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2.9.11

Verba


Demasiada gente (que) escreve com erros. Agora e para sempre. Restam-nos as palavras que se ejectaram - a tempo e por inerência - da cloaca em que foi transformada esta Língua.
Ao contrário da terra dantes transportada em pequenos sacos para polvilhar o morto longe do seu solo de berço, da bandeira ou do hino, as palavras têm imagem visual, um rosto e trazem-se dentro, embutidas na máquina propulsora a que se chama cérebro. Também ele se liquefará, a seu tempo, num tempo em que quaisquer famous last words ainda possam ser pronunciadas, ditas com voz. Afinal, os druídas sabiam o que aí vinha e, por definição, o que faziam: era proibido escrever.
Em nome do que sobra sempre, do que é válido, banirei - e apenas em documentos oficiais, os do Inimigo -, por relapsas, as palavras óPtimo, aCtividade ou pÁra! Serão substituídas por sinónimas e guardadas em santuário, como pássaros de asa ferida. Guardo-as aqui e nos meus textos-de-gaveta, que são uma e a mesma coisa.
Resta-me este consolo: os podres que as quiseram assassinar hão-de adubar a terra, juntamente com o esterco dos milénios. Para o sempre sobram essas palavras feridas, convalescentes, transportadas na boca, no ventre, entre as mãos dos que as sabem. Desamputadas, aguardam: tal como a árvore que ali vejo, recortada contra o azul-petróleo doloroso do céu que se outoniza, sobreviverão, nos bailados das palavras compostos por muitos, todos os que o tempo não apaga, mas antes cinzela. Ainda bem que todos os humanos apodrecem. Só a natureza tem um corpo dúctil, tal como as plantas têm sementes. Quem não viu isto, nem sabe quem é.

28.2.11

O hodierno


pão nos Dai hoje.

Seja feita a Vossa vontade:

assim na Terra, Livrai-nos do mal.


Zwomen (por Amen)

15.2.11

Marés


Cinza. Hoje, o mar está cinza. Teimoso, insistente, protuberante, desenovela-se em galáxias, pois que é nele que se espelham todas. Quantas cabem nos oceanos que temos? Todas, se quisermos?... Até onde nos corre a imaginação em delírios, pois se até ela acaba e, no fim da palavra, correm "rios"...? Até onde podemos congeminar, nós, os pequenos humanos? Terminará ela, a nossa capacidade de sonho, liquefeita, no marulhar gasto e espesso de séculos de turbulência? Como me diz a mãe, sempre que vê o mar:

- Ei-lo, o bicho... O bicharoco que me persegue em pesadelos... É tenebroso, o mar.

- Medonho... - respondo eu em palavra que amo - Medonho! Adoravelmente medonho!

(...)

Os diálogos perdem-se, as palavras impedindo que se abarque tal assombro com elas, porque nunca chegam: o mar engole-nos por dentro.

Depois, por dias de sol, passa-se ali, mesmo ao lado, como ao lado é o Cabo Tormentório - que todos trazemos dentro - e desagua-se em Vila do Conde: ali está a nau. O medo que lhe tenho, o respeito que me inspira a negra quilha, o sagrado lenho, o pavor que me transtorna sempre, como se tivesse ainda os oito, nove anos:

« - Avozinha, não quero aproximar-me dos barcos com musgo, mortos ali na praia. Tenho terror dos barcos da praia, porque lhes vejo a alma...»

O barco negro (assim lhes chamavam os nipónicos, diz-se) provoca-me sempre uma convulsão de medo e ele enrola-se nas vísceras e dói-me por dentro, como se nele, barco, tivesse eu morrido, em vidas passadas. A Vila olha-me, branda, compreensiva, mas o barco rasga-me gritos endogenizados, guinchos de bicho em pânico, acossado, psychotizam-se laivos de sangue, em dor liofilizada, microfilmada, percutente, riso lupino da morte - minha amiga, mas que me espreita com máscaras contorcidas quando quase a aceito, mas a quero dócil e as carantonhas que ergue me acometem nas esquinas da casa escura e sozinha, voláteis, elas, assincopada, a minha golfada de oxigénio entrando a eito -, como se tudo o que eu sou estivesse inadiavelmente inscrito no cerne daquela nave marinha...

O barco negro rasga-me sempre o dia, porque nunca me lembro que ali repousa, como reaparecido após séculos de viagem. E o mar, que tudo sabe dele e o quis ainda vivo no dealbar de nova era, é conivente, cúmplice de funduras algosas onde não quer este filho negro que o galga - como o teu corpo, sobre o meu? -, ri um riso só dos dois e espraia-se no casco, entre afagando e percutindo, cerce, em marcas de amor dorido e lento.

