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27.8.08

"A" voz

Fairouz - Yalla Tnam Rima ("Dorme, Rima")
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Yalla tnam Rima,yalla yjeha elnaoum
Yalla theb elsala,yalla theb elsoum!
Yalla tjeeha alaouafee,kel yaoum beaoum
yalla tnam yalla tnam,ladbhla tayer elhamem
Rouh ya hamem la tkhafee, amekzoub a Rima tatnam
Rima rima elhandaa ,shara ashaar omnaaa
yalle habba bebousa,elbagada shou betraa
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Enquanto fui estudante Erasmus em França, esta canção de embalar tornou-me menos pesado o estudo do árabe. Recordava-me a minha mãe e a cadência da mais suave voz de Amália. É pena que a música do meu país seja quase só sobre o lamento e não tenha o pendor místico do país que a Bíblia eternizou pela beleza e perfume dos seus cedros (há um junto à igreja onde me baptizaram): o Líbano. Fairouz deve ser escutada de olhos fechados, como se, perante a sarça ardente, não só fosse sagrado o solo que se pisasse, mas também o éter que traz em si, juntamente com a paz, a mais divina das vozes.

23.11.07

Relapsa... eu

Fumo pela primeira vez. Tenho trinta e oito anos e quatro meses. Eram sete e quinze, momento histórico. Passa meia hora e não se me revolvem nem estômago, nem mãos em contrição... Na casa de família alguém mais novo abandonara um maço cinzento de SG. Por vontades sensuais, trouxe ontem comigo um cigarro, para sentir o que sentia um qualquer Marlboro man de canudo-papel preso ao beiço sensual como barco se ajeite sobre as águas. Aquele esmagamento do cigarro pendendo-me da boca deu-me um ar de Bellucci e brilharam-me os olhos de morbosidade: «Fica-me bem.», pensei. Nas mãos, na boca, no brilho dos olhos, no ar falsete dos fumadores que se julgam atraentes quando semicerram olhos por entre o fumo denso que sobe, reconheço-me fêmea, embora sempre tenha considerado ridículo quem quer que tivesse ou mantenha hábitos sociais de desculpa para estar, sentir, cultuar estilos, em fase oral freudiana não ultrapassada... Raios partam, raios partam, merdinha, pá: se fumasse, mais ainda haveria quem me rastejasse a estes pés gueixianos que se riem das regras da comunidade quando, descalços, pisam o chão que escolho eu. O quando, o onde, o como, «Que bem me fica a mim, a mim, raios partam... este apêndice a cair desta minha boca que é tua, com mil milhões de demónios!», pensava, enquanto travava fumo que já travara em ensaio, humedecendo o papel junto ao filtro com lábios sedentos de novos sabores agridoces. Soube-me bem, abriu veias, latitudes de prazer no corpo sedento de experiências além-trabalho, trabalho, trabalho! Partes que desconhecia do corpo fizeram-se nítidas: lembrei-me de ti! Agora, sabe-me a boca a ti: um sabor a papel perfumado, a madeiras de exotismo, a pecado, um misto de fundo de massa de pizza sabendo ao torrado do forno quente, o frutado dos teus beijos que me afogavam naqueles dias secretos em que, por ti, me fiz ousada até à surpresa destes olhos que se abriam ao abismo das lágrimas de gozo. Fizeste-me tu excessiva, ou recriaste em mim O monstro que agora te devora quando pedes tréguas, rindo do teu débito pulmonar, casquinado, arfante? «Raios te partam, homem, por quem me tomas? Estas noites não são para dormir», murmuro-te por vezes, enquanto te mordo a boca nimbada do cheiro do cigarro que te acendi eu mesma... Sejamos intelectuais (ou consumo-me na minha própria chama inclusa e mantida em fogo lento porque dá jeito ao conformismo que finjo aceitar): assumamos que não será este pequeno caos a minha incipiência favorita: transgredirei mais, ainda.






