e os homens, lúbricos, estrabizavam-se com tanta glândula mamária à discrição. Expressavam-se em liberdade ambos os lados, ambas as espécies convictas do bom uso do calão, em dia de igualdade, fraternos perante o "senhor dos anéis" que manipulava as travessas e elogiava a pueril facção y, rubro, casposo e de comiserável dentição. Pensei no conceito de classe. Tenho. Observo infinitesimais demonstrações de respeito pelos limites do excesso de cada um. Gosto da liberdade, mas uso-a com parcimónia. Não me acotovelo, não apologizo, antes oiço. Sou testemunha do meu tempo. O meu tempo é o melhor de sempre. Feliz, não me fecho, contudo, às dores nem ao vómito de vazio desconsolado em que vivem os menos circunspectos. Nasci para observar e cumpro o meu papel. Agradeço a Deus por não ser esta espécie de catarismo apanágio de maiorias: quem aguentaria, hoje, a contemplação da obra divina e seus desvios em nome da liberdade-livre-arbítrio?
Cumpro o meu papel de cronista. Cumpriu-se mais um dia. Creio que entrevi a tal liberdade quando oxigenava corpo e alma nas varandas e um grupo de mulheres fazia a caminhada diária em apressado, alegre bando. Os maridos - modernos guardiões do lar - terão, porventura, aproveitado para exercer liberdades que a espécie supostamente lhes outorga o direito de, como já ouvi à boca pequena dizer... De cima deste edifício, antigo farol semi-desactivado, sinto-me a mais livre das mulheres: insisto em caminhar a sós, ir ao cinema a sós, jantar a sós, conduzir eu os meus dias sem espécie dominante. Das noites, saberá Deus. A isso chamo liberdade: não dar contas a homem vivo das ínfimas revoltas diárias num mundo imperfeito e tosco, mas glabro e delicado como flor de estufa em precário equilíbrio.
Fecho o meu diário, enquanto a liberdade se encerra neste peito e se aconchega na carcela azul-celeste de mais uma camisa de noite que se fez fria como o é Abril. Amanhã, o país voltará a dar importâncias excessivas a cidadãos-eusébio, lobo-antunes e outras manobras de diversão de duvidoso bom-senso e bom gosto. Assim a caravana passará, estro em farrapos, esparsas mini-glórias, abjecções da tal liberdade, panis circensis... Fechar os meus olhos às modas é a minha não-servidão.
Quanto à liberdade, creio que andou por aí hoje. Eu vivi-a. Creio que era a isso que me sabia a boca quando uma criança anónima me estendeu uma papoila acabada de trazer de um campo perto de Azimutes. Creio que a multidão estava rubra de ópios vários e choro por dentro a vermelho quando digo que nunca antes a vi tão pouco convicta... Em teu nome só, liberdade, perdoo aos iconólatras de um pequeno país a que chamo meu. Por tantos excessos se tornou a liberdade maniforme e ganhou força a sinistra. Segura-te, democracia! O círculo fecha-se sobre ti. Que poder terá, então, um cravo? Sonha-se de mais. A História repete-se sempre que as memórias se encurtem subvertidas, alheadas, anestesiadas de medo. Num cenário de diletantes onde nunca mais voltará a inocência da trintona liberdade, será muito mais difícil actuar, um dia. Porque ousa mais o ignaro que acredita com fé pura do que aquele que sabe o preço de um não, mas prefere lamentar um destino que teima em eternizar avesso. Aos 33, espelha-se a liberdade no seu contrário: o direito à liberdade de anuir à ruína... Também isto é liberdade: expresse-se o hodierno, lúcido, irónico nojo.

20.4.07

Proverbial[mente re]provável - II

O alheio plagia: na praça serás aplaudido
(, cloaca!).
«Quem o alheio veste, na praça o despe.»