- O mar sabe-a toda... O mar ri de tudo o que a nós traz rugas na testa, de tantas perguntas que levamos do mundo sem resposta, secos, hirtos como cartografias pergaminhadas, cansados de tanto nadar a contra-corrente. Por vezes - tantas! - para ter paz, tenho de recordar que isto me guia:

- Senhor, seja feita a tua vontade... As marés, elas mesmas mares-fêmea, nunca te acusaram o cansaço?... Não me deixes pensar tanto: o que levo é o que trouxe, uma ausência de medo, um deslumbramento que me morre entre os dedos, uma ânsia de, como Agostinho, fugir-te, para que me procures e me fales em tudo e em tudo estejas, como este mar que me cerca, ilhéu-fêmea, relapsa, vaga-mundo, dor-de-pensar ao que vim, eu, que quero ser não sendo, fugitiva de pés nus sobre o vidro que o pensamento é. Disso tudo o mar sorri. Tem milénios de tempo, o canalha… Como o amo, de tanto não o poder ter, sequer, nas veias!


19.11.10

Da "S" e outras crianças


A "S" é a filha que eu queria ter tido. Tal como o "F" é o filho que nunca terei. Há muitos, entre eles, que vou escolhendo para "meus", na casa que encontro vazia de vozes infantis quando chego. Sem mágoas, contudo, que eu sei porque me quis assim e isso só a mim importa.

E contudo... e contudo. A nota de 86 que ontem entreguei à "S", no teste visto de fresco, fê-la voltar-se para a colega também pequena que lhe sorria na sala - a turma já tinha saído quase toda - e dançar um samba horroroso que a deformava em todas as direcções e lhe espetava o rabo na direcção da mesa onde eu arrumava papéis e orientava sumário, entre outras quezílias da profissão geradoras de amargos de boca, por escolares, anacrónicas e estupidificantes. Desculpei, à pequena "S" a sua dança tribal porque a vi, naquele instante, filha de pai morrente num certo hospital, a terminal doença marcando, já, epitáfios que tão ligeiro ser - loira e vivaz como é a "S" - não merecia tão cedo na vida. A sala tornada sambódromo, pude alegrar-me - eu, que odeio "sambantes" - por ter o meu "86" escrito a verde alegrado quem ultimamente tanto chora. Desígnios pequenos, nadas avulsos, momentos esparsos: disto se faz a alegria hodierna de um professor que viu nascer o século. No meio da turba, sambando ao som do toque das caixas múltiplas, foi aquela miúda a reabilitar-me aos olhos de um dia gasto. No meu sorriso contristado, na meia boca que inclinei, estava toda a alegria possível, quando as notícias do meu país me trazem uma estranha estrela alvinegra, de quatro pontas, bombardeando a eito, como um alvo apontado ao peito que todos trazemos pesado. Em que medida serve a estrela à "S"?... Saberá o que por detrás dos seus sambinhas trezeanistas se maquina algures?... Ensinar-lhe-á a História que para nada servem as suas notas de "86" num mundo onde os novos bárbaros vestem fraque e as armas que trazem dentro dos contratos têm nomes científicos? Muitos "86" ajudarão na subida dos degraus até ao fim do jogo? Quando perceberá a pequena que o 1% da sua alegria nada conta no mundo real que encena outras danças fora do gradeamento da escola?...
Ensinar-lhes que cada etapa é apenas um degrau será suficiente como força para aguentar o peso da vida? E agitar ainda as bandeiras da seriedade, da meritocracia, da lealdade poderá salvá-los dos orangotangos perfumados que, por estes dias, sentarão as partes nas sanitas dos hotéis de luxo? Como manter a salvo os nossos melhores, os nossos ainda perfeitos incólumes, num mundo onde a inversão de tudo o que é válido nos satura os tímpanos? Como dizer-lhes que estão a prazo, enganados, a recibo verde da corja que os militares guardam como tesouros? Como fazê-los perceber que a população inexistente nas ruas de Lisboa por estes dias é o vazio metafórico do lugar onde todos já mergulhámos há tanto tempo que já ninguém sabe quem é?...

