Lassos os dentes na boca, como lasso o cigarro pendurado sobre o lábio inferior, apenso à leve saliva ácida. Restolho quando fecha o maço, olhar semicerrado pelo exalar da primeira passa, este homem já se afastava há meses. Jura - como se ali aos pés lhe estivesse a sepultura materna, visitada ainda há horas - que não volta a este chão. Fuma pela última vez no país que o cuspiu fora: aqui, já não tem lugar e é esta história que renega. Sem olhar duas vezes sobre o ombro - apanágio de salinas estátuas que se recusará a ser - vai pecar para longe. Se viver é pecar, cairá em falta em lugares mais amenos, onde haja memória, onde abundem alimentos, onde não tenha de comprar casa ou carro para existir socialmente. Exsuda rancor e é neste lugar que o deixa: no aeroporto, o carimbo é a marca derradeira de por cá ter passado. Avia-se. Enjeita o hino, cospe o chão - por uma única vez na vida e com o sentido do asco puro -, ninguém saberá que existiu. O que não falta por aí é mundo...
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16.5.08
30.1.07
Mais do mesmo: Mitos[es] Urbano[a]s
. Afinal, o suposto Mito Urbano relativo a informações avulsas de violações em noites discotecárias é mesmo baseado em relatos fidedignos. Segundo consta, medicação que inviabilize reacções defensivas e memorização dos factos e dos rostos circula nas noites dos E.U.A. e da velha Europa. Pensa-se agora introduzir nessas drogas algo que as altere, deixando rastos do seu uso nas vítimas. Na notícia radiofónica, referia-se a "responsabilização" dos farmacêuticos na venda de fármacos contendo o princípio activo representado por iniciais que não fixei...
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. Como me tinham dito os mais avisados, a entrevista da Goulão, tal como a da Quevedo (aguentei 3, 4 minutos de cada uma) foi [com licença] "uma merda". Assim me dizem, assim confirmo, sem mais a acrescentar além do facto já de si repulsivo: "vozes sem duende*". Uma alma é uma voz.
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. O blog que o meu amor identifica como o melhor dos dezasseis (!) que criei desde 2003 tem tido as visitas suficientes que me mereçam novos posts por estes dias. Já tinha saudades do que é vetusto e venerável. Tentarei colmatar o facto ouvindo mais a Antena 1. Mas não aos domingos. Não aos domingos. Qualquer humano não-néscio, minimamente inteligente percebe que o Rolo Duarte pretende (ainda e sempre) apoucar os blogs. Tem conseguido. Com amigos como estes...
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Definitivamente, a Mitose que dá título a este post deixa-me apreensiva e aqui fecho a minha escrita circular e agridoce: as células dividem-se sempre reproduzindo-se em iguais... não era?...
Boas noites, mundo. Ah, Metropolis... Ah, Fritz Lang...
* expressão de Garcia Lorca, aqui usada sem a autorização do amigo que dela faz bom uso. Salvé, señor!
15.1.07
Elas X 3
Hoje.
Este post é sobre elas.
Este post é sobre hoje.
Por três histórias (sim, com h), este post eterniza desta anónima as simples impressões na retina a papel-químico.
Três mulheres.
1. Uma, envolta, como eu, em acidente breve. Somos vários. Param-se viaturas rasuradas nos brilhos de cinco minutos antes. Trocam-se números: não há tempo para mais, urge-nos o trabalho em diferentes cidades, direcções dos pontos cardeais a perder de vista... Alguém me liga depois. Assombro: que confia! Confia, gostou de mim, dispõe-se a ajudar no necessário, que é preciso confiar nas pessoas, uma vez que poucos - nos nossos tempos inóspitos - teriam parado, atendido a chamada, assumido erros... (pasmo com os sinais que Deus insiste em enviar-me.)
2. Duas: uma, eu saudável, flor da idade, duas pernas que a desloquem, ágeis; outra, ela doente, mais de meia-idade, duas pernas, uma saudável, uma que se arrasta, uma outra ainda, postiça, em bengala de motivos orientais... Refeição comprada, ninguém lha poderá levar a casa. Braços ocupados, uma mão não-reactiva, lentidão, ela reclama: o restaurante deveria pensar nos que, sem facilidade de movimentos, requerem saco próprio ou cordel que segure a embalagem. Embora carregada, ofereço-me, que é já ali, a uns quinhentos metros, não custa nadinha. Sem procurar, faço nova amiga: ela abençoa-me! (Abençoo-a eu, por me ter dito tanto em alguns passos incertos, infirme de mundo.)
3. Três: Ela trabalha, como eu. Frescuríssima, no seu rosto breve, corpo esguio de jovem mãe, asseio até nas frases, riso franco e alvo, a estampa da típica rapariga nortenha com a classe e o savoir faire minhotos, sinceríssima, o profissionalismo ali mesmo, ao meu lado, como é seu costume. Assim, sem mais, ela - que já lutou pelo melhor em muitos tipos de trabalhos na vida, uma lutadora como eu apenas sonharia ser - decide contar-me o que quer "ser para sempre, a partir de um dia destes"... Pasmo de novo. Digo-lhe que é a terceira coisa fantástica no meu dia. Ri comigo. (Mal sabendo que o meu dia começara acidentado, sabe que eu abençoo o desaire que me mostre como fui feliz até aí...)