Sabes que mais? Não precisas de ensinar-me a fumar: da próxima vez, acendo na minha própria boca o cigarro que depois te colo aos lábios que terás de abrir para descerrar essa maxila de quem, sendo tão vivido, se deixa queimar por aquela a quem ensinou tudo o que sabe sobre as artes maléficas de ficar acordada toda a noite. Da próxima vez, um dos teus cigarros pertence-me. Tal como tu. Aposta ganha?... Sim, sou relapsa, admito. A noite já me corre nas veias e o corpo pede nova pele sob o fumo da tua boca tão pecadora como peregrina no mapa sem norte que eu sou. Despenteias-me... ou quê?

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= :)> (Mephistophélica!)

21.11.07

Privilégio


KURT ELLING - Undun (Nightmoves, 2007)

(Sobre)Viver para ouvir estas músicas torna válido - apesar de tudo - o tempo entre as paredes do hospital que me encerrou por dias. Entendo agora com mais acuidade o cheiro dos cedros sob a chuva, a paleta do poente sobre as árvores do jardim que via da janela, os sons dos pássaros se o dia tardava a nascer e as dores acossavam. Catéter, soro, movimentos tolhidos, ter sido feliz lá fora e nem imaginar a que ponto até ao umbral da porta «Urgência»... Porventura, o tempo passaria e tudo seria mais saboreado quando a vida retomasse o seu curso. Livre-arbítrio, aqui te tenho: tenho-me de volta!
[Get away: Comin' thru'!!!]
:D

19.11.07

Ah, a noite!...

In love with a voice...again!
GENIAL, este 7º trabalho de
Mmm esta música (1. Nightmoves)...
Esta (The Sleepers, poema de Walt Whitman)...
E... a imperdível faixa 7 (The Waking)?
Esta "voz" tem contrato: com Deus!
Divinal, Mr. Elling! Thx!

21.10.07

Única,

perfeita, saudosa...
Nothing Can Come Between Us
SADE

8.3.07

Vidro fosco

Uma formação em V movimenta-se no céu molhado sobre o meu carro: aves migratórias. Desde a infância, não viam os meus olhos tal beleza. Março entra e, logo ao seu segundo dia, o tempo diz-me que muda.
Sete. Cabalísticas e envoltas em penas cinza como as nuvens, as seis dos braços abertos do V seguem a do vértice, um ponto cardeal dentro do vento. Dirigem-se para norte, cortam-me a linha do horizonte, desviando-me o curso do olhar em delta que se abre sobre o mar na linha do horizonte. Avançam. Sigo-as pelo vidro direito do meu carro gotejante de chuva. Instintivamente, diminuição de velocidade: como não entender esta paz que me faz apelos em forma de sinal dos deuses? Cabe-me trazer nos ouvidos o som cavo da chuva nas palmas das mãos abertas; na boca o travo do sal açucarado dos teus beijos; nas narinas pequenas e vibrantes o fluxo de ar em torrentes dos sensitivos; nas polpas dos dedos a forma exacta da tua boca; nos ouvidos os sons do que é alado e enche os vazios entre as plumas com ar frio volvido morno aconchego.
A continuar as suas provocações como o tem feito, a natureza só poderá levar-me de volta à mulher que fui nos primórdios. Então, não poderás culpar-me de te lançar feitiços. Só a natureza explica que se meça a pulsação pelo latejar da seiva nos veios das folhas. Só ela sabe a que ponto me alimento dos cinco sentidos. É ela a única culpada. Cede. Em nome da formação de aves em flecha rente à costa, estarás em casa. Digo-te isto como unívoca verdade - por ser a minha - através do vidro fosco com células neuronais que trago na arcada torácica. Há quem lhe chame alma. Como aqueles pássaros, voo em rota de colisão com o teu peito morno onde me seguras o rosto que se esmaga devagar em amálgamas de boca em sede.