Na minha retina, as imagens deslizam, vertiginosas, fel do ódio que tenho à mediocridade. Fico feliz pela felicidade alheia. Entretanto, a pequena "S" saiu, samba algures, sorrindo, em direcção ao dia claro, mochila às costas e faz o que a mim me ensinaram tão bem que fiquei nesse mundo para sempre: sonha que, algures, há um sítio melhor do que a realidade que muitos, canga nos ombros, absorvem como à última golfada de oxigénio no planeta. Asfixia devagar, mas para seu bem, ainda não lhe disseram...

3.10.10

lagutroP

Adianta muito ao José Pedro, nº14 do 7ºD, ter miudamente (na letra, não na ideia) escrito nome, nº e turma numa minúscula - porém bem visível - etiqueta branca no tubo de cola que lhe comprou a mãe nos idos de Setembro: a embalagem partiu pela base por excesso de torções, vertendo gota a gota a baba perfumada sobre outros materiais escolares. Jaz agora aqui, nesta sala 21 e em fim de dia já silencioso, sobre todo o lixo - que nenhum outro ser a que se possa chamar humano além da que aqui cronica a alma - põe nos ecopontos espalhados pelo recinto. Só eu uso aqueles recipientes, distribuindo neles papel, embalagens vazias e mágoa de pertencer a um país de ineducáveis. Nesta palavra, aquele outro senhor deu provas de que, afinal, sabia alguma coisa sobre a turba propensa aos balidos que alhures governou. Até o macaco Gervásio sabia separar lixos. Eu - enternecida a sós por crianças correndo em direcção ao fim-de-semana - enquanto desligo equipamentos electrónicos, envergonho-me da bandeira que, por estes dias, tantos louvam. Prostitutos sem Pátria!, digo eu ao povo que vendeu a Portuguesa Língua a veracrucianos que a escrevem com as patas, quer dizer, com licença, os pés. Afinfa-lhe, pútrida Pátria que nem de famous last words te fazes digna. Concordando ortograficamente e por decreto, uma massa de acéfalos prepara-se para espetar a farpa venenosa do descaso sob as próprias unhas, urgindo em mim laivos de fome por nova nacionalidade. Envergonho-me de ser lusa, porque nesses volteios de sepultura revejo o vate, Luís Vaz, mais insultado do que se sobre a sua efígie despejassem, ali mesmo nos Jerónimos, todos os esgotos de Lisboa e mais alguns. Afinal, Camões, estás vivo, mas as almas não rendem votos: esta nação meretrizada merece - como sempre, aliás, se disse - todo o mal que lhe aconteça. Não tem património, é inimputável (sendo, contudo, as quatro letras do meio sem qualquer acento!) e esmaga como se barata fosse a única coisa que a salvaria, ainda, da tormenta: a memória...

27.5.10

(Des)aniversário

... . . ... . .
. Este blog tem 5 dias e .
. . . ... 7 anos. . . .
. . .
... ... ...
Continua a optar azuladamente,
como nas margens aquosas,
agridoces dos odores cítricos.
Do som do vento e da chuva
também se irmana.
A casa do farol
nunca teve
tantas
certezas...

Cheers!
;0)

1.3.10

Sou feliz, mas entristeço-me...


« - Estou a procurar imagens de "iluminuras". Os meus alunos arrepiam-me, quando dizem que não sabem o que são iluminuras...»

« - O que é isso?...» - perguntou a colega de Matemática.

(Chorei por dentro.)

«- Duc de Bérry?... Livro de horas?... Livros de História? Monges copistas?...»


« - Hã?...»



15.4.09

Há em volta

o tom certo de invernia. Tudo continua igual a si em termos de "coisa pública", a imprensa vai-se vendendo a muitos dos menos inteligentes, o senhor B.O. põe em marcha uma espécie de "nova ordem mundial", contradizendo-se a cada passo, o alheamento continua a pressionar os que acreditam em teorias apócrifas, a chuva, quando cai em terra, continua a fazer lama. Como era no princípio, assim tudo permanece. Resta-nos observar e esperar que quando o desabamento se desenrole de si mesmo, nós possamos estar no único lugar onde nada mais nos poderá ensombrar o espírito. Dormiremos o sono dos narcolépticos, avessos a interferências, abertos à novidade boa que é nada acontecer, fechados em definitiva posição que o feto que fomos procura incessavelmente. E lá longe, no Sael ou perto dele, barcos imensos oxidam entre o deserto e os que caminham em busca de água. Como eles, esperamos por um porto de onde mais nada, ninguém, absolutamente nada nem ninguém nos poderá desenlaçar. Há algo de belo na noção de nó górdio, além do som que a expressão em si contém: os casos perdidos têm sempre um fim à vista. Em nome deles, tornei-me num: relapsa. Agora e sempre. Doa como doa, agora e sempre, em golfadas de ar gelado, como este que há em volta.
P.S. E viva a ligação wireless!

