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23.11.07

Relapsa... eu

Fumo pela primeira vez. Tenho trinta e oito anos e quatro meses. Eram sete e quinze, momento histórico. Passa meia hora e não se me revolvem nem estômago, nem mãos em contrição... Na casa de família alguém mais novo abandonara um maço cinzento de SG. Por vontades sensuais, trouxe ontem comigo um cigarro, para sentir o que sentia um qualquer Marlboro man de canudo-papel preso ao beiço sensual como barco se ajeite sobre as águas. Aquele esmagamento do cigarro pendendo-me da boca deu-me um ar de Bellucci e brilharam-me os olhos de morbosidade: «Fica-me bem.», pensei. Nas mãos, na boca, no brilho dos olhos, no ar falsete dos fumadores que se julgam atraentes quando semicerram olhos por entre o fumo denso que sobe, reconheço-me fêmea, embora sempre tenha considerado ridículo quem quer que tivesse ou mantenha hábitos sociais de desculpa para estar, sentir, cultuar estilos, em fase oral freudiana não ultrapassada... Raios partam, raios partam, merdinha, pá: se fumasse, mais ainda haveria quem me rastejasse a estes pés gueixianos que se riem das regras da comunidade quando, descalços, pisam o chão que escolho eu. O quando, o onde, o como, «Que bem me fica a mim, a mim, raios partam... este apêndice a cair desta minha boca que é tua, com mil milhões de demónios!», pensava, enquanto travava fumo que já travara em ensaio, humedecendo o papel junto ao filtro com lábios sedentos de novos sabores agridoces. Soube-me bem, abriu veias, latitudes de prazer no corpo sedento de experiências além-trabalho, trabalho, trabalho! Partes que desconhecia do corpo fizeram-se nítidas: lembrei-me de ti! Agora, sabe-me a boca a ti: um sabor a papel perfumado, a madeiras de exotismo, a pecado, um misto de fundo de massa de pizza sabendo ao torrado do forno quente, o frutado dos teus beijos que me afogavam naqueles dias secretos em que, por ti, me fiz ousada até à surpresa destes olhos que se abriam ao abismo das lágrimas de gozo. Fizeste-me tu excessiva, ou recriaste em mim O monstro que agora te devora quando pedes tréguas, rindo do teu débito pulmonar, casquinado, arfante? «Raios te partam, homem, por quem me tomas? Estas noites não são para dormir», murmuro-te por vezes, enquanto te mordo a boca nimbada do cheiro do cigarro que te acendi eu mesma... Sejamos intelectuais (ou consumo-me na minha própria chama inclusa e mantida em fogo lento porque dá jeito ao conformismo que finjo aceitar): assumamos que não será este pequeno caos a minha incipiência favorita: transgredirei mais, ainda.






Sabes que mais? Não precisas de ensinar-me a fumar: da próxima vez, acendo na minha própria boca o cigarro que depois te colo aos lábios que terás de abrir para descerrar essa maxila de quem, sendo tão vivido, se deixa queimar por aquela a quem ensinou tudo o que sabe sobre as artes maléficas de ficar acordada toda a noite. Da próxima vez, um dos teus cigarros pertence-me. Tal como tu. Aposta ganha?... Sim, sou relapsa, admito. A noite já me corre nas veias e o corpo pede nova pele sob o fumo da tua boca tão pecadora como peregrina no mapa sem norte que eu sou. Despenteias-me... ou quê?

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= :)> (Mephistophélica!)

