Mostrar mensagens com a etiqueta Ternuras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ternuras. Mostrar todas as mensagens

20.5.08

Irmã pequenina

O teu riso, Mariana, afasta o ácido sol do dia e acende-me a noite serena. Chamas-me "ia" e o que oiço é "mãe". Caminho pela casa penumbrosa e dou-te colo. Poisas-me no ombro a cabecinha loira de penugem e o teu pescoço delgado encaixa na minha estrutura pacífica aos outros. Ris, cúmplice, e fechas os olhos de rasgado verde escuro. Nunca me negas beijos e procuras-me em todas as casas. Se alguém chega, sou eu; se alguém chama, atendes chamando-me; se queres festa, abres-me os braços e corres para os meus. Na tua língua pequenina, o meu nome é deliciosa ondulação musicada. Recebes-me bem, abraças-me muito, embalas-me o riso, lutas pelo espaço sobre a minha perna, trono teu, despertas na Inês encantadores, fraternos ciúmes. Quando chegas, abre-se um dialecto de anjos nas horas do meu dia. E tudo passa. Tudo se arruma como livros numa estante, todas as coisas se encaixam em harmonioso embalo contra as horas amargosas, anjo meu pequenino e vaporoso, bege rosado, areia morna e claves de riso, nicho de horas do silêncio, mágica paz, Deus renascido nas minhas horas a sós com a lei do esquecimento, bebé em concha contra o meu neutro peito.

13.2.08

Música & Letra(s)

Uma pianística ternura, mesmo se a nossa infância terminou há quase trinta anos. É o meu caso. Não obsta a que tenha lido o livro pianissimo 2 vezes e percorrido todo o dvd umas 3 em allegro molto vivace, passando por maestoso até terminar - por hoje - num movimento affetuoso...
Bemol Saltitante
Um ratinho ao piano
de
Antonio Amago / Nuria Rodríguez
QUIDNOVI, 2006

4.1.07

Estado (in)civil: feliz.

- Alguém ter dito em mais do que uma reunião de conselho de turma que a nossa é a aula preferida da criançada;
- Sairmos da quadra natalícia mais magrinhas do que entrámos;
- O mais belo espécime masculino no qual nos poisaram os olhos (Ai meu Deus, a tentação, o odor, os movimentos, as mãos quentes, os olhares de fogo daquele homem!) ter-nos escolhido de entre uma multidão de galináceos e, melhor ainda, sem que para tal - e respeitando uma velhinha convicção - tenhamos movido um cabelo, uma unha, uns olhos brandos e piedosos (quem somos nós afinal, hein (pá)? O lado Allumeuse que todas as mulheres têm esbraceja dentro do meu corpo formatado para o bom comportamento... Aiii);
- Termos de prender os cabelos e vestirmo-nos formalmente para que algumas pessoas não se ponham a olhar-nos descaradamente na rua (o meu pai diz que a família tem por hábito olhar a direito para os olhos dos outros, tentando ler-lhes a alma e que os outros vêem a nossa luz: guilty as charged!);
- "Certas e determinadas pessoas" (horrível expressão dos pleonásticos lisbonenses) oferecerem-nos gadjets e roupinhas interiores que teriam feito sorrir muito pouco a nossa mãe, mas nos dão a perfeita noção da perturbação causada na memória que nos interessa reavivar, enxamear, afoguear (segura-te, rapaz!);
- Termos poder de encaixe para levar a bom termo uma conversa com um alcoolizado num café sem perder a classe, o sorriso doce, estender-lhe a mão, ele tratar-nos por senhora-menina, elogiar-nos os pais: é incrível o que se aprende com as pequenas histórias que nos roçam os dias ( e Deus insiste em enviar-me sinais!);
- Os amigos que a vida de nós foi afastando (muito tempo, muito espaço) prezarem-nos como no primeiro momento!
- A nossa criatividade trazer-nos às pontas dos dedos histórias sistemáticas que nos apressamos a anotar e guardamos em gavetas com prazos de abertura bem calculados, exactamente como a nossa língua se acastanha de um delicioso chocolate preto que, amargoso e doce, se encaixa nos cinco sentidos a ponto de trazer ao corpo a reclinação dos rendidos e aos olhos o fechamento húmido do prazer.
Olá, 2007!
:0)