1.4.09

Brand new

.
Exultei: tinha, finalmente, uma garagem!
Poderia, agora, executar
com limpeza e elegância
- condição sine qua none -
o plano: suicídio monóxico...
.

26.2.09

Simple...z!

Carnaval português (a sério!). Filma-se criançada. Entrevista-se menino. Pergunta-se de que se disfarça. « - Jardineiro.», diz ele. Perguntam-lhe se gosta do disfarce. (Pensa dois segundos) Que não, não gostava. Novo arremesso: de que gostaria de disfarçar-se ele, então? (Pensa três segundos. Dá aos ombros). « - De nada.»
A isto chamo eu clarividência. Não da jornalista, claro, porque essa nem pensava como pensa que pensa. O menino, esse, restituiu-me o gosto pela sua geração, essencialmente porque:
1. pensa (reflectida e algo detidamente!);
2. verbaliza o que pensa;
3. pensa que não gosta do carnaval;
4. pensa bem, porque nada há de "gostável" na "energumenice" e na "molhada carneirificante";
5. pensa como um português: é depressivo;
6. apenso a isso, subjaz-lhe a argúcia dos que:
a) dizem a verdade (não merecem castigo!);
b) dizem-se (genuínos) a quem só diz vacuidades;
c) dizem-me muito mais do que qualquer boda ou bodo com ou sem dolo, porque...

Dizer é dizer o que (se) é, não insuflar os egos dos outros.
Sobre o carnaval brasileiro, o raquitismo encefalítico e o embotamento da mais básica noção do ridículo, então, estamos conversados. O meu pé, definitivamente, não tem samba: prefiro o português europeu, a Língua Mater, a cuja tal dita - até essa! - nos foi roubada/comprada. Que vivam os simples, sem carnavais, a doer, porque destas cinzas pouco nos sobrará um dia, né, seu Manué e seu Juáquim? Qui táu é istá à venda por aí? Chorah, portugáu, chorah, nóijá dévoramu voceis. Tjirámu dji letra, auis poucuis e ágorah a vossá língu'é à nossa, vice?
Toma, portuguesinho, embrulha. Simplifica. Aluga-te a metro. Dá o .. e três vinténs por seres da moda. "Vira" moderno, não "brigues" com a onda, "a mídia" já o fez. "Malha", estupidifica-te, cospe-te, globaliza-te, "veracrucifica-te", protopaís de merda!

1.11.08

! 'finaM

Vejo-te em Lx.
No dia 8.
No dia 15...
&
em todos os outros.

;0)

31.8.08

Na mouche

Há uns tempos, o Dr. Hernâni Gonçalves referia-se - com muita graça e num programa de tv - aos "invejosos digitais". Registo a expressão por a ter considerado - então, como hoje - de uma incrível pertinência. Dessa sub-sub-espécie conheci inúmeras vítimas (eu mesma o fui) e, embora me custe a abordagem desse grande anátema nacional que é a "doença do i", tive de reconhecer que também através da rede esse tipo de vampirismo se arrasta, se aloja e se atiça, em vãs contorções de destruição. Resumindo, o que não nos mata torna-nos, definitivamente, mais fortes. Também descobri que há um inferno próprio para os agentes duplos: é desde o interior que se envenenam e nunca, nunca estarão satisfeitos, por mais que afocinhem e refocilem nos cadáveres. Seria inocente acreditar que todos os humanos buscam a paz de espírito, pois há muitas escalas de valores e seria impensável que nelas entrassem sempre os mesmos factores. Cabe-nos manter a cabeça fora de água e persistir, persistir, persistir. Esta casa do farol é uma pequena bandeira que - até que a guarde enroladinha com ternura num armário - insiste em dizer pouco, marcar pouco, mas manter-se a fiel depositária daquilo que as artes insistem em provar que existe e teimosamente "radiografam" a cada dia que passa, contra todas as cínicas previsibilidades: o conceito de alma humana.