19.4.07

Alvinegro

Sigo, perfilando-me com os prédios da cidade
morna.
Estou morna com ela, dúctil, infinita
deslizo, morte a caminho,
vida latejante em mim,
medito, passo a passo,
no que os meus olhos devoram
de mundo,
de mundo,
tanto mundo!
Vestida,
nua a alma: sóbria!
Tudo o que seja de vértices
se estreita no campo
da visão e imiscui filamentos
de vidas - muitas outras -
nesta que é, ainda, a minha.
As bacantes desfilam, calça
branca transparente, seios
que saltam,
detestável vulgaridade à transparência, elas
dão tudo ao transeunte, revolvem-nos
estômagos, encaloram
os imbecis por culto.
Quase há - a troco pouco - acidentes,
ridículos acidentes
("distraí-me com os meneios de uma porca que passava..." e
até verem os filhos à noite,
quantas
vezes
pensaram eles em
sexo,
os falaciosos anónimos,
acefálicos desesperados?)
...
A discreta sensualidade
quase jaz,
o mistério perde-se,
a evidência aterroriza,
asqueriza-me
os dias brancos por norma,
essa altervulgaridade.
Sem subtileza,
deslizamentos de graça,
movimentos sinápticos dignos de nota,
fazem-me pena as óbvias
mulheres
quase-gente,
sacos de pancada,
desesperadas de homens por minutos, homens só
que se esvaiam
em minutos,
gatas gastas,
queimadas,
a evidência entumecida sob as saias,
ali onde lhes palpitem neurónios volvidos fusíveis...
tão céleres face ao abismo, tão vagas nos prazeres.
Nada a obstar, o mundo é mundo!
Que avance, freio nos dentes,
sabor a sangue e desespero,
mas ai
da
tão pouca exigência
nos dons essenciais,
nas horas nascidas para a perfeição do divino acto!
Insensatez de penugem...
Isto apenas as redime: a que lhes sabe o vazio?
O depois, o depois, o depois...
Sabem, ao menos, a quem se vendem?
Isto lhes ensinam: oferece-te ou vende-te.
A que sabe aquilo - tudo aquilo - que no percurso não deu luta?...
Vertical, guardo o leito para as quatro paredes.
Só quero os olhos dele, os olhos dele, os olhos dele
que se abrem de espanto
quando passo e me
queimam colo, braços e ancas, narinas
abertas, ele inala-me
e quase fabrica em público
um beijo que quero só nosso,
despenteado contra a parede
que
são as suas mãos esguias
de cobre,
o beijo
enlouquecido de tão lento,
como o meu corpo se dá
nas horas perfumadas de
"alta vai a noite e eu em ti".
Como ela, elevo-me aí: dentro
da cidade, mas
fora
das ruas.
E os olhos dele, os olhos dele, esses olhos que me despem
e sabem
que sou só deles
enquanto me chamem sua.
Como a sombra e o reflexo de tudo o que se espelhe no sol.
O branco e o negro.
Definitivamente, não sou como as mulheres
todas que me passam nas ruas
o testemunho daquilo que não quero, abomino, execro por força.
Faço-me única.
Ele sabe que valho um tesouro
e
uma
coisa
dessas
não se expõe nas ruas da minha, da cidade dele,
nas alamedas sob o sol.
Eu sou da sombra: liquefaço-me apenas
à ordem de uma voz que é luz e é
umbrosa,
vibratória
nas cordas vocais que são minhas,
me perfura até ao âmago da electrização
nocturna entre alvos,
ondulantes,
gemidos
lençóis
de-um-homem-só
que se perde.
Venturosamente,
perde-se algures
na cidade
que é o meu corpo
risonho e sinuoso
aos poucos
deleitado
:
alvinegro
exoceto
!
.

22.1.07

Afloramento

A tua mão no meu peito, sustentando este baque acéfalo que te traz dentro, diz-me que estou viva. Escrevo sob o domínio dos sons que fluem sob o meu sorriso. Irradias-me os dias desde este dentro de caixa torácica. Tudo faz sentido desde o dia primevo. Para ti corria até hoje a água que sou. Em fogo, acolhes-me, braços abertos da calidez que me diga que avance. Misturo os sons com os prismas de cor da lágrimas felizes, ensalivo-te a boca sedenta de mim, profiro insanidades que te ericem tímpanos vibrantes: vives da minha voz, sei o poder que encerro; levo-te à loucura que me arrebate no fim. No amplexo descomplexado esvaio as horas já sem esperas, peço-te a morte, decisões, mãos em firmezas de últimos dias de vida, sangue e linfa, sal e mel, vidro moído e plumas, corro ao teu lado, a brisa perpassando-nos os corpos-ectoplasmas de homem e mulher cujo amor asfixiaram todos os olhos dos ímpios. Amo-te até ao devoramento devotado em lentidões de precisão-bisturi. Amo-te avassaladoramente. E quero-te por inteiro. Prende-me estas mãos de pulsos correndo céleres ao fio da faca: salva-me de mim, salva-me de mim, salva-me do mundo que me esmaga. Nasci aninhada no cheiro morno e agridoce dos teus braços, eu, o teu nicho, eu, a fêmea-total, a que se priva para ter, a que enlouquece quem a aprisione, a que sempre te fugirá para que a busques, para que te dê trabalho a conquista sistematizante, obsedée: nasço todos os dias, todos os dias renascerás comigo, levo-te dentro, aqui. Ama-me devagar e terás esse nirvana que eu, menina pequena e mulher sábia trago no âmago do meu centro, no mais profundo pico de montanha invertida, ali onde nascem flores azuis metileno deste fogo que me faz ígnea, branca, deslizante em gemidos de mais, quero mais... E já sabemos que és tu o culpado único deste crime: acendeste-me. Agora, alimenta o monstro sequioso que criaste, uma voz rouca que apenas cobre um tule negro com pequenas flores bordadas, fazendo sombras, as teias projectadas dos lugares por onde deves insinuar a tua boca quente e avara. Sofre comigo. De prazer igual.