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11.8.08

Bomarzo (II)

Como quem recebe as punhaladas somatizadas que a paixão instila, reconheço agora que ler Bomarzo obriga a doses homeopáticas intercaladas com paragens. Tal como a perfeição nos deixa à bout de souffle*, forçando a calculados regressos à realidade, assim digerir certos excertos desta obra de construção barroca (e para leitores de grande, paciente fôlego!) leva a paroxismos de prazer que convém reduzir à lentidão do sussurro que precede o "eloquente silêncio" **... Reconheço-me no que leio. M.M. Lainez torna verdadeiro sobre o papel - tal como o duque de Orsini eternizou em pedra os seus sonhos no Sacro Bosque dos Monstros - tudo aquilo que eu sempre soube e sinto desde a mais tenra infância: o mundo imaterial fala-nos desde a sua aparente quietude ou falta de alma. Talvez por isso - e apesar de tudo o que me aconteceu desde 2003 -, procuro o mesmo que animou Milton e... ainda acredito em sinais.
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«Há algum tempo, no Museu Etrusco Gregoriano, fui abalado por uma forte emoção quando dei de caras com as peças da minha armadura.
(...) ignora-se o que aquelas armas etruscas significaram para mim num momento doloroso da minha vida, como símbolos de solidariedade e de apoio. As coisas, que se afirma não possuírem alma, são possuidoras de segredos profundos que se imprimem nelas e lhes criam uma peculiaríssima espécie de alma. Estão cheias de segredos, de mensagens e, como não podem comunicá-las senão aos seres eleitos, tornam-se, com o passar dos anos, estranhas, irreais, quase pensativas. Quando nos referimos a elas falamos de pátina, de lustro, do toque das centúrias, e não nos ocorre falar de alma. A armadura de Bomarzo tem alma. E reconhecemo-nos no museu papal.» (p. 40)
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«E o que na minha infância constituíu a minha única felicidade, o pequeno tesouro acumulado apesar das dificuldades que se opunham o meu anseio (...), foi a memória dos meus passeios pela velha Roma e das minhas idas a Bomarzo, pois uns e outras me ajudaram a explorar e descobrir o melhor de mim mesmo: a capacidade de descobrir a beleza e de a achar onde para os outros estava oculta, como que ausente, numa coluna, num arco, na curva de um rio, numa nuvem, no lânguido vaivém de um ramo verde e cinza desenhando com os seus pincéis de sombra caligrafias orientais.» (p. 52)
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* "sem fôlego".
** Em tua honra, amigo de todas, todas as horas!

12.4.07

Tudo

«Gostava de ter assim músicas bonitas, só minhas, gravadas só para mim, as favoritas. Para quando viajo com o pai, sabes?, agora que já não temos nada a dizer um ao outro.»

Ela disse - uns cinquenta anos, sorrindo - ao filho de vinte anos, na mesa ao lado da minha, no restaurante que amo.


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«Tia, há quanto tempo me adoras? (...) E quando descobriste que me adoravas?»
A Inês, seis anos, na cozinha da vivenda, enquanto a ajudava com os tpc (um cozinhado de frases para Português) e encostava a cabeça ao meu ombro morno e ansioso da ternura da infância onde ainda vivo.
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«Não é contigo que vivo, mas é a ti que quero ardentemente. Todos os dias.»
Disse-lhe ele (quarenta e três anos) a ela (trinta e sete) e isso humedeceu-lhe corpo e boca toda a noite, disse ela esta manhã na sala de professores aos meus olhos arregalados, aquecendo-me a alma pelo seu desejo aceso de mulher com garras de cetim que se molha sem andar à chuva, mas com os seus próprios sonhos. Amo-te, amiga.
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De que cor é a minha aura?
Pergunto-lhe eu a si, meu leitor...