11.8.08

Bomarzo (II)

Como quem recebe as punhaladas somatizadas que a paixão instila, reconheço agora que ler Bomarzo obriga a doses homeopáticas intercaladas com paragens. Tal como a perfeição nos deixa à bout de souffle*, forçando a calculados regressos à realidade, assim digerir certos excertos desta obra de construção barroca (e para leitores de grande, paciente fôlego!) leva a paroxismos de prazer que convém reduzir à lentidão do sussurro que precede o "eloquente silêncio" **... Reconheço-me no que leio. M.M. Lainez torna verdadeiro sobre o papel - tal como o duque de Orsini eternizou em pedra os seus sonhos no Sacro Bosque dos Monstros - tudo aquilo que eu sempre soube e sinto desde a mais tenra infância: o mundo imaterial fala-nos desde a sua aparente quietude ou falta de alma. Talvez por isso - e apesar de tudo o que me aconteceu desde 2003 -, procuro o mesmo que animou Milton e... ainda acredito em sinais.
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«Há algum tempo, no Museu Etrusco Gregoriano, fui abalado por uma forte emoção quando dei de caras com as peças da minha armadura.
(...) ignora-se o que aquelas armas etruscas significaram para mim num momento doloroso da minha vida, como símbolos de solidariedade e de apoio. As coisas, que se afirma não possuírem alma, são possuidoras de segredos profundos que se imprimem nelas e lhes criam uma peculiaríssima espécie de alma. Estão cheias de segredos, de mensagens e, como não podem comunicá-las senão aos seres eleitos, tornam-se, com o passar dos anos, estranhas, irreais, quase pensativas. Quando nos referimos a elas falamos de pátina, de lustro, do toque das centúrias, e não nos ocorre falar de alma. A armadura de Bomarzo tem alma. E reconhecemo-nos no museu papal.» (p. 40)
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«E o que na minha infância constituíu a minha única felicidade, o pequeno tesouro acumulado apesar das dificuldades que se opunham o meu anseio (...), foi a memória dos meus passeios pela velha Roma e das minhas idas a Bomarzo, pois uns e outras me ajudaram a explorar e descobrir o melhor de mim mesmo: a capacidade de descobrir a beleza e de a achar onde para os outros estava oculta, como que ausente, numa coluna, num arco, na curva de um rio, numa nuvem, no lânguido vaivém de um ramo verde e cinza desenhando com os seus pincéis de sombra caligrafias orientais.» (p. 52)
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* "sem fôlego".
** Em tua honra, amigo de todas, todas as horas!

30.7.08

Onde vais, Portug(ra)al?