19.4.07

Alvinegro

Sigo, perfilando-me com os prédios da cidade
morna.
Estou morna com ela, dúctil, infinita
deslizo, morte a caminho,
vida latejante em mim,
medito, passo a passo,
no que os meus olhos devoram
de mundo,
de mundo,
tanto mundo!
Vestida,
nua a alma: sóbria!
Tudo o que seja de vértices
se estreita no campo
da visão e imiscui filamentos
de vidas - muitas outras -
nesta que é, ainda, a minha.
As bacantes desfilam, calça
branca transparente, seios
que saltam,
detestável vulgaridade à transparência, elas
dão tudo ao transeunte, revolvem-nos
estômagos, encaloram
os imbecis por culto.
Quase há - a troco pouco - acidentes,
ridículos acidentes
("distraí-me com os meneios de uma porca que passava..." e
até verem os filhos à noite,
quantas
vezes
pensaram eles em
sexo,
os falaciosos anónimos,
acefálicos desesperados?)
...
A discreta sensualidade
quase jaz,
o mistério perde-se,
a evidência aterroriza,
asqueriza-me
os dias brancos por norma,
essa altervulgaridade.
Sem subtileza,
deslizamentos de graça,
movimentos sinápticos dignos de nota,
fazem-me pena as óbvias
mulheres
quase-gente,
sacos de pancada,
desesperadas de homens por minutos, homens só
que se esvaiam
em minutos,
gatas gastas,
queimadas,
a evidência entumecida sob as saias,
ali onde lhes palpitem neurónios volvidos fusíveis...
tão céleres face ao abismo, tão vagas nos prazeres.
Nada a obstar, o mundo é mundo!
Que avance, freio nos dentes,
sabor a sangue e desespero,
mas ai
da
tão pouca exigência
nos dons essenciais,
nas horas nascidas para a perfeição do divino acto!
Insensatez de penugem...
Isto apenas as redime: a que lhes sabe o vazio?
O depois, o depois, o depois...
Sabem, ao menos, a quem se vendem?
Isto lhes ensinam: oferece-te ou vende-te.
A que sabe aquilo - tudo aquilo - que no percurso não deu luta?...
Vertical, guardo o leito para as quatro paredes.
Só quero os olhos dele, os olhos dele, os olhos dele
que se abrem de espanto
quando passo e me
queimam colo, braços e ancas, narinas
abertas, ele inala-me
e quase fabrica em público
um beijo que quero só nosso,
despenteado contra a parede
que
são as suas mãos esguias
de cobre,
o beijo
enlouquecido de tão lento,
como o meu corpo se dá
nas horas perfumadas de
"alta vai a noite e eu em ti".
Como ela, elevo-me aí: dentro
da cidade, mas
fora
das ruas.
E os olhos dele, os olhos dele, esses olhos que me despem
e sabem
que sou só deles
enquanto me chamem sua.
Como a sombra e o reflexo de tudo o que se espelhe no sol.
O branco e o negro.
Definitivamente, não sou como as mulheres
todas que me passam nas ruas
o testemunho daquilo que não quero, abomino, execro por força.
Faço-me única.
Ele sabe que valho um tesouro
e
uma
coisa
dessas
não se expõe nas ruas da minha, da cidade dele,
nas alamedas sob o sol.
Eu sou da sombra: liquefaço-me apenas
à ordem de uma voz que é luz e é
umbrosa,
vibratória
nas cordas vocais que são minhas,
me perfura até ao âmago da electrização
nocturna entre alvos,
ondulantes,
gemidos
lençóis
de-um-homem-só
que se perde.
Venturosamente,
perde-se algures
na cidade
que é o meu corpo
risonho e sinuoso
aos poucos
deleitado
:
alvinegro
exoceto
!
.

16.4.07

Proverbial[mente re]provável

No sexo e em democracia, tudo vale.
«No amor e na guerra, vale tudo.»