31.1.07

Mitos Urbanos II: da sedução (como apêndice)

Mitos Urbanos - seduzir: recusado por demasiado óbvio

Hoje, estive entre eles. Aconteceu-me partilhar o almoço com seis homens na casa dos 30 aos 45. Colegas do meu part-time, clientes da empresa, possíveis futuros clientes (que agora o serão, por certo!). Se sempre escondi a minha beleza discreta e me furtei a seduções, hoje forçaram-me a prova de feminilidade que roçou o tórrido. Mais uns minutos e eu teria dançado sobre a mesa, como o P. sempre me disse que gostaria de me ver, estava eu nos meus 22 verdes aninhos. Hoje, estive em dia (de) "verde": écharpe, brincos & olhos verde-musgo realçados por sombra preta como a noite. Roupas negras e cingidas sob largo casacão negro, saltos altos q.b. para balancear o corpo ao caminhar, cabelos ligeiramente escalados, maquilhagem discreta, lábios cheios de ousadia e mais belos do que nunca (a idade faz-me bem!) estive no meu melhor de sempre. Onde quer que entrasse, senti o poder de todos os olhos masculinos sobre mim. Ao contrário dos outros dias não baixei o olhar, não corei, não me esquivei ao uso de um sotaque neutro, voz e dicção que sei poderosíssimos no seu todo e que intimidam as mulheres e as fazem voltar-se em lojas quando falo ou os colegas fazerem silêncio quando em reuniões tenho de intervir... Sempre soube que me bastaria pouco para captar olhares. Evitei sempre seduzir porque me desgasta o espírito e me contraria a formação gnóstica de feminil-deusa-discreta. Por ser esse lugar onde aporto demasiado perto do que ocupam as pessoas desesperadas por aprovação, sempre neguei uma sensualidade que abriria portas onde acedem todos os falhos de talentos. Sempre fui too tough on myself, durona com os meus preconceitos sobre aquilo que represento. Hoje, aquele bando de homens espevitados desafiou-me a mostrar-me sedutora, apenas com o fito de ser pontuada de um a dez... Entre outras coisas descaradonas ... fumei o meu primeiro cigarro! Aquele adereço entre os dedos e a belíssima aliança que uso na mão esquerda (o que eu me rio com as perguntas que me fazem sobre o compromisso!...) para criar distanciamento na profissão, senti-me uma italianíssima Monica Bellucci! A magia que se sente quando se olha nos olhos um comparsa de tolarias para que ele nos classifique como fêmea altamente beijável! Bastou-me olhá-los intensamente nos olhos com os meus risonhos e semicerrados durante... 3 segundos! E o efeito daquele cigarro - que dispenso, preferindo o meu hálito puro, os meus dentes de neve, a minha pele de adolescente a um apêndice de inseguros -, a minha desfaçatez, a minha INSENSATEZ (adoro a palavra!) perante seis marmanjos babosos e orangotanguescos que se acreditavam donos da situação porque isso me faria bloquear... «Ah, querem luta, é?...»: Inês Alva - 6; Símios - 0!


Em termos evolucionais - e que me perdoem os meus leitores deliciosamente entradotes e charmosos que me seguem as palavras com fidelidade que aprecio - os homens estão, de facto, demasiado siderados pela beleza para serem considerados tão inteligentes como elas. Como nós. Como eu, que respondi às provocações de um séquito e ganhei uma aposta X 6. Já percebi - entre outras supostas verdades - que eles me preferiam fumadora (alibi para gestos cinéfilos e trejeitos labiais que os excitam até ao doloroso, se for usado o vagar certo e um certo ar de frieza ou desprezo), de andar que ondule as ancas em balanços de corpo felino, sentada de perna alçada, para pôr de lado o corpo e assentar na mesa um cotovelo atrevido, o penteado arumadinho, escalado, mas suficientemente nonchalant (adoro este termo!) para que se atirem para trás cabelos em gesto de diva, expondo apenas um lado da face, meia boca, um só olho sob o fumo de um cigarro, todo o pescoço, parte da nuca, parte do meu colo de garça (sou Inês ou não sou?) que, percebi, nunca, nunca deve mostrar a raiz dos seios mas dar pistas sobre a(s) forma(s) (essa de que eles gostam de fundos decotes é treta de carroceiros desesperados): eles gostam é de imaginar! Imaginação, muito, muito mistério e, sobretudo, CÉREBRO! O "timing certo", as palavras certas, os silêncios certos na cumplicidade necessária, as piadas sem excesso de sumo, e ouvir, ouvir, ouvir. Ter amigos entre os seres da masculina espécie tem-me ensinado a ser mais mulher, o que não passa necessariamente por seduções óbvias e esgotantes. A sedução permanente cansa-os. Deixemo-los darem-nos suave caça: deixemo-los acreditar que comandam. Afinal, não é esse o jogo?