Uma adolescente fala ao telemóvel enquanto caminha. Pelos gestos, percebe-se que seduz alguém. Não terá mais de catorze anos, mas o decote tem quase dois palmos. Entre outras coisas, lamenta-se: que está "só, em plena cidade, em pleno sol, uma mulher sem alguém que [lhe] me chame DE (!) mulher, que repare...". Sem qualquer tipo de pudor, avança na conversa, enquanto se meneia pela rua. Não lhe caberá, talvez, na cabeça, que a mãe que a espera no carro também se iludiu com aquilo a que muitos chamam "o amor". Hoje, conduz e tem alguma independência, mas também ela se ficou pela pouca escolaridade, a troco de sexo precoce e um primeiro emprego no qual já era explorada. O lugar onde toda esta gente anónima bebe a ideia de que a vida é uma publicidade de tv não deve ir além do café, de umas férias pagas a prazo e de umas leituras miseráveis por entre revistas de gosto duvidoso. Percebe-se rapidamente que durante uma nova geração, pelo menos, a grandeza discreta no porte e as ambições de saber mais do que a simples sobrevivência não lhes tirará o sono. Talvez o irmão mais novo seja alvo de caça fácil de mais um computador "Magalhães", através do qual talvez venha a navegar (estará o aparelho adaptado para essa Terra Prometida em direcção à qual tanto acenam os políticos?), depositando no teclanço as suas ambições e o futuro projectado da Nação, enquanto o navegador cujo nome agora se usurpa dará eventuais novas voltas no túmulo, a par de milhares de professores e outros (demiúrgos?) que tanto se esforçam por ensinar a dignidade do trabalho e do afinco, do brio e do mérito, do decoro e da honra que parecem ser eterno alvo de troça da Nação, encabeçados por (ineducáveis) titulares de pastas ministeriais.
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Um adolescente de não menos que dezasseis anos espera numa sala. A sua posição é a de muitos quando se apresentam nas primeiras aulas de qualquer escola: escorregando pela cadeira, a zona destinada ao apoio do centro das costas é onde assentam os ombros. Vê-se-lhe a roupa interior, na qual ninguém está interessado, excepto a namorada que chega. Converseta execrável, beijam-se e/ou lambuzam-se em público, perante gente com idade para que se lhes chamasse avós... De vez em quando, ele ri para o telemóvel. Ela deambula, esperando a consulta médica. O vocabulário é pejado de palavrões, esses que a esmagadora maioria dos bloggers cuja cor política nem me atrevo a identificar usa com profusão, como o fará, suponho (e eventualmente) em pleno tribunal, na frente dos filhos, na dependência bancária ou consultório médico, no spa onde deixa a pele morta dos pés ou a esplanada por onde arrasta a parte do corpo sobre a qual se senta, aquecendo, quiçá, mais umas cadeiras até que se lhe acabem os dias de "saison à idiots" e, de novo, se apresente perante uma metrópole de pele menos urbana e mais dourada, com trapos de tamanho indicado para as sobrinhas de nove anos. Assim se encontravam os apaixonados jovens até que deram por findo o calvário de esperar a sua vez - coisa de pobrezinhos sem mais nada que fazer, pareciam pensar. Como quase todos os seres vivos nacionais, considerarão que transportar um livro é para imbecis, pelo que, em férias, tal como em tempo de aulas, transportar um portátil até coçar a pele do ombro é que é ter estilo. Ainda há-de chegar o dia em que os info-excluídos - talvez até os que transportem livros, e mesmo pertencendo às melhores tertúlias do burgo - serão fuzilados com os olhares dos cidadãos do futuro. Mais uma vez, imagina-se - deste meu lado do vidro, com o testemunho destas minhas mãos teclando, castas - que o célebre navegador, tal como todos os que já se foram, dará voltas no túmulo, mas não se manifestará o seu ectoplasma, pois foi-me dito que as permanências manifestáveis aos vivos não ultrapassam os trezentos anos... E a História, já se sabe, não interessa a fracos, pois que deles ela não rezará, um dia, por isso se aviltam os heróis do passado sem sanção à vista, uma vez que sobre o uso da bandeira estamos (mui) conversados...
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Como a velha de espírito que sempre fui acrianço-me, fascino-me pela razia no bom-senso que é este terreno a que chamam país. A estupidez há-de chocar-me sempre e é imorredoira, pelo que me imagino com o fígado destruído antes dos quarenta. Como fazer esta gente que nos ombreia recordar o nome pelo qual responde? Quantos estão cientes dos seus genes e da responsabilidade que é pisar este solo? Quem conseguirá reerguer bem alto um padrão em novas praias? Onde haverá lugar para a excelência a não ser reavivando o mito dos estrangeirados? Que nação é esta que cospe no que dela brota, que exclui os melhores, que teima em fazer da corrupção e da vileza um estandarte imundo? Aqui, definha-se.
É neste contexto que me ponho a ler maravilhas como estas e pasmo. Com Deus por testemunha e a licença do autor de livros que venero, transcrevo o excerto do livro com capa em cálice do Graal, sem querer contaminar o que é santo e messiânico com a escuma(lha) que hoje povoa a "Luzitânia"*:
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«Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve o silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império ondulam, sem se poder ver.
-
Arroio, esse cantar jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.»
Fernando Pessoa
(sobre D. Diniz)
* Créditos da expressão ao autor que aqui se enuncia.

30.6.08

Entomologistas*

Hão-de dissecar-nos, ao estilo do que se faz em autópsias, mas o fito é revolver as entranhas da mente. Como estudiosos de insectos, hão-de enfiar-nos o espeto-alfinete e deixar-nos expostos aos olhos de curiosos do funcionamento das espécies mais raras. Como taxidermistas, hão-de encher connosco armários e arquivos. Somos muitos, mas 3les são mais e têm poder(es). Na mente, na nossa alma, no nosso espírito, seremos, talvez, sempre livres, mas os esbirros sondam e rondam e, um destes dias, a não ser que nos baixemos e pensemos como os amigos deles, os 3les que tudo vampirizam estarão frente a nós. Com a "verdade" na boca, hão-de esmagar a História. É tudo uma questão de tempo, como foi uma questão de tempo a desimpregnação de Pedro do mundo que, querendo ver o mundo como os homens, pediu a crucificação invertida, cabeça no lugar onde estão os pés. Porque 3les têm e terão "a dignidade e o bom nome" e nós, mais pequenos mas não arraia-miúda, temos apenas a verdade, uma certa verdade que não cabe no conceito apodrecido de liberdade democrática e de justiça. A verdade é e será o que 3les quiserem... Resta-nos a coragem de Pedro. Tê-la-emos sine die?...
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* Em nome de um certo blog, o 1º que 3les encerraram, entomologistas do livre pensamento dos outros, todos os outros que nós somos.