Estas três mulheres fazem-me sentir digna. Inteira. Ignoro a maior parte das suas vidas. Ignoro se fizeram abortos e ainda bem - pois esse é o papel de Deus e eu sou feliz só com o que vejo ao nível destes olhos e sinto com os seis sentidos em pleno - mas fazem-me sentir digna. Inteira na minha feminilidade. Penso então nessas profissionais do palavredo supostamente respeitáveis, as que se dão pelo nome: penso nas bloggers que ao que dão como alimento ao mundo apõem o nome de um homem, o pai. De todas, quase todas as que se dão pelo nome deixaram sempre - nessa marca de família que é o nome do pai -a feminilidade forçada, o intenso odor do asco, um sorriso amarelado enxofre, indizíveis amarguras ao nível de frases como "a barriga é minha" (infelizmente, também o cérebro!)...
Da enorme massa anónima das bloggers portuguesas sai então a graciosidade que não lhes negue a raça digna dos genes em i grego, sem intuitos de arma-de-arremesso, sem medir amigos, sem medir carreiras, sem medir supostas metrossexualidades de vão-de-escada "o corpo é meu, desfaço nele o que quero". Senti-me indignada por ser mulher quando li os blogs supostamente bons, os sem-papas-na-língua, os que não daria a ler às minhas alunas, às minhas amigas, às minhas filhas, à minha mãe. Ou sequer - mais libertários eles fossem - aos iluminados homens que amei, porque essas são justamente as mulheres que eles se cansaram de conhecer espelhadas na palavra vulgaridade. Nenhum dos homens que amei suportou, suportaria a vulgaridade por isso me amaram de volta e por isso ainda me chamam e para sempre amiga, irmã, Mulher... É essa a minha medida. A medida da minha dignidade é a medida das mulheres que amo por espelharem as mulheres de certa cepa. Porque, mesmo não querendo ser Deus, não sei medir o mundo senão a partir do que me foi dado como legado: rectidão; ternura; humildade. O que é genuíno, então?
É a mulher 1, pela sua ternura;
É a mulher 2, pela sua humildade;
É a mulher 3, pela sua rectidão.
Do resto, sobra o folclore do eu-também-tenho-uma-opinião-sobre das mulheres do meu país que, de inodoras, insistem agora em agitar os braços, mas nas horas de estar por perto para os compromissos com as suas supostas convicções, os deixam caídos. Porque, após o mediático, não querem saber. They just don't care. Nem da ternura, nem da humildade, nem da rectidão. Bichos de prazeres barulhentos e muito pouco espírito de grupo, comprazem-se em ruídos de fundo, quando o fulcro desta questão - como de tantas outras - lhes passa acima, ao lado, muito perto do desnorte, a milhões de anos-luz. Desgraçadamente, a maioria já teve acidentes, problemas de saúde, falta de trabalho, como as mulheres 1, 2 e 3. E contudo, hoje particularmente, mais ninguém se pôs do lado delas em apoios pouco mais do que banais... Algo me diz - intuição de mulher número 4? - que igualmente na questão mais feminina que existe, as abortadeiras de integridades, liberdades de todas as outras em volta ou da mais instintiva e básica noção do sagrado permanecem imbecilizadas, presas de ideias feitas por grupelhos com cores políticas impressas, mais vácuas nas fontes cerebrais do que nos ventres, apoucadas no que têm de traço distintivo. Assisto, com as outras três mulheres, à trepanação da inteligência por falta de axónios que curto-circuitem ao limbo do espírito, talvez por falta de provas científicas da sua existência, tenha ele dez ou mais semanas... A mulher-macho (o pior tipo de fêmea), disfarçado de mulher, agressivo, tão rude como palavroso, grotesco, tomou posse. Arriscamo-nos agora a que responda por nós. Todas as que somos nós, agora generalizadas na autofagia. A negação da divina centelha, por deprimente, saturnina, recorda-me o Saturno de Goya devorando os filhos. Como as novas Amazonas é ímpio, imundo, desfigurado, fétido. O meu mais sensível sentido é este, o do olfacto, por isso me repugna sobremaneira o anti-odor da morte na velha Europa.
27.12.06
Folheável
Escolho o Bien-être: «Cette année, je m'occupe de moi» (pp. 98-101)
& «L'Optimisme, ça se cultive!» (pp. 90-96).
Adorei o Dossier Spécial Réveillon (pp. 18-38): «150 idées express pour faire la fête!», as modelos cheiinhas, braços,sorrisos e seios generosos de gente com riso dentro, num savoir-faire de brilho que por cá mal se imita. Há qualquer coisa de saudável nas revistas francesas e italianas que por cá soa a excesso de bases de maquilhagem e publicidades de luxos insustentáveis à maioria das carteiras (ver, p.f., a "veste smoking fermée par un ruban", soit disant, casaco-smoking fechado com laço a... 35 Euros! Onde, aqui em Portugal? Uma peça daquelas por 35? Onde? A beleza daquele casaco! A loja? Despretensiosa, como tudo o que é bom: "Tout simplement pour Géant"... Et voilà, tout simple et... beau comme le jour!).
Portugal vive, ainda e sempre de aparências. Falta, às revistas como a quem circula nas ruas cinzentas como o povo, aquele bem-estar realmente sadio dos risos frescos, das imagens naturais, do culto da estética. Por cá, um postiço de manter aparências, um exagero de arrebiques, o empoado de Pompadours sem o duche de frescura de espírito que, noblesse oblige, é muito mais importante do que a monumental merde a que chamam "A" moda... Faltam a tal felicidade endógena, a tal beleza que vem de dentro, a capacidade de se estar feliz com a alegria dos outros em volta, o brilho dos olhares sãos e sábios. E não me venham falar da antipatia dos franceses! Oh lala, quelle bêtise... Eux, comme elles: charmants! Être français? Mais c'est (tout) un mode de vie!
Allez, Bonne Année deux mille sept!
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