Sub rosa


Ankh, Cátaros & Cruzada albigense (ter uma amiga de Albi (B.C.) com projectos anti-messiânicos contará?), Concílio de Niceia, seus Blasfemos, Apóstatas e Cismáticos, Culto da Deusa, Geometria sagrada & Proporção dourada ou Rectângulo dourado (estará em mim além dos meros dados científicos da simetria, uma vez que sou conhecida como La Joconde?), Gnósticos (fiz parte, hei-de voltar), Heresia Ariana (Ário como ideia viajou muito, desde então, tal como as ideias de Manés), José de Arimateia, Madonas Negras (e Vierges en majesté, conheço), Merovíngios, Opus Dei (assisti, vi por dentro, quiseram "requisitar-me", quando na casa dos vinte), Pentagrama (disseram-me que usasse), Sequência Fibonacci (desde ela, irracional amor pelos números) e Hermes Trimegisto... *. Ego sum.


Quanto às doze questões que coloca o livro da ** - considerando que se tenha respondido sim a, pelo menos, uma delas, sabe-se que sim, que se é tal - "já experimentou a interacção de um campo energético exterior sobre a sua própria (...)**", respondi "SIM" a... 12!


** aura


O documentário sobre a suposta descoberta do túmulo d'Ele e da sua família hoje na sic, o debate que se seguiu, tudo vai de encontro a algumas das leituras que faço no momento. Como foi possível ter lido exactamente hoje sobre aquilo? Outras estranhezas têm acontecido: as premonições aumentam a um ponto que não poderei contar à família ou aos amigos... Certezas inabaláveis, feelings sobre mortes próximas, leitura prévia de acontecimentos tornados factos daí a dias...


Tudo isto me inspirou para novo conto. Por uma vez, seguirei as modas: serei mais uma curiosa. Entretanto, já decidira: volto à gnose. Nunca tinha sido tão feliz como então: se antes era feliz pelo amor ao que é simples, o espírito que me indicaram que desenvolveria face ao invisível tolda-me dias e noites. Não poderei continuar indiferente à força do meu espírito. É a obra de Deus, mas sem a clausura das organizações. Ego sum. Vigilante do meu posto no planeta. Consciente de mim.



* COX, Simon, O Código Da Vinci Descodificado.

Ler, sem falta, a origem do que trouxe às massas estúpidas e inanes sem Deus nem lei a moda da gnose: Holy Blood, Holy Grail, de Baigent, Lincoln e Leigh, mesmo sabendo que foi De Boron que inventou a lenda em volta de um recipiente inexistente (le graal) e The Woman with the Alabaster Jar, de Margaret Starbird, sobre o papel da mulher no sagrado.



Sub rosa estis

12.4.07

Tudo

«Gostava de ter assim músicas bonitas, só minhas, gravadas só para mim, as favoritas. Para quando viajo com o pai, sabes?, agora que já não temos nada a dizer um ao outro.»

Ela disse - uns cinquenta anos, sorrindo - ao filho de vinte anos, na mesa ao lado da minha, no restaurante que amo.


---
«Tia, há quanto tempo me adoras? (...) E quando descobriste que me adoravas?»
A Inês, seis anos, na cozinha da vivenda, enquanto a ajudava com os tpc (um cozinhado de frases para Português) e encostava a cabeça ao meu ombro morno e ansioso da ternura da infância onde ainda vivo.
---
«Não é contigo que vivo, mas é a ti que quero ardentemente. Todos os dias.»
Disse-lhe ele (quarenta e três anos) a ela (trinta e sete) e isso humedeceu-lhe corpo e boca toda a noite, disse ela esta manhã na sala de professores aos meus olhos arregalados, aquecendo-me a alma pelo seu desejo aceso de mulher com garras de cetim que se molha sem andar à chuva, mas com os seus próprios sonhos. Amo-te, amiga.
---
De que cor é a minha aura?
Pergunto-lhe eu a si, meu leitor...