A minha pontuação excedeu as expectativas e, graças a Deus, fui salva pelo toque de entrada para as aulas! Na minha cabeça cantava um sensualíssimo, delicioso Jonny Lang, pleno, pleno, pleníssimo de talentosos blues com swing de rock n' roll e senti-me Jessica Rabbitt com cérebro de Bellucci! A actuação acabou. Saí reconfortada, o meu pisar fez-se mais seguro, estremecia-me o corpo pelas colunatas que são as pernas femininas e alojou-se algures no meu centro um sabor mais acre do que o orgástico. Senti até ao âmago aquilo que preside a tudo e passa pelo cérebro e seus bons malefícios, esconjuros, malícias: poder! Ter ascendente sobre, ter "O" poder. Sabe a pedra de sal no centro da língua: queima! Ah, fogo bom (dum raio)!

;o)

P.S. Post a pedido. As outras fêmeas - supostamente alfa - queriam saber tudo! Pronto, TPC feito!

Boas noites! Salinas, salerosas, sábias!

17.1.07

Adstrito

. X vai finalmente publicar; outros se preparam para tal; a mim, já mais faltou...
. I. melhorou da "inflamação pulmonar" (?);
. K no trabalho: perto de inusitadas realizações, resisto a um semi-deus que aprendeu a ocupar o seu lugar & aposto a vida que nenhuma outra o rejeitara antes (confuso, confuso, he wonders... "why the hell...") Pobres homens ricos e belos!... Só o carro que conduz já pagaria a minha casa... Digo para mim, riso matreiro colado à boca: Go to hell, baby!!! There's a mind inside this body!;
. Queimo um incenso (na caixinha azul-cobalto figuram os belos, misteriosos dizeres «Satya Sai Baba - Nag Champa - Agarbatti» Eh pá,tu lá sabes...); oiço os liverpoolianos em Here Comes the Sun e depois os já mais escurinhos Temptations com Papa Was a Rolling Stone ali no FineTune ao ladinho, perto do meu risinho; abano a carola; saboreio pão mal cozido com chocolate preto; bebo Frize de limão (organisminho meu, aguenta-te, sim?); digito a correcção do teste número 3 para a criançada; saio desta esfera de influências e fixo-me no cristal de quartzo-pirâmide que hei-de oferecer a quem dele se mostrar merecedor (creio que será um sortilégio para libertar-me de certo bonito com porte de Adónis entradote, digo-lhe, assim à lisboeta-estúpido(a)-tia-loira-de-T'lhârash ô d' Cascásh, corpo-em-barrica miss piggyzesca, riso falso de rictus que finge voz risonha p'ra espantar tolos: ôça lá amig', 'zapareça-me da frent' q'eu já nãinhand'a vê bãin, pcébe, ó jaitôz'? Então vá...")
. Shhht, FECHAR OS OLHOS!!!
Anita Baker
(deusa, deusa, deusa!)
canta
Body and Soul...
(ali na minha music box, ao lado)
MMMmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm...
Dá-le, mostra-les, Anita!
Tásse! :0)

6.1.07

"Dico"

Como os dedos percorrendo as filas de palavras em dicionário unilingue, assim os meus pés se perfilam atrás da linha do passeio, ponto de partida para o vou-não vou a que me entrega a indecisão. Cedo, por fim, à tentação e envolvo-me na noite húmida de gelo: a amada chuva abençoa-me cada passo na direcção a que chamam futuro. Gloriosa, a água cai e lava-me de incertezas. Clarividentes, os sentidos dizem-me que tudo é mais intenso quando a cidade adormece.

30.12.06

Da delação teleMovelesca* & da rapidez digital

« The wise man
is astonished by everything.»
André Gide, citado aqui.
[Com a aprovação de Buda.]

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* O Google não dá conta do termo.
Mais um que inventei (?), malgré les viperae:
in cauda venenum!
;0)