9.6.08

Fidelitas

Em cada canto, uma figura alada. Mesmo se sem asas, ficaram conhecidos por as terem no espírito. Acontece-me isto, assim, sem esforços, como se coleccionasse anjos. Irrompem pelos dias. É como se me chamassem das lojas, ou então, oferecem-mos. Um buda de madeira negra como os meus medos; um santo António de marfinite branca como as nuvens ao sol; um menino deitado que o meu próprio pai fabricou, em gesso por cozer, um que me cabe na palma da mão - ainda sobra muita palma! - e eu deitei na manga preta de couro que protege a caixa de velocidades, ali mesmo de onde sai o manípulo das mudanças do carro. Viajou comigo os cerca de seiscentos metros e sorri, deitado no vidro da mesa de entrada, sobre as minhas caixas de barrocos tecidos bordados, onde guardo os colares que ponho para sair à rua. A sua perfeição de traços sorri-me com maçãs do rosto verdadeiras na forma, graciosos joelhinhos, braços de bebé, cabelos de um angélico anelado, subtil doce sorriso. Todo branco, dirige-me o seu abraço. Por olhar para ele, evito ser mais rígida com o meu pai, que por vezes me parece quase abominável, apesar de todos os princípios que me ensinou e de ser uma das poucas pessoas que consegue amar-me - apesar do meu mau feitio - exactamente como sou. O meu pai, disso estou certa, ama-me exactamente como sou. Além disso, nunca se riu dos meus sonhos. Apesar da sua decrepitude, de não se esforçar por formular, sequer, frases completas nos seus quase sessenta e cinco anos, o meu pai enche-me de orgulho pela sua força de carácter. Eis um homem que, inadvertidamente, me afastou para sempre de todos os outros homens, não porque não estejam à sua altura, mas sim porque, de facto, sou forçada a considerá-los, a todos sem excepção, seres inferiores. Todos os homens são seres inferiores. Desde e para sempre.
Já amei alguns homens, a poucos me dei a conhecer e afastei todos os que me amaram. Nunca me arrependi. Observo-os e aprendo. Nunca fui tão feliz como quando me desapaixonei. Esta ácida e suave lucidez é o que mais amo, de todas as faculdades que me deu o Pai do céu. Como os homens se apaixonam facilmente por mim - creio que justamente por me saberem indomável -, evito mostrar-lhes a minha meiguice crónica, evito as conversas que com eles quero ter, que vão muito, muito além do desejo. Simplesmente, não entenderiam, porque não lhes está nos genes. Quero vê-los por dentro, a nu, como nunca ousariam mostrar-se a ninguém. Quero ler-lhes as almas. Saber, sabê-los sob o meu microscópico olhar, eis tudo. Normalmente, afasto-me. Por algumas vezes, sei que fui loucamente amada, que os olhos de alguns me queimavam quando já fui quase bela e sei que os perturbava até à doença pela minha fingida distância de mulher que tudo vê, tudo percebe, tudo sente. Sentir de mais esgota, por vezes. Nunca pertenci, nunca pertencerei a esses. Eu sou uma outra coisa. Os tendentes ao assédio quase choram na minha frente e gostam da caça que pensam que me dão. Acabam sós, face ao ego que finjo ter. A verdade é muito mais subtil. Não é raro que eu use uma aliança, para que me deixem longe dos seus olhares de gula. Creio que tornarei esse uso crónico. Não conheço mais nenhuma mulher com tal frieza. Por isso, sei que eles podem, de facto, ser meus amigos para sempre, sem me desejarem o corpo nas suas camas mais do que algumas vezes, apesar de ter corpo e atitudes de quem nasceu para ser mãe e ser, dizem-me, uma amante de cortar as mais profundas respirações. O amor físico é quase perfeito, belíssima actividade para noites inteiras e de corpos que o são por inteiro mas sei-lhe o fim meramente biológico e reducionista em si mesmo. Não por decreto, mas por fases e até aos limites, é viagem que ninguém deveria deixar de fazer nesta vida, se possível tântrico e simples na sofisticação dos cérebros dos dois. Como o definiria? Utilizando o fabuloso termo culinário "q.b.": em doses homeopáticas... Na medida certa, entende-se porque tantos vivem em função dele: são vazios até ao infinito e jogam a lotaria que a biologia com eles jogou, espalhando os seus genes sem critério... A banalidade da média dos seres humanos sempre me entediou, de resto. Simplesmente banais. Tristes.
A verdade é só uma: nasci para ser fiel até à morte e sou-o, principalmente às mulheres dos homens que me cobiçam, porque me desgosta a simples ideia de fazer uma mulher que seja verter uma lágrima que seja. Assim, Deus me ajude: isso faz de mim a melhor amiga deles e delas. Deus é minha testemunha. O casamento é uma outra história: para mim, a privação dessa liberdade de ser a que sou, far-me-ia definhar. Por isso, a aliança de ouro me acompanha o finíssimo segundo dedo da mão esquerda. Porque sou fiel.
:0)