5.4.07

Nausea(vaga)bundos(mente)

Apetece pôr um ar cínico e dizer-lhes: «Longe com o enjoo...».
Foi sempre assim: similitude entre a arma de arremesso "livros lidos" e/ou publicados; uma mulher enfeitada como árvore de natal; um blog que se esforça de mais. Tudo deveria ser natural como numa primeira vez! Tudo o mais, máscaras. Abomináveis máscaras. O tédio que fazem os necessitados de aprovação! Penduram-se em nós como os pretendentes que queremos imperiosamente, oxigenadamente, impertinentemente ignorar. Apetece-me, a mim (só por mim me responsabilizo) pôr o ar com que Bogart chamava "kid" a Bacall, mas um ar mais sentidamente cínico e dizer-lhes «You just try too much... You try too much!». São penosos, os que se esforçam demasiado. Sísifo(s)?... Os franceses, melhores definidores mundiais do-que-quer-que-seja diriam: "pénible..."! (I' nous emmerdent cet'espèce de cons, putain: y en a marre!...)
Bof...
:P

2.4.07

Em nome dos primórdios,

volto a casa.

Maré vaza, vigésima terceira hora
do dia segundo do quarto mês.
Frente ao mar de todos os dias adentro-me no vento norte, junto à rebentação. Animais esparsos e, como eu, nocturnos, despojam-se das máscaras do medo. Lentamente, deixam marcas da areia que a água há-de levar, não tarda. O casaco invernal - como a lezíria, azul-petróleo, para lá da brancura das cristas que afloram aos meus pés nus - aconchega-me o corpo emagrecido de hábitos mundanos. Esta sobriedade é-me familiar: assim começou tudo. Encosto-me a um dos barquinhos espumosos de caruncho que a carne-viva das tintas coloridas encobre e repenso caminhos. De sonhos proféticos, sonhava a queda em escadas velozes, havia já uma semana... Assim foi: areia de praia nos degraus da casa derrapou-me os pés ligeiros. Resultou um braço negro como o breu da noite que me cerca. Areia da fina... O mar chamava-me! A vida tem este hábito de parar-me se acelero, de dizer-me "Olha em volta: que vês?"... Olho. Agora, mais nítida do que nunca, a minha estrada. Cumpro a promessa feita e quem me ama como sou: "Prometa-me, V., que nunca deixará de escrever... Prometa-me!". Prometo. Mas não esqueço a ascese: privo-me de mundo, de amores, de vícios, de danças, de tempos perdidos no som e em fúrias. Eis-me tábua-rasa! Eis-me ao serviço de outros que me pedem tanto! Eis-me com mais para dar do que para receber. É a sina, é a Lei, é a única redenção: há mais prazer em dar do que em receber. Assim é, desde sempre. Aceito. Calo. Oiço, observo, escolho, sorrio de mim e dos medos de antes. De tudo, poucas vezes, mas muito a cada uma: amor, alimento, músicas viciantes, simpatia de infância, a que confia cegamente. Despojamento, ausência, silêncio. Nasce-se só. Morre-se só. O resto é mero ruído que apenas a contemplação entrecorta: volta-se, então, a Casa. O mar é já estar em casa. Concha. Nicho. Ninho. Calidez que só a gélida aragem pode trazer. Tudo o mais, efemérides, borboleteando mentes dispersas. Saber para onde se vai, aceitar as pedras do caminho, e sempre, sempre, sempre, o auto-conhecimento por padrão. Consciente: agora, neste momento, aqui, no silêncio, escrevo. Saboreio isso. O corpo lança ferros aqui; o espírito vagueia algures sobre as águas de azul-indigo que há dias sobrevoo em sonhos. E isso, que quererá isso dizer? Espero por sinais. Consciente de aqui estar, sensitiva, alerta, sedenta de sinais.