3.12.06

Grata

O meu espírito balança-me com o corpo

Entre You Don't Know You're Born de um Knopfler guardado no meu mp3 na cadência certa que me faz balançar o corpo como poucos naquela cinzenta sala de professores e a Music for Wellbeing, em recorte New Age que oiço nesta casa que é a minha; entre o perfume que me envolve as roupas negras com diáfana blusa em lilazes transparentes sobreposta vaporizando-se nos movimentos das minhas ancas e as volutas do incenso espiritual que me sobem pelas paredes do lar; entre esta vontade de mostrar-me a ti e aos da tua espécie no meu melhor e arrebatar com o poder que só uma Mulher-que-sabe tem e uma beleza que me assusta e sempre neguei escondendo-a do mundo por temer essas entradas em salas onde se voltam cabeças e me pensava apoucada espiritualmente... balançam-me os dias e as noites.
Sou ameninada e mulher-fatal, anjo deslizante e aranha-viúva-negra; feminina até ao âmago num tórrido blues entre Hayworth e Krall e rocker de pesadíssimas baladas-And-Nothing Else-Matters na narcose do meu desejo. Devo estar no fim dos tempos, de tal forma a vida me surpreende e a eu que escondi me assalta a cada curva. Ora diluviana em arroubos de sedução, ora recolhida nas protecções das folhas brancas onde outros escreveram, muito me denuncia: o pé bate no chão ao ritmo do que me ofereça, at random, o mp3; a pele do rosto cora e os olhos fingem indiferença semicerrando-se para dar ar grave, batendo na face as pestanas reflexivas; caminho na plena fruição das minhas entranhas, as coxas colunatas torneadas pelas mãos que só eu sei, o património por inteiro escondido dos olhos de um mundo desmerecedor por demasiado banal. Excito-me com Proust e outros sabedores-não-óbvios, desprezo os langores de tudo o que for demasiado evidente. Excitam-me a inteligência e os seus piropos calados; os "silêncios eloquentes" e os suspiros dos homens com imaginação para além do que em mim aparenta frieza; encanta-me a porta que me seguram, a passagem que me abrem, as palavras baixas denotando suave perdição, lábios de boca casta que se enchem com a idade, as narinas palpitantes como as minhas, sinais acusadores de sentidos alerta. Encanta-me a corte feita a compasso, um dia atrás do outro, ousadias esparsas que me desarrumem, em última análise, o penteado sóbrio e revelem os caprichos de cabelos que me denunciam (ruiva! cuidado, cuidadinho, sou ruiva no âmago!). Encanta-me o discreto despudor das palavras ácidas, fazer ler nas entrelinhas a quem eu quero, repudiar o dedo de um qualquer apressado guloso que, aparência distraída, me toca as mãos geladas durante a conversa, fingir-me desentendida, levar ao quase-desespero (o tântrico não é para fracos!): esperar é uma virtude e escolher uma outra mais exigente art de vivre... Cabe-me a escolha final: nunca me enganei. Reservado - ainda e sempre - o direito de escolher quem ame, sobre todas as coisas, as palavras impressas e ditas, a inteligência dos silêncios, os avanços a meu contento, as noites sem fim à vista, a impossibilidade do retorno de um jardim de delícias onde se pode muito bem perder noções básicas como a da passagem do tempo, a do nosso nome real doravante aposto de sinestesias, a do que se quer a partir daí. A incógnita será sempre parte da sinuosa equação. Não há paradigmas, só aproximações lentas. Requerida, por óbvia, a força do espírito. Sacio-me de almas com ideias. O resto é corpo a cumprir-se. Só. Da viagem, interessa-me o percurso, não o lugar onde aporto.
«Obrigada por (ainda) gostares da minha voz
e ma elogiares na medida certa»,
agradeço num cicio à tua orelha
tão desprevenida como quente.
Voltaremos a encontrar-nos.
Um destes dias, volto a ler para ti.
A ter de vir, que o resto venha por acréscimo, delícia minha.