2.6.08

Senectute

Encanta-me a pose de majestática humildade. Nas lojas de Azimutes, os antigos proprietários recolhem-se. Acolhem-se em cantinhos, sentados em banco ou cadeira suave que lhes receba os ossos plenos da curvatura dos que servem e se inclinam, reverentes. Seja em que comércio for, causam-me a mais profunda das ternuras. A minha reverência, contudo, vai para os que escolheram a poeira dos livros, o reino das palavras, o cheiro a infinito que bordeja o reino divino. Quase enclavinhados, perdem centímetros de estatura, mas ganham em porte, enquanto não lhes chega a hora certeira que alguém há-de decidir. Ali ficam, sorrindo a quem entra, fazendo vénia a quem sai, mal sabendo da nobreza que inspira a sua simplicidade de anacoretas, de vigilantes testemunhas de um mundo que já foi. Esta magia de morno incenso não existe, nunca existirá nos grandes, desinfectados, gélidos edifícios do comércio da modernidade, onde, assumo, gosto de me mover. Falta-lhes, assuma-se, o rarefeito mistério de que são feitas todas as densas ficções...

27.3.08

Pormenores*

1. Boicote? Sim. Ultrapassemos a política. Antes da "arte de viver na polis", já era reconhecido aos humanos o direito ao factor dignidade. Que os Jogos no passado capazes de impedir guerras sejam hoje factor de guerra de consciência. Vale mais um Tibete com cada uma das suas vidas do que todas as glórias olímpicas que o tempo se encarregará de apagar, mais século, menos século.


2. Julgamento? Sim. Transferência de escola? Sim. Os dois alunos na moda, todos os que assistiram impávidos e/ou ululantes devem sofrer sanções, como qualquer terrorista com intuitos de atentado à paz alheia. Também eu já lidei com alunos absolutamente desequilibrados, cientes do seu poder face a um "estatuto do aluno" que os envolve na mais completa impunidade. Quem está no ensino, sabe que não há qualquer sanção digna de nota, por serem coniventes muitos dos Conselhos Executivos (aplicadíssimos na manutenção da paz podre) e absolutamente esmagadora a burocracia.


3. Romances históricos versus conspirações ficcionadas com cariz de actualidade? Sim. Fazem mais pela cultura geral e pela compreensão do mundo livros do teor de Nossa Senhora de Paris, Quo Vadis ou até os actuais O Código Da Vinci ou O Último Catão do que uma dúzia de teorias da conspiração baseadas num mundo árido, hi-tech, com ambientes vizinhos da Nasa ou do Pentágono. Limitam-se a eternizar a imbecilidade dos argumentos de uma série de filmes hollywoodescos visando cronicizar a mentalidade tão cara aos Big Brothers dos EUA. Demenciais e desenraizados de séculos de (boa) cultura europeia. A base de (praticamente) tudo o que é válido hoje, como bem se sabe.







* que não "detalhes", como hoje quase todos dizem, herdada do francês détails e mais um decalque da horripilante invasão do Português do Brasil. Evite-se.

8.3.08

Marchar sobre Lisboa (já não chega)...

1.
Uma "marcha de protesto"
será sempre legítima para quem nela acredite.
Hoje, professores protestam em nome de quem são.
2.
Existem variantes de uma Língua:
a que amo é a variante de Português Europeu.
Nenhuma outra, o que exclui o Português do Brasil.
3.
A minha pátria é o Português de Camões.
Os portugueses, professores incluídos e sobretudo eles
deveriam dar urros contra a hipocrisia dos políticos:
O Acordo Ortográfico Luso-brasileiro é OBSCENO.
Tão INSULTUOSO como EXECRÁVEL!
Isso sim, vale todas as marchas de protesto. Sem aspas.
Acorda, povo imbecil de bradar aos céus!
Acorda, Poeta, que te humilham!