Era


uma vez um dia. Chamaram-lhe, dos de Abril, o primeiro. Diz-se que nesta fase nascem as grotescas mulheres-carneiro (nunca conheci uma que não fosse ignóbil, tudesca e infeliz ou as três coisas em feixe e imagino-as - a todas e não, não lamento - com mau hálito, de fel feliniano e péssimos acordares, o que as embarca, de todo, no asco do néant).
Quando acordei, saltei em cima da cama como os miúdos dessa gente malcriada que se hão-de drogar um dia, enfeitei as horas com gavinhas em entrelaçamentos de sinuosas curvas ao som da quinta música dos Gotan e dancei descalça pela casa. Portava-me descaradamente mal e sabia-o. Tive fome - o estômago rugiu, enfático - e lancei-me na direcção da geleia nas tostas com leite branco, magro, morno, insípido mas azedo. Soube-me bem, contudo. Atirei ao ar as peças do pijama e as interiores em seguida - ele não drmiu cá, pelo que tive mais frio mas acordei vestida, o que é, por si só, uma maçada, mas dá jeito para o pequeno-almoço - e assim fui, tangoleante (odeio tudo o que o orangotango implique - chamo-lhe assim, ao simiesco tom da dança porque as mulheres parecem, nele, bonecas de trapos nas mãos de um rústico), casa fora, já despidinha até ao duche e, apesar da violenta contradição de dançaricar algo que me irrite, posso afirmar que bem disposta estava, estava. A água sentia-se ansiosa por escorrer até ao mar de novo... Viria a fazer-lhe a vontade, mas por ora, deixava-a presa em banho-imersivo : acordei uma hora depois, já fria, a pele já ofelializada*, mas o nenúfar* não estava nas minhas mãos. Estaria, agora, no peito, asfixiando-me para sempre? Tant pis, je m'afolle et je m'en fous! Raios m'a partam se não sou feliz quando escrevo sobre controvérsias e se isto é mentira, vai já outra! Irritas-me, sabes? Não gosto nadinha de ti, pá, palermita, pacóvio, andacákésmeu!


;0)

* Bom dia, Shakespeare, pavão de palavras acertadas pelas mesmas cores das penas!
* Bom dia, Boris Vian, délicieux taré que j'aimerais avoir intellectuellement, amoureusement, sexuellement connu (não necessariamente por esta ordem)!

1.4.07

Morre, poesia, morre!

"Procaz"! (não, não era "loquaz" que eu queria, criatura, era "procaz"... lapso!)
Assim é este medium e o seu nome é blogs.
Por ter sido na blogspot assumido o ridículo brasileirismo "blogues" (argh!)
transportei eu o "histórico" para o sul desta casa do farol.
Não terei de ver a estupidez aqui crachée, capice?
____________________________
Duvido

muito de um intelectual a quem a palavra "tuga(s)" sai como perdigoto pelos interstícios dentários. É imperdoável descuido; o pingo de tinta na caligrafia; a mosca poisada na pevide da canja; a cereja do bolo em acastanhados de murchidão. Levo a mão à fronte e assento-lhe palmada aberta e clapante, olhos revirados, qual Charlie Brown: «They just don't get it, do they?...».
-------------------------------------------------
Seixos rolados

Gato preto junto ao stop. O motard caído por terra na estrada em obras. A ambulância com atraso. Morte declarada. E o filho que nem era dele... Enganado, recordou, já no fim, que ela sempre fora fraca de vontade quanto a homens: continuava a procurar cama quente, se possível, junto de alguém com poder que lhe desse brilho à baça existência de que a sua fealdade era apanágio. Uma sobra que fica com sobras. A juntar a isso, o facto de os filhos pagarem - as mais das vezes - pelos pecadilhos dos pais já não o incomodaria. Dele sobraram partes avulsas à mistura com fluidos sobre a berma, bem dentro da berma, onde se amontoavam, vindos de uma praia e destinados a remate de passeio, delicados, poéticos, irónicos seixos rolados.

5 Outubro 06.
----------------------------------------------------------------------------------


Aviso quid pro quo

Há pão na caixa. Há assado no forno.
Não te metas no 1º da 2ª;
Quanto à 1ª, evita as migalhas, sim?
Como é óbvio, estarei a dormir.
Deixa-me em paz:
acorda-me e faz amor comigo!
;0)