3.12.06

Grata

O meu espírito balança-me com o corpo

Entre You Don't Know You're Born de um Knopfler guardado no meu mp3 na cadência certa que me faz balançar o corpo como poucos naquela cinzenta sala de professores e a Music for Wellbeing, em recorte New Age que oiço nesta casa que é a minha; entre o perfume que me envolve as roupas negras com diáfana blusa em lilazes transparentes sobreposta vaporizando-se nos movimentos das minhas ancas e as volutas do incenso espiritual que me sobem pelas paredes do lar; entre esta vontade de mostrar-me a ti e aos da tua espécie no meu melhor e arrebatar com o poder que só uma Mulher-que-sabe tem e uma beleza que me assusta e sempre neguei escondendo-a do mundo por temer essas entradas em salas onde se voltam cabeças e me pensava apoucada espiritualmente... balançam-me os dias e as noites.
Sou ameninada e mulher-fatal, anjo deslizante e aranha-viúva-negra; feminina até ao âmago num tórrido blues entre Hayworth e Krall e rocker de pesadíssimas baladas-And-Nothing Else-Matters na narcose do meu desejo. Devo estar no fim dos tempos, de tal forma a vida me surpreende e a eu que escondi me assalta a cada curva. Ora diluviana em arroubos de sedução, ora recolhida nas protecções das folhas brancas onde outros escreveram, muito me denuncia: o pé bate no chão ao ritmo do que me ofereça, at random, o mp3; a pele do rosto cora e os olhos fingem indiferença semicerrando-se para dar ar grave, batendo na face as pestanas reflexivas; caminho na plena fruição das minhas entranhas, as coxas colunatas torneadas pelas mãos que só eu sei, o património por inteiro escondido dos olhos de um mundo desmerecedor por demasiado banal. Excito-me com Proust e outros sabedores-não-óbvios, desprezo os langores de tudo o que for demasiado evidente. Excitam-me a inteligência e os seus piropos calados; os "silêncios eloquentes" e os suspiros dos homens com imaginação para além do que em mim aparenta frieza; encanta-me a porta que me seguram, a passagem que me abrem, as palavras baixas denotando suave perdição, lábios de boca casta que se enchem com a idade, as narinas palpitantes como as minhas, sinais acusadores de sentidos alerta. Encanta-me a corte feita a compasso, um dia atrás do outro, ousadias esparsas que me desarrumem, em última análise, o penteado sóbrio e revelem os caprichos de cabelos que me denunciam (ruiva! cuidado, cuidadinho, sou ruiva no âmago!). Encanta-me o discreto despudor das palavras ácidas, fazer ler nas entrelinhas a quem eu quero, repudiar o dedo de um qualquer apressado guloso que, aparência distraída, me toca as mãos geladas durante a conversa, fingir-me desentendida, levar ao quase-desespero (o tântrico não é para fracos!): esperar é uma virtude e escolher uma outra mais exigente art de vivre... Cabe-me a escolha final: nunca me enganei. Reservado - ainda e sempre - o direito de escolher quem ame, sobre todas as coisas, as palavras impressas e ditas, a inteligência dos silêncios, os avanços a meu contento, as noites sem fim à vista, a impossibilidade do retorno de um jardim de delícias onde se pode muito bem perder noções básicas como a da passagem do tempo, a do nosso nome real doravante aposto de sinestesias, a do que se quer a partir daí. A incógnita será sempre parte da sinuosa equação. Não há paradigmas, só aproximações lentas. Requerida, por óbvia, a força do espírito. Sacio-me de almas com ideias. O resto é corpo a cumprir-se. Só. Da viagem, interessa-me o percurso, não o lugar onde aporto.
«Obrigada por (ainda) gostares da minha voz
e ma elogiares na medida certa»,
agradeço num cicio à tua orelha
tão desprevenida como quente.
Voltaremos a encontrar-nos.
Um destes dias, volto a ler para ti.
A ter de vir, que o resto venha por acréscimo, delícia minha.