-------------------------------------------------------
Toma lá ar(te)!
Ele - És mais sensual do que um quadro de Klimt.
Ela - Queres ser o Klimt na minha próxima fantasia?
Ele - Ruivo e tudo?...
Ela - Sem isso, nada! Queres ou não queres?
Ele - Queres que eu seja? Serás a Emilie... Vögel, não era?
Ela - 'Tá bem. Mas quero o vestido azul.
Ele - O meu gato pode assistir?
Ela - Amiguinho, sem gato, não há Klimt p'ra ninguém!
Ele - E não posso ser o Robinson Crusoé?
Ela - Gosto mais do Sexta-feira. Mas isso, só no sábado. Hoje, Klimt e as suas tésseras.
Ele - Hasta! Vou p'ra casa fabricar a bata que ele usava no atelier!...
Ela - Ok. Eu dispo-me de Emilie. Ah, a tua mãe não está incluída no pack e não te esqueças das purpurinas: sem dourados de orientalismo, nicles!...

27.3.07

NGM



"Santuários" onde espécies são protegidas da acção dos humanos.
Imagens que os meus olhos nunca poderão testemunhar
nos lugares exactos onde ocorrem.
A noção acabada e, portanto, perfeita
de que há milhões de aspectos pelos quais dar Graças, apesar de tudo.
O poder de ver por dentro, devorar com os olhos,
quase cheirar África,
Sentir o olhar inexpressivo, gelado dos habitantes marinhos,
rever em imagens tecnicistas o esquema falsamente colorido
da explosão de uma estrela,
ver de cima o mundo de todos os que vão morrer
e que Te saúdam.
Diariamente.
Obrigada,

8.3.07

Vidro fosco

Uma formação em V movimenta-se no céu molhado sobre o meu carro: aves migratórias. Desde a infância, não viam os meus olhos tal beleza. Março entra e, logo ao seu segundo dia, o tempo diz-me que muda.
Sete. Cabalísticas e envoltas em penas cinza como as nuvens, as seis dos braços abertos do V seguem a do vértice, um ponto cardeal dentro do vento. Dirigem-se para norte, cortam-me a linha do horizonte, desviando-me o curso do olhar em delta que se abre sobre o mar na linha do horizonte. Avançam. Sigo-as pelo vidro direito do meu carro gotejante de chuva. Instintivamente, diminuição de velocidade: como não entender esta paz que me faz apelos em forma de sinal dos deuses? Cabe-me trazer nos ouvidos o som cavo da chuva nas palmas das mãos abertas; na boca o travo do sal açucarado dos teus beijos; nas narinas pequenas e vibrantes o fluxo de ar em torrentes dos sensitivos; nas polpas dos dedos a forma exacta da tua boca; nos ouvidos os sons do que é alado e enche os vazios entre as plumas com ar frio volvido morno aconchego.
A continuar as suas provocações como o tem feito, a natureza só poderá levar-me de volta à mulher que fui nos primórdios. Então, não poderás culpar-me de te lançar feitiços. Só a natureza explica que se meça a pulsação pelo latejar da seiva nos veios das folhas. Só ela sabe a que ponto me alimento dos cinco sentidos. É ela a única culpada. Cede. Em nome da formação de aves em flecha rente à costa, estarás em casa. Digo-te isto como unívoca verdade - por ser a minha - através do vidro fosco com células neuronais que trago na arcada torácica. Há quem lhe chame alma. Como aqueles pássaros, voo em rota de colisão com o teu peito morno onde me seguras o rosto que se esmaga devagar em amálgamas de boca em sede.

Dilema

21.2.07

(Re) legado [para um outro plano] divino (?)

de 03 Outubro 2006

Legado

Perguntou a um velho:
- A quem dou todo o amor que trago no peito?
Ele olhou-a, vazio, deu aos ombros, voltou costas, a caminho da morte.
Perguntou a uma mulher que passava:
- A quem dou todo o amor que trago no peito, que o estala de dor, que me consome?
Ela sorriu e ignorou, cínica, vivida de corpo, vazia de mágoas, um pergaminho de casos.
Perguntou a Deus que a observava:
- A quem dou, Pai, todo o amor que trago no peito, que me escala em úlceras de dor?
Deus permaneceu insone, olhou condoído mas não sabia o que se faz a essa planta trepadeira que se instala no peito humano com raízes até ao pensamento, guiando os passos até ao outro corpo.
Perguntou ao tempo, à centelha da vida, ao vento norte:
- O que faço a tanto amor que me transborda, como o dou, a quem chamo, como gasto esta força que me devora e me dá luz aos olhos, me humedece cantos à boca, me estende os lábios na direcção daquele que me teleporta o corpo a todo o seu calor, me esventra a alma e se apossa dos mais ínfimos minutos do dia, suga da noite todos os sonhos, me devora de olhares acesos perante os olhos do mundo, me chama a si desde o primeiro segundo em que o mesmo ar inalámos?
O tempo não podia perder-se, a centelha divina cumpria-se a cada respiração e refluxo sanguíneo até que o tempo a impedisse, o vento norte corria, lesto, levando cabelos de amantes, águas das marés, enlaces de dedos desfeitos, lágrimas de gente que não sabe o que fazer do amor, mar alteroso.
Decidiu ignorar. Ainda hoje procura por si, altiva, perfeita, volvida fortaleza porque não sabia o que fazer do único ser que chega sem que o chamem e se instala, petrificante se instala no peito e se traz dentro, pesado, até que um outro corpo o reclame. Os humanos não se apercebem das vozes que lhes povoam a caixa entre a cintura e os olhos. Aí, ardem Tabernáculos, aí, a Arca da Aliança, aí, esse singelo amor que, em sendo tanto, tolhe o discernimento e cobre de pétalas violeta os olhos que esperam barcos. O cais são os dias todos.
Desta (de) sempre: Inês Alva

15.2.07

:D e volta



Boa noite, mundo!


Amei... e sobrevivi.

A insensatez esporádica

sempre me marcou no calendário os melhores dias.


Obrigada por terem visitado esta casa do farol!


Beijos cálidos,

agridoces,

infinitesimais de tão homeopáticos.

Lentos de mais nas aproximações, como convém.


[Hitchcock explicaria, Freud não]
Pelas imagens supra, percebe-se por onde andei?...
;0)

5.2.07

Aviso quid pro quo



Há pão na caixa. Há assado no forno.
Não te metas no 1º da 2ª;
Quanto à 1ª,evita as migalhas, sim?
Como é óbvio, estarei a dormir.
Deixa-me em paz:
acorda-me e faz amor comigo!
;0)

4.2.07

A mulher sadiM

Midas no seu inverso, ela nasceu para excretar. Com várias provas dadas, tudo o que toca se dissolve em pó. Afigura-se-lhe útil o tempo gasto sobre o planeta e crê-se insubstituível pelo simples, nefasto, despiciendo lugar-comum: reproduziu-se. O talento foi o de uma noite com um aventureiro do asfalto. Arrasta agora o corpo e as fressuras de alma para pagar o alimento de mais uma boca. Para isso, dispõe-se a vender tudo o que não seja a carne do filho. De resto, nada lhe sobra de digno. O que oferece é digno de um freak show. Sejamos incoerentes: chamemos-lhe apenas mau gosto. Nada disto concerne o matusalém rei Midas. Pelo contrário e, por isso mesmo, ao contrário, na mesma proporção em que a crucificação de Pedro inverte a de Jesus Cristo: o primeiro passou o resto da existência seguindo um modelo muito acima de si; o segundo carecia de mortalidade. A "mulher sadiM" é a parca sobra da mulher de talento. Um homem vende-se; uma mulher sadiM prostitui-se. Excrementa-se na babugem das noites. Desce, degrau a degrau, a escadaria entre O Dom e a banalização engargulante. Não importa o que lhe chame, ela embute nas suas fauces o preceito budista: «Tudo é vazio saído do vazio». Assim viveu, assim morrerá: nada a satisfaz, em nada evolui enquanto a sua única fome for a de ego satisfeito. Vazio é o que procura, vazio é o que encontra. Os seus olhos nunca deixarão o pó do chão que pisa e vale mais o pó do que uma só das suas gotas vitais. Por isso apodrece tudo o que a rodeia: é sua função voltar ao húmus, não ascender.